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O caso dos tons frios desaparecidos: estará a beleza a ficar sem azul?

21 May 2026
By Esteban G. Villanueva

Lea de Wouters fotografada por Domen e Van de Velde e cabelo e maquilhagem de Magdalena Loza, para a edição Reflections da Vogue Portugal, publicada em fevereiro de 2021.

A maquilhagem está mais quente do que nunca — e a Internet tem as suas teorias. De rumores sobre uma escassez de pigmentos azuis a questões relacionadas com a composição dos produtos, com a iluminação e as mudanças nas tendências, investigamos o que está realmente por trás da transição da indústria da beleza para os tons alaranjados.

Se tem os pés assentes no mundo da beleza há tempo suficiente para ter testemunhado a ascensão, a queda e a ressurreição discreta das sobrancelhas finas, dos frosted lips e da pele excessivamente bronzeada — ou se alguma vez deu por si num rabbit hole à procura daquele tom exato de rosa-bebé leitoso que viu num editorial de 2003 — provavelmente já reparou nisto: ultimamente, tudo parece mais quente. Não é aquele tom sun-kissed, nem dourado — apenas… mais quente. Quase laranja.

E embora possa parecer dramático comparar a situação atual da maquilhagem ao aquecimento global, para quem é fiel aos tons frios — seja por preferência ou por necessidade —, começa a parecer suspeitosamente real. Uma mudança lenta, quase impercetível, onde os subtons em que outrora confiávamos parecem ter desaparecido de forma silenciosa.

Os contornos já não se definem com sombras, mas sim com tons de bronze. Os delineadores de lábios, outrora neutros, assumem agora tons pêssego. As novas fórmulas prometem os mesmos tons, mas, de alguma forma, ficam diferentes na pele. Em todas as categorias — desde batons a sombras de olhos, passando pelo elusivo stick de contorno —, a procura tornou-se estranhamente específica: não se trata de algo novo, mas sim de algo mais cool. Algo que já existiu.

Isso leva-nos a questionar: o que se passa, afinal, com os tons frios? Estão bem? Estão a perder força? Ou — de forma mais dramática — estarão a extinguir-se silenciosamente? E, se for esse o caso, porque é que as marcas já não os produzem?

Para responder a isso, temos de entrar no mundo dos pormenores técnicos. É hora de vestir as batas de laboratório. Porque este mistério resume-se a uma coisa: o azul.

O pigmento azul nos cosméticos é um daqueles ingredientes que desempenha um papel surpreendentemente importante nos bastidores — mesmo quando o produto final não parece azul de todo. Funciona tanto literalmente (para criar tons azuis) como estrategicamente (para alterar, neutralizar, iluminar ou arrefecer uma fórmula). É por isso que, quando os produtos começam a apresentar tons pêssego, mais quentes ou mesmo alaranjados, há quem aponte um único culpado: a falta de azul na fórmula.

Para compreender o porquê, temos de voltar à teoria das cores. No espectro, o azul situa-se claramente na família das cores frias, ao lado do verde e do roxo — e, fundamentalmente, fica em oposição ao laranja. Ou seja: neutralizam-se mutuamente. É a mesma lógica que está por trás dos corretores verdes que neutralizam a vermelhidão.

Na maioria das formulações cosméticas — especialmente nos produtos para a tez —, a tonalidade final raramente resulta de um único pigmento, mas sim de um equilíbrio. Vermelho, amarelo, branco, preto e, sim, azul, são misturados em proporções variáveis para criar desde os tons mais claros até às tonalidades mais escuras. É claro que ninguém pretende ficar com um tom azulado, mas o azul é frequentemente o que impede um produto de ficar demasiado quente.

Se for utilizado em excesso, o resultado pode parecer acinzentado, quase sem vida. Mas, quando em falta, de repente, tudo começa a mudar. Mais quente. Mais pêssego. Um pouco estranho. Eis que surgem as teorias da conspiração.

Se o pigmento azul é a espinha dorsal de qualquer bom tom frio, a sua ausência repentina começa a parecer… suspeita. Será que estamos mesmo a ficar sem azul? É essa a pergunta que os utilizadores do Reddit e os apaixonados por maquilhagem têm vindo a fazer — trocando ideias em vários tópicos, elaborando teorias, algumas baseadas na realidade, outras a desviar-se diretamente para o território dos Illuminati.

Há quem diga que estamos, literalmente, a ficar sem azul. Outros argumentam que é simplesmente demasiado caro — um ingrediente discretamente eliminado em favor de alternativas mais económicas. Depois, há quem insista que é um pesadelo em termos de formulação: demasiado instável, demasiado difícil de acertar. E, claro, as teorias mais ambiciosas sugerem algo muito maior — que o pigmento azul está a ser redirecionado para outros setores, desviado para indústrias como a de revestimentos de automóveis ou, de forma mais dramática, para as grandes empresas tecnológicas.

Afinal, o rabbit hole é bem fundo. Algures entre o true crime e uma lógica com proporções extraterrestres, a "conspiração do pigmento azul" tornou-se um dos enredos secundários mais inesperados da indústria da beleza. Fascinante, um pouco descabida e — infelizmente para quem esperava um escândalo —, em grande parte, falsa.

Ainda assim, vale a pena analisar essas teorias. Portanto, para separar a realidade da ficção, recorremos a duas amigas da Vogue — uma química cosmética e uma maquilhadora com décadas de experiência no setor — para conhecer a sua opinião sobre o que se passa realmente com o azul.

Teoria 1: estamos a ficar sem azul

Esta é talvez a teoria mais simples de todas. Os produtos estão a ficar mais quentes, e o azul é o que mantém os tons frescos — por isso, naturalmente, a conclusão é que estamos a ficar sem ele. A lógica faz sentido. E quando se olha para a história, parece quase plausível.

Durante séculos, o azul foi uma das cores mais difíceis de obter — e das mais valiosas. O exemplo mais icónico é o ultramarino, originalmente obtido através da trituração do lápis-lazúli, uma pedra semipreciosa extraída principalmente no que é hoje o Afeganistão. Era tão caro que os pintores costumavam usá-lo com mais moderação do que o ouro. Durante o Renascimento, os mecenas pagavam um preço elevado para que as vestes da Virgem Maria fossem pintadas em ultramarino, um símbolo visual de riqueza, devoção e estatuto.

Portanto, sim, a ideia de que o azul é raro tem raízes culturais profundas. Mas na cosmética moderna, a realidade é bem diferente.

Hoje em dia, os pigmentos azuis não só são acessíveis como são padrão. Os mais utilizados incluem os ultramarinos (CI 77007), um pigmento de origem mineral presente em sombras, blushes, batons e até produtos para a tez; o ferrocianeto férrico, mais conhecido como azul da Prússia (CI77510), um azul-marinho profundo de alta intensidade; e o Blue 1 Lake (CI 42090), um azul vívido sintético, altamente estável e amplamente disponível.

Por outras palavras, embora o azul possa ter sido outrora tão raro que rivalizava com o ouro, agora já não é um recurso escasso em laboratório. Então, estamos a ficar sem azul? Nem por isso.

Teoria 2: é difícil trabalhar com azul

Esta teoria baseia-se na primeira, mas desloca o foco da escassez para a formulação. A ideia é simples: talvez o azul não esteja em falta — talvez seja apenas difícil de utilizar.

E, até certo ponto, é verdade. Alguns pigmentos azuis — especialmente os ultramarinos — são quimicamente sensíveis a ambientes ácidos, o que pode desestabilizar a fórmula e, em alguns casos, chegar a produzir um leve odor a enxofre. Não é bem o que se espera de uma base de maquilhagem.

Mas, mesmo assim, isto não explica totalmente o aparente desaparecimento dos tons frios. Tal como no caso da disponibilidade, as fórmulas modernas oferecem soluções alternativas. As alternativas sintéticas conseguem reproduzir o mesmo efeito tonal sem a mesma instabilidade, tornando o argumento de que são "demasiado difíceis de usar" apenas parcialmente convincente.

Na verdade, o azul continua a ser fundamental para a composição da cor. Sem ele, as fórmulas tendem naturalmente para os tons quentes. Como explica Ramin Kia, responsável pelo desenvolvimento e gestão de produto da Obayaty: "Os pigmentos azuis são essenciais — sem eles, as fórmulas tendem naturalmente para os tons quentes ou amarelados. O principal desafio é que podem criar um tom acinzentado ou esbatido indesejado, especialmente em tons de pele mais escuros. Alcançar tons verdadeiramente frios ou neutros requer um equilíbrio cuidadoso entre os pigmentos azuis e violetas, o que torna o desenvolvimento de tons mais complexo".

Essa complexidade é algo que o maquilhador profissional e estratega de comunicação na área da beleza Massimo Mazzotta Møller tem observado em primeira mão ao longo de mais de 20 anos no mercado. "Também temos visto o quão desafiante toda essa “família” de pigmentos mais frios pode ser nos cosméticos de cor. Por exemplo, os roxos verdadeiros eram raros em delineadores, lápis e produtos para os lábios até há muito pouco tempo; foi apenas nos últimos anos que a tecnologia permitiu realmente que tons de roxo e azul mais estáveis e saturados aparecessem em produtos de uso diário. Isso diz muito sobre o quão tecnicamente exigentes estes pigmentos ainda são, e porque têm um impacto tão significativo quando as marcas decidem até onde querem levar os tons neutros ou frios nas suas gamas".

Por outras palavras, a questão não é que o azul não possa ser usado — é que usá-lo bem requer precisão.

Então, o que está realmente a acontecer com o azul?

Se acreditarmos no que se diz na Internet, estamos a um passo de uma verdadeira crise de pigmento azul. Mas, na realidade, a resposta é muito menos dramática — e muito mais complexa.

Porque, dependendo de a quem perguntarmos, o "aquecimento" dos cosméticos é ou muito real… ou não é bem o que parece.

"Há uma perceção crescente de que a maquilhagem se tornou visivelmente mais quente", afirma Mazzotta Møller. "Mas isso também é amplificado pela forma como nos vemos agora. Estamos a olhar para os nossos rostos mais através de câmaras e iluminação artificial do que à luz natural, pelo que qualquer toque de calor adicional parece ainda mais evidente no ecrã".

Kia, no entanto, tem uma visão mais pragmática. "Não creio que essa mudança seja real", explica. "A maioria das marcas está a tentar ser mais inclusiva na sua oferta de tonalidades. Mas isso também depende da marca e do seu mercado-alvo. Uma vez que os tons quentes representam a maioria dos tons de pele do mundo, muitas marcas — especialmente as mais pequenas — tendem naturalmente para essa direção".

Então, será perceção ou realidade? Provavelmente ambas.

Do ponto de vista da formulação, as texturas mais recentes não estão propriamente a ajudar a causa dos tons frios. "As bases de cobertura total, longa duração e à prova de água têm maior tendência para oxidar", observa Mazzotta Møller. "Quando isso acontece, muitas vezes secam de forma mais intensa e tendem para tons mais amarelados ou alaranjados." Acrescente-se a isso o aumento da rotina de cuidados da pele em camadas — séruns, cremes, SPF — e as fórmulas estão agora a reagir a mais variáveis do que nunca, muitas vezes alterando-se mais rapidamente e tornando-se mais quentes na pele.

Kia concorda que a resposta não é única. "É uma combinação de fatores", afirma. "A preferência dos consumidores é provavelmente o principal fator, especialmente com o domínio global dos tons mais quentes. As redes sociais e a cultura de Hollywood também têm promovido uma estética mais dourada".

E depois, claro, há a forma como realmente experimentamos a maquilhagem na vida real — ou, mais exatamente, nas lojas. Porque algures entre o TikTok e o espelho do provador reside uma das teorias mais divertidas: que a iluminação da Sephora é, na verdade, parte do problema.

Parece ridículo — até deixar de o ser. A iluminação das lojas é concebida para realçar, para vender, para fazer com que tudo pareça um pouco mais harmonioso. E os tons mais quentes, por natureza, tendem a parecer mais saudáveis, mais suaves e mais imediatamente "adequados" sob a luz artificial. Os tons mais frios, por outro lado, podem parecer baços, sem vida ou até ligeiramente desajustados nessas mesmas condições.

O que significa que, conscientemente ou não, o ambiente em que fazemos as nossas compras pode estar a reforçar subtilmente uma preferência pelo calor — amostra a amostra. 

Para além disso, há também a forma como a maquilhagem é aplicada hoje em dia. Menos precisa, mais em camadas, ligeiramente caótica. "Deixamos de distinguir a cor verdadeira de cada produto", observa Mazzotta Møller. "Tudo se funde numa mistura única, ligeiramente mais quente".

E quando essa se torna a linguagem visual dominante - nas redes sociais, nos tapetes vermelhos, nos nossos próprios ecrãs —, começa a redefinir o que consideramos lisonjeiro. No entanto, se tudo parece mais quente agora, isso não significa que seja permanente. "Os tons mais frios já estão a começar a voltar, especialmente na zona dos olhos", acrescenta. Não é um desaparecimento. É apenas uma mudança.

Portanto, não, não estamos a ficar sem azul. Mas algures entre a composição, a iluminação, a aplicação e as preferências culturais, talvez tenhamos esquecido como vê-lo — ou como usá-lo.

Porque o futuro dos tons não se resume a quente versus frio, mas sim ao equilíbrio. E se o regresso discreto dos tons mais frios serve de indício, o azul nunca desapareceu — estava simplesmente à espera do momento certo para voltar a ser o centro das atenções.

Esteban G. Villanueva By Esteban G. Villanueva

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