Moda  

O arquivo tangível da memória: será que o nosso guarda-roupa acumula emoções?

01 Jun 2026
By Rita Petrone

Fotografia de Radka Leitmeritz e Rene Hallen. Editorial Going Under, da edição Going Deep Issue da Vogue Portugal, publicada em junho 2018.

A Moda é uma contadora de histórias; do passado, do presente e do futuro. Mas o que é que acontece quando essas histórias se tornam memórias? Será o que acumulamos no guarda-roupa um desafio à razão ou apenas um espaço onde as emoções se perdem entre joias e costuras?

Quem nunca roubou algo do guarda-roupa dos pais ou avós que atire a primeira pedra. E quem nunca guardou uma peça — seja esta de roupa, uma joia ou até um par de sapatos ou uma carteira — sabendo perfeitamente que as probabilidades de a voltar a usar são abaixo de mínimas, que atire a próxima. O nosso guarda-roupa é uma extensão da nossa identidade: acumula memórias e espelha traços de personalidade que se desenvolvem com o tempo. Este é um processo que acontece de forma inata, desafiando as regras de raciocínio que ditam a lógica. Afinal, se pensarmos bem no assunto, tal como a Dra. Soljana Çili, professora catedrática de psicologia na London College of Fashion e editora principal do livro Applied Psychology in Fashion: A Research-Informed Approach, diz, “como a maioria dos objetos materiais, é improvável que os artigos de vestuário [incluindo joias, calçado e acessórios] possuam um valor emocional inerente”. Mas isso não quer dizer que não lhes possa ser atribuído esse valor à medida que os associamos a diferentes significados específicos.

Regra geral, como explica a especialista, os objetos que apreciamos e aos quais nos afeiçoamos estão ligados ao nosso sentido de identidade, podendo recordar-nos pessoas, lugares ou acontecimentos específicos da nossa vida — nomeadamente coisas que ocorreram num momento e local específicos num intervalo de 24 horas ou que se repetiram ou prolongaram. Dos brincos da avó ao cachecol que, de forma subtil, desviamos do hall de entrada da casa do nosso pai ou até ao look que usámos durante um primeiro encontro, a Moda passa a ser vista (e sentida) como um fio condutor da nossa própria essência. “O facto destas peças ficarem associadas a memórias e significados específicos significa que, quando as vestimos ou vemos, é provável que sintamos as emoções que estávamos a sentir no momento em que os acontecimentos retratados nessas memórias ocorreram”, diz a Dra. Çili. Aliás, a investigação da área da memória sugere mesmo que “quando recordamos uma memória autobiográfica — especialmente uma que tenha desempenhado um papel na definição da nossa vida ou na forma como nos vemos a nós próprios —, é provável que sintamos emoções fortes. Podemos sentir um aumento ou diminuição temporária de autoestima, dependendo se a memória que estamos a recordar é positiva ou negativa”, explica.

Regra geral, os objetos que apreciamos e aos quais nos afeiçoamos estão ligados ao nosso sentido de identidade, podendo recordar-nos pessoas, lugares ou acontecimentos específicos da nossa vida.

Quando nos vestimos, a nossa personalidade assume uma posição central na forma como nos posicionamos no espaço e no tempo à nossa volta. A Moda é apenas a ferramenta principal deste processo. “As teorias e os estudos da psicologia social e da personalidade sugerem que as pessoas tendem a ter um sentido de identidade central, relativamente estável e coerente, que engloba tudo o que reconhecem como sendo o ‘eu’”, diz a Dra. Çili. “Isto inclui, por exemplo, traços de personalidade, valores, objetivos, papéis sociais, o ‘eu’ ideal de cada um, as narrativas que as pessoas criam sobre quem são e de onde vêm, memórias autobiográficas e assim por diante”, continua.

No seu livro, Applied Psychology in Fashion, a professora e autora explora, juntamente com os restantes investigadores do projeto, o universo expansivo do vestuário, concluindo que as peças que constituem o nosso guarda-roupa podem tanto expressar o "eu" como alterá-lo ou (re) construí-lo após eventos significativos. “Um guarda-roupa pessoal, contém, sem dúvida, muitas peças que compramos por impulso ou por necessidade. Isto significa que nem tudo o que temos no nosso armário expressa algo de profundo sobre nós”, reflete a Dra. Çili, “no entanto, a investigação sugere que muitos itens são suscetíveis de dar pistas sobre quem somos, quem fomos, quem podemos aspirar a tornar-nos no futuro, o que valorizamos na vida, a que grupos sociais pertencemos e quais as nossas necessidades”. Dessa forma, “o guarda-roupa pode também ajudar a transformar a nossa identidade, na medida em que, por exemplo, vestirmo-nos como o nosso “eu” ideal pode, por vezes, ajudar a aproximarmo-nos desse “eu” ideal”.

Mas será isso justificação para acumular inúmeras joias ou peças de vestuário na mera esperança que estas nos transportem numa viagem pela nossa memory lane ou nos inspirem a tornarmo-nos a melhor versão de nós mesmos? É um dilema complexo, e, como tal, a resposta é tudo menos simples ou direta. O valor de cada coisa que guardamos no refúgio das nossas quatro paredes é uma combinação entre o emocional e o monetário, e mantê-las na nossa posse de forma permanente é algo inteiramente dependente da relação que criamos com as mesmas. A Dra. Çili explica que faz sentido manter uma peça parte da nossa realidade apenas quando alguma destas opções se verifica. A primeira é se associamos a peça a crenças e memórias positivas ou se nos faz sentir mais próximo das pessoas cruciais à nossa intimidade. A segunda é se a peça em questão nos inspira e motiva a tornarmo-nos no nosso “eu” ideal. Por fim, a terceira é se a peça nos ajuda a compreender o nosso futuro e a estabelecer uma continuidade entre o presente e o passado.

Como a especialista explica, “a investigação sugere que perceber o ‘eu' como sendo consistente e coerente, apesar das mudanças ao longo do tempo e entre contextos, é benéfico para o bem-estar.” “Acredito que as peças de vestuário podem ajudar a manter essa sensação de continuidade do ‘eu’, e que muitas delas guardam a nossa história”, continua. Por outro lado, caso uma peça esteja associada a memórias dolorosas de uma forma que não nos permita processar as mesmas, ou no caso de querermos começar uma nova fase da nossa vida, torna-se benéfico livrarmo-nos dela. Afinal, por vezes, “uma autodescontinuidade intencional e deliberada pode ser benéfica”, diz.

O valor de cada coisa que guardamos é uma combinação entre o emocional e o monetário, e mantê-las na nossa posse de forma permanente e algo inteiramente dependente da relação que criamos com as mesmas.

Na sua essência, a Moda pode ser um ato de coração, de razão, ou de ambos. De herdar relíquias familiares a jurar lealdade à técnica de girl math, curar um guarda-roupa singular à nossa identidade é uma tarefa que se constrói ao longo do tempo. Ainda assim, a professora e autora defende que, “quando tentamos racionalizar algo, esse é um bom indicador de que isso nunca foi racional; estamos apenas a tentar encontrar desculpas para justificar essa decisão”. Há certos itens cuja necessidade no nosso dia a dia os tornam estritamente funcionais; no entanto, há circunstâncias nas quais as emoções ou impulsos podem fazer a diferença. “No caso de artigos que não têm necessariamente uma função específica ou de artigos de luxo, a decisão de compra pode ser mais influenciada por emoções e processos irracionais do que por razões racionais”, partilha.

Por sua vez, quando se fala de objetos que previamente pertenciam a pessoas da nossa intimidade, como os nossos pais ou avós, estes tendem “a fazer-nos sentir psicologicamente mais próximos deles, ao mesmo tempo que proporcionam uma forma de conforto psicológico ou uma sensação de proteção”. Neste caso, a Moda serve como emblema do passado e das experiências que o marcaram. Estes objetos que, ao fim e ao cabo, atravessam gerações têm o poder de suscitar uma sensação de nostalgia e trazer para a primeira linha da memória momentos especiais e positivos. Assim, apesar de se reger por peças tangíveis que, no início do seu ciclo de vida, surgem sem valor emocional inerente, a Moda acumula memórias, experiências e identidade, servindo como uma lembrança de onde viemos e tornando-se um marcador da sensação de continuidade crucial à experiência humana. Como a Dra. Çili explica, “Ao lembrar-nos das nossas raízes, pode tornar clara a história ou a narrativa que nos levou a tornarmo-nos quem somos no presente”. E isso vai além da razão ou da emoção.

Originalmente publicado no The Heart & Reason Issue, a edição de maio de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.

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