Entrevistas  

Nessa Barrett: "Aprendi a amar alguém sem deixar de me amar a mim"

14 Sep 2026
By Beatriz Fradoca

João Padinha / Everything is New

Há padrões que nos definem e outros que precisamos de aprender a quebrar. Para Nessa Barrett, esse processo passa pelo amor, pelas relações e, sobretudo, pela forma como aprendeu a olhar para si própria. Durante a sua passagem por Lisboa, a cantora conversou com a Vogue Portugal sobre tudo aquilo que fica quando deixamos de repetir as mesmas histórias.

Nessa Barrett chegou a Portugal pela primeira vez e não precisou de muito tempo para se deixar conquistar por Lisboa. Entre uma ida à praia, a descoberta dos pastéis de nata e o primeiro encontro com os fãs portugueses, a cantora e compositora norte-americana viveu a estreia no país antes mesmo de subir ao palco. Conhecida por ter crescido sob o olhar de milhões de pessoas, a artista construiu uma relação próxima com quem a acompanha, transformando experiências pessoais, relações e diferentes momentos da sua vida em matéria para a sua música.

Nesta conversa com a Vogue Portugal, fala sobre aquilo que repetimos sem nos apercebermos, os padrões que demoramos a reconhecer e a importância de aprender a não nos perdermos nas relações com os outros. Entre o amor próprio, a exposição pública e as diferentes versões de si que foi deixando nas suas canções, a cantora olha para o passado com a distância de quem já percebeu que, por vezes, é preciso viver a mesma história mais do que uma vez para finalmente a conseguirmos mudar.

"Tough Love" chega a 25 de setembro. O que significa este título para ti agora que o álbum está terminado?

Escrevi o álbum sobre todos os diferentes tipos de amor que existem na minha vida e acho que Tough Love resume tudo isso muito bem. Nunca tive propriamente a melhor relação com o amor em si, mesmo quando é perfeito. Digo muitas vezes que sinto que sou uma pessoa difícil de amar e acho que o título representa tudo aquilo que tenho sentido. Também acho que é algo com que muitas pessoas se conseguem identificar.

Sentes que o álbum é mais sobre aprender a amar-te de uma forma diferente ou sobre te tornares mais exigente com o tipo de amor que deixas entrar na tua vida?

Acho que é sobre o amor em geral. Há canções sobre amor-próprio, outras sobre sentir que somos demasiado difíceis de amar e outras sobre aquele amor que é difícil de encontrar. Também falo da minha relação de amor e ódio com o sucesso e com Hollywood. É tudo sobre o amor, de uma forma geral. Não é algo específico.

João Padinha / Everything is New

A edição de setembro da Vogue Portugal explora os padrões, aquilo que repetimos no amor, nas relações e na forma como nos vemos. Que padrão na tua vida tiveste de aprender a reconhecer?

Acredito que sou uma pessoa muito extrema. Sobretudo quando entro numa relação, sou muito do tudo ou nada. E percebi rapidamente que isso me levava quase a deixar de cuidar de mim. Por isso, acho que um dos padrões que tive de aprender a reconhecer foi como amar outra pessoa e, ao mesmo tempo, continuar a amar-me a mim. Acho que finalmente consegui quebrar esse padrão.

Achas que reconhecer um padrão é suficiente para o quebrar ou achas que, por vezes, precisamos de o viver mais do que uma vez?

Acho que definitivamente temos de o viver mais do que uma vez, mas isso também é a vida: estamos constantemente a aprender coisas e a passar pelas mesmas situações até aprendermos com elas e conseguirmos seguir em frente. É preciso ser muito sortudo para reconhecer alguma coisa e, de repente, está feito.

Estás prestes a atuar em Lisboa pela primeira vez. O que é que te entusiasma mais e como achas que os teus fãs vão reagir à tua nova música?

Estou mesmo muito entusiasmada por dar o concerto aqui hoje. Tive um meet & greet VIP esta manhã e já pude conhecer alguns dos meus fãs. Eles são incríveis e também parecem estar muito entusiasmados, até porque nunca tinha estado aqui. Acho que é sempre muito especial entrar num concerto sabendo que é a primeira vez para os dois lados. Neste momento, também estamos a tocar uma música inédita do álbum, chama-se Dracula. Tem sido muito divertido incluir uma música que ainda não foi lançada, deixá-los entusiasmados e ver a reação. Eu e a minha banda adoramos tocar essa música, por isso tem sido muito bom.

João Padinha / Everything is New

Apesar de nunca teres estado em Portugal, há alguma coisa que já associes ao país?

Fomos à praia ontem e foi maravilhoso. Também comi um daqueles pastéis...

Pastel de nata?

Sim! Comi um ontem e apaixonei-me. Tive de me impedir de comer uns dez. [risos] É mesmo muito bom.

A tua música e a tua identidade visual sempre estiveram muito ligadas. Há algum visual, estética ou referência de Moda à qual sintas que voltas constantemente?

Sempre me senti muito atraída por tudo o que é mais negro. Acho qualquer tipo de escuridão muito bonito e sinto que as partes mais sombrias da vida são precisamente aquilo que inspira a minha música. Por isso, visualmente, é isso que acaba por influenciar o styling e as escolhas que faço. É tudo muito escuro, um pouco bruxesco... Acho que sou simplesmente eu.

João Padinha / Everything is New

Tornaste-te conhecida por milhões de pessoas quando ainda eras muito jovem. Que parte de crescer sob o olhar público teve maior impacto na mulher que és hoje?

Ser tão jovem e ser atirada para o olhar público fez com que, desde muito cedo, tivesse de lidar com as opiniões das outras pessoas e com tudo aquilo que tinham para dizer sobre mim. E isso aconteceu numa fase muito importante da minha vida, em que ainda estava a tentar descobrir quem eu era, enquanto ouvia milhares de outras pessoas a dizer-me quem achavam que eu era. Isso obrigou-me a saber realmente quem sou, porque não tive outra opção senão pensar: “Não, esta sou eu”, e manter-me fiel a isso. Por muito prejudicial que possa ter sido passar por tudo aquilo, houve muitas coisas que me fizeram chorar, também me fez perceber quem sou. Acho que me encontrei muito mais depressa do que provavelmente teria acontecido se não tivesse passado por tudo isso.

A tua música tem sido muitas vezes uma forma de documentar diferentes versões de ti própria. Quando ouves as tuas canções mais antigas, reconheces padrões na pessoa em que te estavas a tornar?

Sempre que ouço uma música antiga, é como se fosse imediatamente transportada para o momento exato em que a escrevi. Mas acho que o mais bonito é poder olhar para trás e perceber até onde cheguei e o quanto cresci. Por isso, quando ouço as minhas músicas antigas, são quase um lembrete de todas as coisas pelas quais passei e que consegui ultrapassar. Acho isso muito especial.

Qual é o padrão que esperas quebrar no próximo capítulo da tua vida e qual é aquele que queres manter?

Espero manter este padrão de amor-próprio que construí recentemente. Estou muito focada e apaixonada pela minha vida e pelo momento em que estou, e tenho dado prioridade a mim mesma. Acho que é algo que quero manter para sempre. Quanto ao que quero quebrar... talvez a tendência para, às vezes, me sentir demasiado confortável a duvidar de mim própria. Mas, honestamente, sinto que já quebrei muitos dos meus maus hábitos. Se há um padrão que devia mesmo quebrar, talvez seja o meu vício absurdo por cereais, porque são tão bons, mas não me fazem bem, e isso é tough love [risos].

João Padinha / Everything is New

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