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Curiosidades 27. 2. 2019

Espelho meu, espelho meu: a história de dez personalidades narcisistas

by Mónica Bozinoski

 

Do mito de Narciso a uma geração que se diz ser a mais narcisista, egocêntrica e vaidosa de todas, reunimos dez figuras que são o espelho do narcisismo.

Kim Kardashian West e Kanye West ©Getty Images

Espelho meu, espelho meu. Não há ninguém maior ou melhor do que eu. Não há ninguém mais importante, mais belo, mais talentoso, mais especial, mais dotado ou mais único do que eu. Não há ninguém que mereça mais do que eu – que mereça receber a mesma atenção que eu, que mereça ser tão amado como eu, que mereça ser tão admirado como eu, que mereça ser tão elogiado como eu, que mereça o mesmo tratamento que eu. Atentamente, o narcisista no teu reflexo.

No início era Narciso

Narcissus de Caravaggio ©Gallerie Nazionali Barberini Corsini 

Muito antes de existir o #shamelessselfie – ou, se lhe quiser chamar, uma espécie de selo de aprovação pessoal para publicar uma fotografia de si mesma sem parecer demasiado arrogante, vaidosa ou “cheia de si” –, existia o #shamelessreflection. Das Metamorfoses de Ovídio às Narrações de Cónon, os diversos relatos da sua origem podem divergir nos pormenores, mas têm um ponto em comum: Narciso.

Descrito nos textos mitológicos como um jovem extremamente belo e cruel, Narciso despertava uma paixão avassaladora em todos os homens e mulheres que com ele se cruzavam – nem as ninfas conseguiam escapar aos seus encantos, sendo Eco a mais relatada nos livros de História –, mas acreditava que ninguém estava à altura do seu amor, rejeitando pretendente atrás de pretendente.

Reza a lenda que a personalidade orgulhosa e arrogante ditou o final trágico: ao ver o seu reflexo na água, e encantado pela sua própria beleza, Narciso apaixonou-se por si mesmo, e acabou por morrer nas margens do rio quando percebeu que o seu afeto não era correspondido. Assim nasceu aquilo que hoje conhecemos como um narcisista.

Napoleão Bonaparte

©Hulton Archive/Getty Images

Como muitos outros líderes da História – entre eles Alexandre, o Grande, ou Henrique VII de Inglaterra –, Napoleão Bonaparte apresentava algumas características distintas de um narcisista. O seu comportamento altamente agressivo, considerado por muitos como uma forma de compensar um sentimento de inferioridade e de baixa autoestima, deu origem ao termo psicológico que hoje conhecemos como complexo de Napoleão.

Para além da sua natureza cruel, o imperador francês é frequentemente descrito como um tirano, que tinha pensamentos de grandiosidade em relação a si mesmo, bem como uma crença de que era especial. Alguns relatos apontam para um pensamento escrito de Napoleão Bonaparte, que denota este lado mais narcisista da sua personalidade: “Foi precisamente nessa noite, em Lodi, que comecei a acreditar em mim próprio como uma pessoa fora do comum, consumido pela ambição de alcançar feitos extraordinários que, até então, não eram mais do que fantasias.”

Donald Trump

©Getty Images

Se há algo que aprendemos nos últimos anos é que ninguém consegue fazer nada melhor do que Donald Trump – mais do que isso, ninguém é melhor do que Donald Trump, seja no papel de empresário ou de Presidente dos Estados Unidos da América.

“Ninguém é mais forte do que eu”, “ninguém gosta tanto da Bíblia como eu”, “ninguém constrói muros melhor do que eu”, “não há ninguém que tenha feito tanto pela igualdade como eu”, “não existe ninguém que respeite mais as mulheres do que eu”, “nunca ninguém teve multidões como o Trump”, “ninguém conhece o sistema melhor do que eu”. A lista de coisas que Donald Trump consegue fazer melhor do que ninguém, naturalmente, não acaba aqui – basta juntar as palavras Donald, Trump e narcisista na mesma pesquisa para perceber isso mesmo.

Donald Trump é o melhor quando o tema é economia, da mesma forma que Donald Trump é o melhor quando o assunto é liderança. Donald Trump conhece palavras – mais do que isso, Donald Trump tem as melhores palavras. Donald Trump tem uma sensação grandiosa da sua própria importância, uma preocupação desmedida com o sucesso ilimitado, uma crença de ser especial e único, uma necessidade de admiração excessiva e uma expectativa irracional de tratamento especialmente favorável.

Será que acabámos de descrever um exemplo perfeito daquilo que é um narcisista? Nas palavras de Trump, bing bing bing.

Steve Jobs

©Getty Images

“Seria difícil não gostar do Steve Jobs”, escreve Jeffrey Kluger em The Narcissist Next Door. “Ele era carismático, brilhante, bem‑parecido, visionário, e apesar de ser extremamente rico, não era do tipo de o mostrar.” O fundador da Apple era mais do que um génio tecnológico – era um génio a ler as pessoas, a compreender os seus desejos, e a satisfazer as necessidades que, até então, lhes eram desconhecidas.

Contudo, por trás de uma das mentes mais fascinantes da sua geração, existia uma personalidade narcisista – e um dilema que exemplifica o porquê de ser tão difícil resistir a alguém como ele. “Algumas pessoas que trabalharam com o Jobs disseram-me que, apesar de ele fazer os seus colaboradores chorarem várias vezes, 80% das vezes estava certo. É preocupante que exista esta noção na nossa cultura de que se fores um caso de sucesso, é aceitável que sejas rude”, explicou Robert Sutton, autor do livro The No Asshole Rule, ao The Atlantic.

Para além da personalidade desgastante, da brutalidade e da arrogância – tantas vezes entendida como um pequeno preço a pagar quando se é um génio –, o fundador da Apple estava longe de ser um pai exemplar. “O pai veio visitar‑me na nossa casa em Menlo Park, onde tinha arrendado um estúdio independente. Era a primeira vez que o via desde o tempo em que era uma recém‑nascida em Oregon”, escreveu Lisa Brennan-Jobs no seu livro de memórias, Small Fry.

“‘Sabes quem eu sou?’, perguntou-me. Afastou o cabelo dos olhos. Eu tinha três anos; não sabia quem ele era. ‘Eu sou o teu pai.’ (‘Como se fosse o Darth Vader’, disse a minha mãe quando me contou a história, mais tarde). ‘Sou uma das pessoas mais importantes que alguma vez irás conhecer’, disse-me.” O problema de um narcisista como Steve Jobs? A humildade que nos faz esquecer o “monstro” escondido no armário.

Charlie Sheen

©Getty Images

“Desculpa, mas eu tenho magia. Tenho poesia na ponta dos meus dedos”, disse Sheen numa das muitas entrevistas que exibiram o seu caráter narcisista como nunca, citado por Jeffrey Kluger no seu livro. “Eu sou diferente. Eu tenho uma constituição diferente. Eu tenho um coração diferente… estou cansado de fingir que não sou uma estrela de rock de Marte.” Grandiose much? Vamos só no início.

Numa entrevista de 2011 à ABC News, quando questionado sobre o seu muito público e muito excessivo consumo de drogas, e como se sobrevive a algo assim, a resposta do ator foi nada menos do que um exemplo clássico de narcisismo. “Porque eu sou eu. Porque eu sou eu e sou diferente. Eu tenho sangue de dragão.”

Medo de morrer? “Morrer é uma coisa para idiotas.” Arrependimento? “Não. Sinto-me orgulhoso daquilo que criei, foi radical. Eu exponho as pessoas à magia, eu mostro-lhes algo que, de outra forma, nunca vão conseguir ver nas suas vidas normais e aborrecidas. Eu dei-lhes isso. Amanhã não me vou lembrar delas, mas elas vão viver com aquela memória para sempre. E isso é um dom.” Melhor e maior do que toda a gente – mesmo sem motivos para tal? “A quantidade que eu consumia fazia com que o Sinatra, o Flynn, o Jagger e o Richards, todos eles, parecessem crianças.”

Tom Cruise

©Getty Images

Como muitos narcisistas que nos fazem olhar duas vezes, Tom Cruise é aquilo a que podemos chamar enigma. Aqui está um homem que, como Steve Jobs em Silicon Valley, foi uma das maiores estrelas de Hollywood da sua geração, daquelas que fazem os corações palpitarem a uma velocidade desmedida. Pelo caminho, algo
aconteceu – como uma força superior e quase inexplicável, Tom Cruise deixou de ser Tom Cruise.

Os relatos de um homem egocêntrico e excêntrico começaram a surgir um pouco por toda a parte, e a resposta à pergunta “quem não gostaria de estar com um homem como Tom Cruise?” foi‑se desvanecendo. Houve aquela entrevista no Today Show em que o ator questionou a veracidade da psiquiatria, aquele momento em que saltou no sofá de Oprah Winfrey (são quatro minutos de “I am king of the World” que, dependendo da perspetiva, valem ou não o seu tempo),  e aqueles inúmeros momentos de arrogância quando alguém questionava a sua autoridade ou opinião.

Falta-nos alguma coisa? Claro, aquele vídeo nada menos do que perturbador de Tom Cruise, o padroeiro da Cientologia. “Um cientologista tem a capacidade de criar novas e melhores realidades, e melhorar as condições”, diz o ator. “Quando és cientologista, olhas para uma pessoa e tens a certeza que a consegues ajudar. Se passares por um acidente, não és como qualquer outra pessoa que passa por ali. Sabes que tens de fazer alguma coisa porque sabes que és o único que realmente consegue ajudar.”

Complexo de grandiosidade? “Nós somos a autoridade da mente, nós somos a autoridade que consegue melhorar as condições, conseguimos reabilitar criminosos, conseguimos trazer paz e unir culturas.” Querido Tom, trocar o “eu” pelo “nós” não faz de ti menos narcisista.

Paris Hilton

©Getty Images

Se viu o documentário American Meme da Netflix, saberá que Paris Hilton tem um quadro “interativo” com uma imagem de um grupo de paparazzi em casa. Um clique, e o quadro replica o barulho e as luzes das câmaras que, desde os anos 2000, são sinónimo imediato da herdeira do império Hilton.

O mundo como o conhecemos hoje deve-se a Paris Hilton, a figura original do “famous for being famous” – se perguntar a Hilton qual é o seu talento, imaginamos que a resposta será algo como “o meu talento é ser a Paris Hilton” –, a socialite que construiu o caminho para alguém como Kim Kardashian West – antes de todas as atenções se centrarem na família Kardashian-Jenner, Hilton já nos tinha dado The Simple Life, Paris Hilton’s My New BFF (com direito aos spin-offs Paris Hilton’s British Best Friend e Paris Hilton’s Dubai BFF), e The World According to Paris –, e, segundo a própria, a inventora da selfie.

Tudo o que fazemos hoje foi criado pela vaidade, pelo egocentrismo, pela necessidade constante de atenção e pela obsessão com o “eu” de Paris Hilton. “Nós começámos um novo género de celebridades, que nunca ninguém tinha visto antes”, disse a socialite numa entrevista à W. “Hoje, sinto que é muito fácil seres famoso. Qualquer pessoa que tenha um telemóvel consegue fazê-lo.” Guess who made that happen?

Kanye West

©Getty Images

Existem momentos na cultura pop que nunca serão esquecidos e o momento em que Kanye West subiu ao palco para interromper Taylor Swift – mascarando a sua constante necessidade de atenção com uma defesa a Beyoncé –, é um deles.

Muito se tem escrito sobre o narcisismo de West, mas ninguém o descreve tão bem como o próprio. Frases como “podes ser talentoso, mas não és o Kanye West”, “eu sou o artista número um, o artista mais impactante da nossa geração” ou “nós [rappers] somos as novas estrelas de rock, e eu sou a maior delas todas” são uma pequena amostra do complexo de grandiosidade do artista.

Afinal de contas, estamos a falar do homem que se autointitula de Yeezus – uma possível referência a Jesus –, e que em tempos disse isto: “Toda a gente pergunta, quem é que ele pensa que é? Acabei de te dizer quem eu acho que sou! Um Deus!”

Não tardou muito até que alguém identificasse os seus “delírios de grandeza”, os seus “problemas extremos com o narcisismo” e a “necessidade de uma intervenção” em pleno Instagram – mensagem recebida e transmitida com preocupação, graças a Lana Del Rey.

Kim Kardashian West

©Getty Images

A uma curta distância do mito de Narciso, e a milhas de alguém com um transtorno de personalidade perigoso, Kim Kardashian West é a materialização viva do sentimento de feeling myself – estamos a falar da mesma Kim Kardashian West que editou um livro de selfies com mais de 400 páginas, intitulado Selfish; da mesma Kim Kardashian West que lançou um perfume com o nome KKW Body, cuja embalagem é uma réplica escultural do seu próprio corpo; e da mesma Kim Kardashian West que, não há muito tempo, se referiu a uma das irmãs como “a menos interessante de se olhar”.

O lado mais drama queen, exigente e vaidoso de Kim está para lá de bem documentado. Lembra-se daquele episódio de Keeping Up with the Kardashians em que Kim perde um brinco no oceano? Ou daquela vez em que exigiu uma suíte de hotel que já estava reservada? Imaginamos que a resposta seja afirmativa.

Quando um utilizador do Twitter questionou “sou só eu, ou a Kim Kardashian é extremamente egocêntrica?”, a resposta da socialite e empresária foi um simples “não, não és só tu, sou completamente assim”. Quem mais perderia uma oportunidade para tirar (mais) uma fotografia de si própria, mesmo que essa oportunidade fosse sentada no banco detrás de um carro, a caminho da prisão onde uma das suas irmãs estava detida, ou aproveitaria o vídeo de nascimento de uma das sobrinhas para apresentar a filha ao mundo?

Feitas as contas, quando se é Kim Kardashian West, todos os momentos contam como me time.

No fim somos todos nós

“Quem, eu?” Sim, você – que provavelmente não vai chegar ao fim deste texto porque o chamamento do Instagram é mais forte (não julgamos, acontece a todos). Muito se tem escrito e discutido sobre a cultura selfie estar na raiz de uma geração mais narcisista do que nunca, exposta a novos meios onde o “eu” é maior do que tudo e todos. “Estamos cada vez mais acostumados a pessoas vaidosas e posers que não têm mais nada a oferecer que não elas próprias e a sua necessidade de estar numa plataforma pública”, defende Jeffrey Kluger ao The Atlantic.

Em 2018, num estudo publicado no Journal of Personality, a professora de psicologia da San Diego State University Jean Twenge descobriu que os comportamentos narcisistas entre os estudantes universitários, observados durante um período de 27 anos, tinham aumentado de forma significativa quando comparados com os de 1970. No mesmo ano, um estudo do National Institute of Health demonstrou que 9,4% da faixa etária entre os 20 e os 29 anos exibia um narcisismo extremo.

Cinco anos depois, em 2013, a revista Time dedicou uma das suas edições à The Me Me Me Generation: na capa, podia ler-se a alarmante chamada “os millennials são narcisistas preguiçosos e egocêntricos que ainda vivem com os pais”. Nas palavras do jornalista Joel Stein, a lista não acaba na capa: “mais do que o narcisismo, os millennials são famosos pelo efeito dele: agir como se o mundo lhes devesse alguma coisa”; “os millennials não só têm a falta de empatia para se sentirem preocupados com os outros, como têm dificuldade em perceber o ponto de vista das outras pessoas”; “os millennials cresceram a ver reality shows, que na maioria são documentários sobre o narcisismo”.

Se nasceu entre 1980 e 2000, provavelmente está a sentir-se atacada com estas afirmações: não desespere, um lado nunca vem só. “Apesar de a primeira parte deste artigo ser totalmente verdade (eu tinha dados!), o egoísmo dos millennials é mais a continuação de uma tendência do que uma quebra revolucionária relativamente às gerações passadas”, escreve Stein. “Eles não são uma espécie nova; eles alteraram-se
para se conseguirem adaptar ao ambiente.”

A discussão é eterna: e suspeitamos que a resposta, por mais estudos e estatísticas que possam existir, nunca será unânime.

Artigo originalmente publicado na edição de fevereiro 2019 da Vogue Portugal.

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