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“Não é só carregar num botão”: tudo que precisa de saber sobre o hábito de fingir um orgasmo

22 Jul 2026
By Carolina Raposo

Crystal fotografada por Branislav Simoncik, com direção criativa de Kaduri Elyashar e styling de Alba Melendo, para a Diva Issue da Vogue Portugal, publicada em setembro de 2018.

Num mundo onde a sexualidade tem sido cada vez mais falada, há algo que tem ficado para trás: o orgasmo feminino. Cerca de 80% das mulheres admite já ter fingido um orgasmo, mas porquê?

A sexualidade faz-se de descobertas, tentativas, comunicação e, muitas vezes, de erros pelo caminho. Ainda assim, continuamos a crescer com a ideia de que o prazer deve surgir de forma espontânea, que o desejo é automático e que o orgasmo é quase uma obrigação. Durante anos aprendemos, na escola, como funciona o sistema digestivo, respiratório ou circulatório, mas o orgasmo feminino sofreu uma espécie de skip, mesmo nas aulas de educação sexual. E apesar da intimidade feminina ser hoje um tema mais presente na sociedade, persistem ainda mitos, expectativas e pressões que condicionam a forma como muitas mulheres se vêem e se permitem sentir.

O que acontece a nível físico e psicológico durante o orgasmo feminino?

A sexóloga Marta Crawford explica que o orgasmo é uma resposta à estimulação sexual e que depende de inúmeros fatores: o estado físico e emocional, o nível de excitação, a intimidade com o parceiro, a comunicação, o contexto ou até o cansaço. Durante o clímax, o tecido erétil da vulva e do clitóris incha devido ao aumento do fluxo sanguíneo — o que cria uma maior sensibilidade na zona —, os músculos do pavimento pélvico contraem-se, a frequência cardíaca acelera e o cérebro liberta hormonas como a dopamina, a oxitocina e as endorfinas — associadas ao prazer e ao bem-estar. Ao mesmo tempo, a área cerebral responsável pela tomada de decisões torna-se menos ativa, permitindo uma entrega quase total ao momento.

Todas as mulheres conseguem atingir o orgasmo?

Não, nem todas as mulheres conseguem atingir o orgasmo, diz a especialista. O orgasmo vai muito além do que acontece fisicamente. Exige entrega, segurança e comunicação — e é precisamente aí que muitas mulheres encontram dificuldades. À componente física juntam-se inseguranças, receio de desiludir o outro, de não agradar e uma enorme dificuldade em dizer o que realmente lhes dá prazer. O resultado é, muitas vezes, o hábito de fingir. "Cada vez que temos relações com pessoas diferentes, é toda uma nova aprendizagem e adaptação. Se as pessoas tiverem reservas em relação à maneira como se expressam, torna-se difícil guiar o outro para um estímulo que seja satisfatório, o que dificulta o orgasmo", explica a sexóloga.

Quais são os principais fatores para que uma mulher consiga atingir o orgasmo?

Atingir o orgasmo depende de múltiplos estímulos, do tempo, da confiança e da entrega. Para Crawford, "o tema relativo ao orgasmo feminino ainda é algo muito pouco falado, o que leva a que as mulheres procurem saber menos sobre si próprias”, o que coloca o principal fator para que uma mulher consiga atingir o orgasmo em risco: conhecer-se a si mesma. Importa também desconstruir uma ideia persistente: o orgasmo não acontece apenas através da penetração. Não existe uma forma "melhor" ou “pior” de o atingir. Como resume a especialista, "não é só carregar num botão".

O sexo pode ser prazeroso mesmo sem o orgasmo?

Sim, pode. Como descreve a sexóloga, a verdade é que a pornografia, frequentemente encarada como uma referência, contribui para expectativas pouco realistas sobre o sexo e sobre o prazer feminino — nomeadamente o mito de que o sexo só é prazeroso quando se atinge o orgasmo. 

O sexo só deixa de ser prazeroso quando o parceiro espera uma resposta que nem sempre corresponde à realidade, e muitas mulheres acabam por representar um papel para corresponder a essas expectativas. "Muitas vezes, quando se faz coisas só pelo outro, as pessoas acabam por estar sexualmente umas com as outras a realizar uma performance que não lhes dá total prazer para existir uma sensação de validação", afirma Crawford, "o que se faz ver é uma espécie de falso self, uma representação daquilo que não se é."

Em média, quantas mulheres fingem o orgasmo?

Segundo um artigo publicado pela NBC News, em 2010, 80% das mulheres questionadas admitiu já ter fingido um orgasmo. "Isto é quase uma ditadura do orgasmo: sentimos que a outra pessoa está à espera que se atinja o clímax, mas, no momento, não se consegue, e acaba-se por fingir", diz a sexóloga.

Por que razão fingem as mulheres o orgasmo?

É impossível ignorar a pressão que muitas mulheres sentem para atingir o clímax. Segundo Crawford, muitas vezes, o que acontece é que as relações começam com um equívoco. Em vez de as pessoas irem acertando a dança — metaforicamente falando do ato sexual —, desejam provar que já sabem todos os passos. Esquecem-se de que cada música, cada pessoa, é diferente e que não há problema em falhar o ritmo até encontrar a sintonia certa. No entanto, fomos ensinados a acreditar que é preciso acertar à primeira. Caso contrário, falhámos. E é precisamente essa pressão que leva muitas mulheres a dançar ao som de músicas que não adoram — a fingir o orgasmo. Para além disso, quando existe a expectativa de que o orgasmo aconteça rapidamente — ou simplesmente aconteça — a pressão instala-se e, muitas vezes, fingir parece mais fácil do que explicar porque é que ele não surgiu, afirma a sexóloga.

Como partilhar com o parceiro sexual que nem sempre — ou, em alguns casos, nunca — se consegue atingir o orgasmo?

Nas relações duradouras, onde o fingimento se transforma num hábito, nunca é demasiado tarde para se fazer mostrar. "A primeira coisa é começar por pedir ajuda de um terapeuta. É importante que a outra pessoa perceba e entenda a razão dos fingimentos e dos receios que a mulher tem", aconselha Crawford. Para quem não tem acesso a acompanhamento especializado, procurar informação em fontes credíveis, seguir profissionais de confiança nas redes sociais ou esclarecer dúvidas junto de especialistas, seja pessoalmente ou através de e-mails, pode ser um primeiro passo. Só assim é possível reconstruir a intimidade e criar uma vida sexual saudável, em que o prazer seja verdadeiramente partilhado. 

Admitir que se quer mais, melhor e diferente pode ser desafiante, sobretudo numa relação com vários anos, mas olhar para a sexualidade com honestidade é um ato de liberdade. Afinal, até onde a ciência sabe — e como reforça Marta Crawford—, o orgasmo feminino existe apenas por uma razão: o prazer da mulher. E esse prazer merece ser vivido por inteiro, quer seja sozinha ou acompanhada.

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