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Notícias 29. 12. 2022

Morreu Dame Vivienne Westwood, aos 81 anos

by Ellen Burney & Liam Hess

 

Dame Vivienne Westwood, a vanguardista designer britânica que trouxe o punk e a política para o mundo rarefeito da high fashion, morreu esta quinta-feira, 29 de dezembro, aos 81 anos. Faleceu “pacificamente e cercada pela família em Clapham, no sul de Londres”, confirmou um porta-voz de Westwood.

© Vogue Runway

Antes das armações de saiote, corpetes e almofadados para as nádegas, do tartan e da alfaiataria, Vivienne Isabel Swire nasceu a 8 de abril de 1941, na vila de Tintwistle, Cheshire, filha de um operário de uma fábrica de salsichas, Gordon, e de uma assistente de mercearia, Dora. Frequentou a Glossop Grammar School antes de se mudar para o subúrbio londrino de Harrow, em 1957, onde os pais administravam uma agência dos correios. Westwood fez, na altura, um curso de ourivesaria por um semestre, na Harrow Art School (agora University of Westminster), mas sentindo-se intimidada pelo mundo da arte, matriculou-se na faculdade de secretariado e, mais tarde, formou-se como professora. Num baile em 1961, conheceu Derek Westwood, um aprendiz da fábrica Hoover, com quem se casou - com um look criado pela própria - em 1962. O filho de ambos, Benjamin Westwood, nasceu em 1963, mas o casal separou-se quando ele tinha três anos.

Westwood em 1977 © Getty Images

Depois de conhecer o então estudante de arte Malcolm McLaren, Westwood deu à luz ao seu segundo filho, Joseph Corré, em 1967, e os seus dois filhos cresceram juntos no sul de Londres, onde Westwood lecionou numa escola primária. “Eu era uma professora muito boa”, disse Westwood ao Guardian em 2007. “Tirando o facto de ter uma predileção pelas crianças que toda a gente achava insuportáveis.  Os pequenos rebeldes”.

Em 1971, Westwood e McLaren abriram uma loja (todas as noites, ao longo de algumas horas) na King's Road, chamada Let It Rock, onde vendiam memorabilia dos anos 1950 e fatos elegantes. Ali, criaram calças em pelúcia, casacos drapeados e camisolas de mohair, antes de “vestir” a banda punk dos anos 1970, Sex Pistols - na mesma altura, começaram a vender t-shirts com slogans com palavras coloridas estilizados de ossos de galinha, calças com fechos da frente para trás e tops tie-dye como se tivessem sido espezinhados.

A loja acumulou vários nomes ao longo dos anos, de Too Fast to Live Too Young to Die em 1972, Sex em 1974 (com a introdução de vestidos de borracha fetichistas, ganchos de mamilos e sapatos com tachas pontiagudas), Seditionaries em 1976 e, finalmente, World's End em 1979. “Eu tenho esta reputação de ser uma maníaca sexual e coisas assim, e não sou”, disse Westwood ao Guardian. “Adoro aquela citação de Jean Shrimpton: 'Sexo nunca esteve no topo da minha lista de prioridades.'” Westwood e McLaren criaram a icónica coleção inspirada no New Romantic Pirate de 1981 (sob o selo World's End antes de se separarem), com blusas com mangas com folhos, chapéus de feltro rígido e calças jacquard destacados na Vogue britânica nesse mesmo ano.

“Mudou o modo de vestir das pessoas”, disse Westwood sobre algumas de suas coleções marcantes, incluindo Buffalo/Nostalgia of Mud, 1982; a criação do mini-crini em 1985; e o lançamento de sua segunda linha Anglomania, em 1993. “Eu era messiânica relativamente ao punk, tentava perceber se alguém conseguiria colocar um relâmpago no sistema de alguma forma”, disse. “Percebi que não havia subversão sem ideias. Não basta querer destruir tudo.”

Westwood no seu estúdio,1983 © Getty Images

Apenas alguns anos depois de seu primeiro desfile em Paris, em 1983, os críticos de moda chamavam os designs de Westwood “a resposta britânica aos de Christian Lacroix em Paris”, creditando-lhe o renascimento do panorama da moda britânica. Em 1989, o editor do Women's Wear Daily, John Fairchild, descreveu Westwood como "a Alice no País das Maravilhas da moda" no seu livro Chic Savages, e nomeou-a uma das seis designers mais influentes do século XX. No mesmo ano, Westwood vestiu-se como a primeira-ministra britânica de então, Margaret Thatcher, para a capa da Tatler, envergando um fato Westwood que Thatcher encomendou, mas que ainda não tinha recebido.

Por mais que Westwood mantenha um lugar na história da moda, sempre se tornou uma historiadora da moda ao longo de sua carreira de sete décadas. As suas camisas piratas esvoaçantes, almofadados xadrez para o derrière dos anos 1990 e os mini-crinis dos anos 80 foram todos inspirados no estilo do século XVII, enquanto os seus vestidos da Imperatriz Josephine e a abundância de espartilhos se originaram em vestidos do século XVIII. O nome de Westwood também está ligado a alguns dos momentos mais memoráveis da moda - entre eles Naomi Campbell e a sua queda das plataformas púrpura na passerelle no outono de 1993 e Kate Moss quase nua a comer um geladonuma minissaia, chapéu e saltos para a primavera de 1995.

Westwood foi receber a sua famosa OBE da Rainha Isabel II em 1992 sem usar cuecas. “Eu queria mostrar a minha roupa rodando a saia”, disse ela. “Não me ocorreu que, como os fotógrafos estavam praticamente de joelhos, o resultado seria mais glamoroso do que eu esperava… Ouvi dizer que a foto divertiu a Rainha.” Westwood tornou-se Dame, em 2006, e os seus designs foram usados por clientes tão diversos quanto Camilla, Duquesa da Cornualha, a Princesa Eugenie e Miley Cyrus, que se casou com Liam Hemsworth num vestido Westwood, em 2018. Os movimentos de Westwood com sua majestade sempre foram arrojados. Para marcar o Jubileu de Prata em 1977, a criadora perfurou os lábios do rosto da rainha, estampado nas t-shirts God Save the Queen, para os Sex Pistols, com alfinetes de ama.

Westwood após receber o título de Dame no Palácio de Buckingham, 2006. © Getty Images

Uma exposição em homenagem a Westwood foi inaugurada no Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque, em 2002, e as suas raízes punk foram novamente celebradas em 2013 na mostra “Punk: Chaos to Couture” do Costume Institute. Uma das sete galerias da exposição foi inspirada na sua loja Seditionaries. Em 2004, o Victoria and Albert Museum em Londres realizou uma retrospetiva, e Westwood ganhou o prémio de Designer de Moda Britânica do Ano em 1990, 1991 e 2006 do British Fashion Council. Em 2007, ela recebeu o Prémio BFC de Outstanding Achievement in Fashion Design e, em 2018, o Prémio Swarovski de Positive Change, pelo seu ativismo persistente para a consciencialização das alterações climáticas.

A passerelle de Westwood sempre foi a sua plataforma política. As t-shirts da sua coleção da primavera de 2006 diziam “Não sou terrorista, por favor, não me prenda”, enquanto as modelos de seu desfile de outono de 2008 carregavam cartazes exigindo julgamentos justos e legais para os prisioneiros de Guantánamo Bay. Um banner no desfile da primavera de 2013 pedia uma revolução climática. Outras alturas, mostrou apoio aos ativistas Chelsea Manning e Julian Assange, fundador da Wikileaks, bem como a partidos políticos, instituições de caridade ambiental, incluindo Cool Earth e Greenpeace, e as manifestações do Occupy em 2011.

“Estamos a tentar dizer a todos que o fim do mundo está aqui”, disse Westwood ao Women's Wear Daily nos bastidores do seu desfile na primavera de 2016, com cartazes com os slogans “fracking é um crime” e “austeridade é um crime”. Em 2014, Westwood rapou o seu cabelo ruivo para aumentar a consciencialização sobre as mudanças climáticas.

A marca homónima de Westwood incluía coleções de alta-costura, noivas e pronto-a-vestir no masculino e no feminino. Vivienne onheceu o estudante de moda austríaco Andreas Kronthaler no final dos anos 1980, quando lecionava na Escola de Arte Aplicada de Viena, e casaram-se em 1992. Associaram-se sob a marca Westwood, mas em 2016 ele tornou-se diretor criativo da casa, com a linha principal a ser renomeada para Andreas Kronthaler para Vivienne Westwood.

© Phil Oh

As botas de pirata largas de Westwood voltaram aos holofotes em Kate Moss e Sienna Miller nos anos 2000, sendo que a marca desfrutou de um momento de destaque mais recente com a Gen Z a colecionar os espartilhos impressos com pinturas rococó da sua coleção Portrait” de 1990. Sempre independente, a sua convicção e dedicação nunca cederam um centímetro.

Westwood no seu desfile de primavera, 2008. © Getty Images

“Tenho a minha própria empresa, por isso, nunca tive empresários a dizer-me o que fazer ou a preocupar-se se algo não se vendesse”, disse à Time em 2009. “Sempre tive o meu próprio acesso ao público, porque comecei a criar as minhas roupas para uma lojinha e por isso sempre tive gente a comprá-las. Eu sempre conseguia vender algumas peças, mesmo que não conseguisse vender muito, e de alguma forma o meu negócio cresceu porque as pessoas por acaso gostaram.”

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