Moda   Coleções  

ModaLisboa Pebbling: o futuro em movimento na capital portuguesa

23 Mar 2026
By Pedro Vasconcelos

Portuguese Soul FW26

Entre herança e reinvenção, da nova geração ao artesanato consagrado, a Moda portuguesa faz do passado uma linguagem contemporânea.

Mais uma edição da ModaLisboa, mais uma vez, Lisboa veste-se do melhor que a indústria portuguesa tem para oferecer. Para a 66º edição da semana de Moda da capital, os designers nacionais apresentaram as suas coleções outono/inverno 2026. Sob o tema Pebbling, a semana foi marcada por ideias de continuidade, do passado como caminho para o presente.  

Começamos pelo mais entusiasmante: o futuro. A iniciativa Sangue Novo, um projeto que procura encontrar e apoiar designers emergentes, apresentou as coleções dos cinco finalistas decididos na edição da ModaLisboa de outubro. Adja Baio, Ariana Orrico, Mafalda Simões, Mariana Garcia e Usual Suspect criaram as propostas não só representativas das suas visões, como indicativas do futuro da Moda em território nacional. As duas vencedoras do concurso, Ariana Orrico e Mafalda Simões, são presságios entusiasmantes para a indústria portuguesa. Orrico apresentou uma coleção de menswear que explora a vulnerabilidade através da performance de masculinidade. Com materiais clássicos como cabedal, a designer cria silhuetas que desafiam expetativas tradicionais. Casacos rígidos são usados com nada a não ser roupa interior, a nudez em si utilizada como linguagem. Simões, por sua vez, cria metáforas entre o corpo humano e os materiais que usamos para o proteger. Através de malhas e crochets, a nossa vulnerabilidade é explorada. Tal como as fibras em camisolas volumosas ou vestidos dramáticos, a natureza humana é maleável, orgânica.

Ariana Orrico FW26; Mafalda Simões FW26

Os restantes finalistas aprofundaram questões de semelhante complexidade. Adja Baio constrói identidade através de expressão material. Através de texturas como tranças ou panu de pinti, um tecido tradicional guineense com padrões geométricos, a designer encontra individualidade no coletivo. Já Mariana Garcia consolida um limbo entre o romance de Emily Dickinson e a ultrarrealismo de Juergen Teller. A coleção apresentada pela designer vive em vales profundos: silhuetas românticas são sobrepostas a materiais como cintos de segurança, um vestido translúcido apoia barras de metal no decote. Com a sua marca Usual Suspect, Xavier Silva também conduz explorações materiais. Ao reutilizar tecidos reciclados e roupa doada pela sua família, o designer cria uma coleção que é tão utilitária como é emocional.

Adja Baio FW26; Mariana Garcia FW26; Usual Suspect FW26

Para as suas propostas outono/inverno 2026, Béhen apresentou uma coleção que, como é típico da designer, explora o património têxtil português. Com apenas nove looks, Joana Duarte prova a destreza artesanal do seu estúdio. Saias em lã com técnicas de Nisa, vestidos com folhos reminiscentes das saias da Nazaré, hoodies em Burel, um vestido bordado com um padrão inspirado nas algibeiras do Minho. A designer aproveita todas as oportunidades que tem para explorar e modernizar técnicas artesanais nacionais. Este esforço é particularmente honroso tendo em conta a posição em que Duarte se encontra. Como a designer portuguesa com maior reconhecimento internacional de momento — nem há um mês, Béhen venceu o prémio MMM Textile, Savoir-Faire et Artisanat —, o seu compromisso em preservar o património português faz da sua marca um reflexo de uma cultura tão frequentemente subestimada. 

Béhen FW26

Carlos Gil celebra a diversidade da mulher moderna. Com uma pluralidade imensa de silhuetas, têxteis e padrões, o designer concretiza um guarda-roupa que desafia a definição. Transparências sobrepostas a ganga, padrões geométricos combinados com penas, lantejoulas e adornos florais: Gil procura capturar o caos de referências que compõem um estilo pessoal. Por sua vez, Luís Carvalho  propõe um exercício antitético. As propostas para outono/inverno 2026 apresentam uma visão coesa com uma silhueta e paleta de cores rígida. Intitulada AFTERIMAGE, a coleção faz da alfaiataria uma linguagem. Casacos que desconstroem noções de blazers andam lado a lado com casacos que definem cinturas extremas. Camisas brancas rígidas, aparentemente imóveis mesmo perante o movimento do corpo, são complementadas por saias plissadas que dançam à medida que as modelos andam. É neste contraste que a coleção encontra o seu maior sucesso.

Carlos Gil FW26; Luís Carvalho FW26

Concluímos a nossa cobertura da semana pelos pés. Como autoridade na indústria do calçado mundial, é apenas natural que a ModaLisboa hospeda as marcas nacionais que carregam tal responsabilidade. Luís Onofre encontra inspiração na década de 1930. Silhuetas da época são interpretadas com sensibilidades dos anos 60, uma tensão sentida sobretudo na materialidade das propostas do designer. Biqueiras pontiagudas e peepholes inesperados foram os pontos altos da coleção. Portuguese Soul teve uma abordagem menos convencional. Para a sua apresentação da coleção outono/inverno 2026, a marca encenou uma performance que pôs os seus sapatos em movimento. Dançarinos com loafers e botas pontiagudas provaram as possibilidades do calçado da marca. A sua flexibilidade foi aspiracional. Será que os sapatos vêm com memória muscular?

Luís Onofre FWE26; Portuguese Soul FW2

Pedro Vasconcelos By Pedro Vasconcelos
All articles

Relacionados


Moda   Coleções  

Desejo e reinvenção: o novo capítulo da Semana de Moda de Milão

09 Mar 2026

Moda   Coleções  

Em Nova Iorque, a Moda respira fundo

27 Feb 2026

Moda   Coleções  

Semana de Moda de Londres: a mudança como tradição

04 Mar 2026

Moda   Coleções  

Semana de Moda de Paris: entre a herança e a reinvenção

18 Mar 2026