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Entrevistas 9. 8. 2019

Martin Parr, um portefólio | Gosto Parr-ticular

by Sara Andrade

 

A vida como ela é. Sem filtros bonitos, sem enquadramentos perfeitos, com algum humor, com alguma incongruência. Martin Parr é um fotógrafo controverso. Com muito gosto.

Do livro The Last Resort, New Brighton, Reino Unido, 1983-85.

É a vida. Com o quotidiano em mente, a documentação como objetivo, os temas pertinentes como foco: do turismo ao Brexit, da comida ao ser humano, esta é a sociedade que temos. Com todas as suas (im)perfeições. É a vida dos outros. E é a nossa. De um ponto de vista claro. O de Martin Parr. “Não estou a tentar mudar o que as pessoas pensam, as pessoas vão sempre seguir as suas convicções, de uma forma ou de outra, e vão sempre encontrar provas daquilo em que querem acreditar.”, o sotaque britânico do fotógrafo, seguro e sucinto, soa abafado na linha telefónica. Estamos a falar sobre a opinião de Parr no que diz respeito à fotografia - para ele, um fotógrafo é alguém que observa e documenta. Ponto final. “As pessoas dizem-me ‘oh, acabei de ver um Martin Parr’ - que é deveras elogioso, porque significa que o meu estilo e visão têm impacto -, mas eu não espero que o mundo mude por causa disso, são coisas diferentes. Não digo que é impossível [que o ponto de vista impulsione outros a agir e a mudar o mundo] de acontecer, mas eu estou ocupado a preocupar-me com o que vou fazer a seguir e com as fotos que vou tirar em vez de intelectualizar as fotos que já tirei.”

Praia de Yalta, Ucrânia, 1995.

Punta del Este, Uruguai, 2006.

E que foram muitas. Com mais de uma centena de livros publicados (o primeiro data de 1982), os temas que aborda são tão diversos quanto o tecido social e abrangem um pouco de tudo, incluindo política. Mas não são temas políticos, desmistifica Parr. Apenas acontece, porque fazem parte das áreas da sociedade que considera pertinentes: “Quando colocas a objetiva na sociedade contemporânea, estás incontornavelmente a tocar em política. O meu objectivo é escolher o que é pertinente e digno de ser documentado e, inevitavelmente há assuntos políticos à mistura.”

Do livro One Day Trip, supermercado Auchan em Calais, França, 1998.

Do livro British Food, Horncastle, Reino Unido, dezembro de 1995.

E fá-lo desde os 13 anos, altura em que Martin, 67, se deixou influenciar pelo seu avô, um apaixonado pela fotografia que lhe passou o gosto - mas não a estética: “Ele era um fotógrafo muito pictorial, muito ao género daquelas fotos bonitas e clássicas da fotografia amadora.”, conta o artista à Vogue Portugal. “As minhas fotos não eram nada como as dele, eu sempre tive esta estética. Sempre me preocupei com as silhuetas, a forma, pessoas… Só a ideia de ser fotógrafo é que veio um pouco dele, e a dedicação que via nele a essa arte, de resto, tínhamos olhares muito diferentes.” O seu olhar distinto valeu-lhe a instituição de uma fundação, um número incontável de exposições e outro tanto de prémios, como o Recognition for Significant Contribution in the Field of Visual Arts, atribuído pela Royal Academy of Arts de Londres, em 2016, e o galardão Outstanding Contribution to Photography, da World Photography Organisation, em 2017. Reconhecimentos que espelham um CV longo e pavimentado de sucessos, mas que garante ter ainda um vasto caminho pela frente: “Em relação a temas, acho que fiz os que realmente queria fazer. Há sempre algo a acrescentar, claro, por exemplo, a questão do turismo é tão grande… gostava de fazer mais sobre isso. Acho incrível o modo como Lisboa se tem tornado no pote de mel do turismo. Mudou tanto desde a primeira vez que aí estive.” E continua, quando lhe perguntamos sobre o corpo de trabalho: “Ontem à noite, tivemos uma grande exposição em Dusseldorf, sobre uma série que fiz com retratos de jardineiros, e estas imagens tinham mais de um metro de comprimento. Todos os jardineiros compareceram e, para mim, esta é a mais satisfatória das respostas. Eles estavam mesmo entusiasmados. Todos receberam um print e um livro. Isso, para mim, é a Fotografia no seu melhor: o poderes dar de volta às pessoas, poderem ver-se numa galeria”, acrescentando que trabalha “tanto com pessoas anónimas como com pessoas que acabam por ter nome, assim como trabalho com comida e com Moda… e gosto de todas as áreas. Eu retiro prazer tanto do trabalho comercial como do meu trabalho de autor. A estética é a mesma, caso contrário, porque te contratariam? ”

Ball der Wiener Kaffeesieder, Viena, Áustria, 2016.

Do livro Common Sense, Flórida, Estados Unidos da América, 1998.

É um facto: se segue o trabalho do fotógrafo documental, depressa denota um ponto de vista. Porque é impossível ficar indiferente - quem ganha contato com a sua estética agora, depressa vai querer explorar o seu trabalho para trás, tanto quanto continuar a seguir projetos vindouros: “Acho que ainda tenho um carinho especial pelo meu livro The Last Resort, que saiu em 1986. Foi reeditado oitovezes. É capaz de ser, ainda, o meu mais famoso corpo de trabalho e estou grato por ter ainda este êxito que continua a ter sucesso. Ainda por cima, os mais antigos, que deixaram de ser impressos, são agora mais caros, porque continuam a ter procura. Se quiseres colecioná-los todos, tens algum trabalho pela frente, são mais de uma centena…”, brinca. Com o que não brinca é com a convicção de que, quem quiser ser este género de profissional, tem de ser destemido: “Não te podes deixar intimidar. Não é fácil fotografar pessoas, tens de ter alguma coragem. Se te deixares intimidar, não vais conseguir ser um fotógrafo documental. Por exemplo, se for uma foto na rua, eu simplesmente tiro a foto, não peço permissão. Por norma, sabes de imediato se há algum problema ou não, o que, por vezes, acontece; de qualquer modo, é fazeres acontecer.”

Tenby, País de Gales, Reino Unido, 2018.

Praia Grandé, Mar del Plata, Argentina, 2014.

Também é importante, em igual medida, praticar o desapego: “Não levo a câmara para todo o lado. E sim, acontece perder a oportunidade de fazer fotos uma série de vezes. Normalmente, estou a fotografar situações específicas para o projeto entre mãos. Não sou um fotógrafo que capta imagens aleatórias. Eu perco oportunidades o tempo todo, até quando estás a fotografar, perdes fotos. Mas não penso nisso. Há também muitas oportunidades que apanhas para o teu trabalho, por isso não perco tempo a pensar nas que perdi. Sigo em frente. Não podes remoer sobre as que falharam, tens de ser positivo e procurar a próxima foto.” Um dos locais onde gostaria de procurar essa próxima foto, mas não pode, é o Irão: “Não consigo ir, porque não consigo obter o visto.”, lamenta. “Acho que tem a ver com as relações meio pobres entre o Reino Unido e o Irão. Eles dizem que eu sou demasiado político, o que me parece bizarro, mas pronto.” Em contrapartida, um local onde já esteve e que gostaria de voltar é Portugal: “Eu já fiz algum trabalho em Portugal e adoro o país. Sei que têm sítios fantásticos, não precisas de me persuadir para regressar. É um dos meus sítios preferidos do mundo.”

Belém, Palestina, 1986.

Do livro Signs of the Times, Reino Unido, 1991.

Nesta documentação da vida real, nesta forma crua de captar um dia-a-dia que é visceral, exposto, verdadeiro, honesto, há aqueles que não conseguem ver o (bom) gosto da sua objetiva: “Por alguma razão, eu sou um fotógrafo controverso. Recebes todo o tipo de reações. Mas devo estar a fazer alguma coisa bem, porque continuo a vender livros e a receber comissões e a vender prints, por isso, alguém deve estar a gostar do que faço, algures. Até a Vogue Portugal mostrou interesse no meu trabalho.” Quase que consegui vê-lo a piscar o olho do outro lado do telefone.

Do livro The Last Resort, New Brighton, Reino Unido, 1983-85.

Fotografias: © Martin Parr / Magnum Photos

Artigo originalmente publicado na edição de agosto 2019 da Vogue Portugal.

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