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Vídeos 14. 2. 2020

Para Sempre, com Mariana Monteiro

by Rui Matos

 

Esta não é uma rotina matinal qualquer. É uma rotina digna de uma Julieta contemporânea, ao mesmo tempo dócil, forte e independente. Traços que são partilhados com a personalidade de Mariana Monteiro.

 

Pensar em Romeu e Julieta é recuar ao tradicionalismo do século XVI. Esta é uma das histórias mais contadas da chamada cultura popular: passou pela prosa, já foi poema, já foi pintura, cinema e televisão. Percorreu as tábuas dos cinco continentes em adaptações fiéis e contemporâneas naquela que é a história de amor considerada o arquétipo do amor juvenil. Em 2020, esta história recebe uma upgrade à luz do nosso tempo. John Romão, o encenador, inspirou-se na velocidade que todos vivemos e questionou qual é o lugar do corpo na atualidade. A tragédia não é posta de lado, mas outras questões são levantadas. Não há declarações à varanda. Há dois jovens que avançam incessantemente com os olhos postos no futuro e atropelam o presente dos seus corpos. Há morte. Há fim.

É no palco do Teatro Nacional D. Maria II que esta versão ganha vida, a partir de hoje, e até ao próximo dia 1 de março. Semanas antes da estreia de Romeu e Julieta, subimos até ao décimo piso do Four Seasons para conversamos com Mariana Monteiro, que veste a personagem de Julieta, para nos contar tudo sobre esta nova experiência.

Como está a ser a preparação para esta personagem?

Acho que está a ser um mergulho num processo criativo muito grande, porque existe um texto base que já tem muitos anos. Portanto, já há muitos conceitos por cima desta história e o interessante está a ser, com a ajuda do John, entender como podemos tornar esta história nossa e de que maneira é que nos podemos apropriar deste texto e de lhe dar uma nova visão. Criar esta Julieta é mergulhar nesta nova construção mais gótica, diria. E é também importante falar do conceito de velocidade e de como a minha vida se está a sobrepor na forma de construir a personagem. Talvez nada aconteça por acaso, neste momento estou a trabalhar a uma velocidade brutal:  estou a fazer uma telenovela durante o dia e a ensaiar à noite. E a Julieta também tem um ritmo alucinante dentro dela, tem uma velocidade, sobretudo, para a morte. Está a ajudar-me estar numa fase da minha vida assim também, para conseguir entrar mais rapidamente neste universo da Julieta, que vive também nessa ebulição. 

E qual é o maior desafio da tua Julieta?

A criação do John é precisamente sobre o texto original. Acho que o maior desafio, talvez, tenha sido precisamente o conseguir criar uma Julieta com o seu lado doce, terno e frágil, mas com uma força quase além do humano. Nesta nossa versão, existe quase um lado animalesco em cada um dos personagens e talvez seja esse lado aquilo que me foi mais difícil de construir, mas também o mais interessante. 

E como é estar com uma peça destas no Teatro Nacional D.Maria II?

É um dos momentos mais felizes da minha carreira.  Era algo que ambicionava há muito tempo. Quando recebi a chamada do John, não me vou esquecer do sentimento que tive. Não só por estar a fazer teatro, é estar num teatro de referência, é de agradecer diariamente. Não deixo passar a oportunidade como sendo uma coisa leve. Não. Eu estou ciente da responsabilidade, estou ciente da oportunidade.

Desde os 16 anos que maioritariamente fazes televisão. 

Sim. Comecei realmente muito nova. O meu percurso foi maioritariamente televisivo, até ter feito uma pausa há dois anos. Que foi quando disse que estava na hora de repensar e restruturar. Quando começas muito nova, por um lado, entras neste universo e começas a conhecer uma série de pessoas e a mergulhar em tudo isto; por outro, não tens maturidade nas tuas escolhas e decisões. Acho que [há dois anos] chegou a altura de ter essa maturidade e perceber que artisticamente tenho outras vontades. E o teatro era uma que falava muito alto. Mas acho que precisei de passar por tudo aquilo que passei para se calhar só agora me lançar para este desafio, o teatro vive do agora. Não me dá medo. Antes pelo contrário. É essa a gasolina que me inspira a querer tanto subir ao palco. Quando faço televisão, só posso ter o impacto imediato em alguém que esteja muito perto de mim no set, não vou assistir a nada daquilo que as pessoas vão sentir em casa. No teatro, posso enviar uma série de emoções e…

Recebes logo a energia do público… 

Sim. E como é que ele está a ser afetado. E acho que isso é muito bonito. 

Sentiste que perdeste um bocadinho a tua identidade enquanto Mariana, e enquanto Mariana a atriz, por estares tanto tempo a trabalhar? Foi por isso que tomaste a decisão de parar e respirar?

Sim. Claro que senti que tinha perdido um pouco da minha identidade e da minha essência com a velocidade - mais uma vez, estamos submetidos a um ritmo frenético de vida - e isto independentemente de ser atriz ou não, há muita gente hoje que vive neste ritmo. Eu gosto de alguma aceleração, mas também tenho consciência que não podemos estar sempre com a mesma mudança, o carro não aguenta se estiver sempre em sexta. O que percebi foi isso. Precisei de ir a um ponto morto. E nesse ponto morto fazer reflexões, formações. É preciso estarmos sempre nessa zona de aprendizagem, se não, é impossível haver uma evolução. 

Tiveste medo de fazer essa pausa?

Havia algum medo associado, sabemos que o mercado é pequeno. E que, pronto, apesar de tudo, há sempre pessoas novas a aparecer, há pessoas muito talentosas. Mas confesso que não deixei que esse medo falasse mais alto que a vontade de voltar a mim e a um lugar de aprendizagem também.

Nesse tempo que tiveste parada, aproveitaste para reforçar o teu trabalho humanitário. Uma das tuas paixões. 

Foi em 2009 a primeira vez que associei a minha imagem a uma campanha que era precisamente contra a violência doméstica. Em que o slogan era: todos os homens que fazem parte da minha vida, nenhum será mais do que eu. E a partir daí comecei a perceber que tinha todo o interesse em associar a minha imagem pública a este tipo de campanhas. Conseguir explorar a imagem que tenho de uma forma. positiva. Sempre disse que a exposição mediática tem dois lados da moeda e queria beneficiar do lado bom. Há muita gente que não tem esse lugar, logo não tem essa voz, logo não tem essa oportunidade de dar voz a causas, de dar voz a uma série de temas importantes que não podem ficar em segundo lugar.  Em 2015, lancei o meu primeiro livro infantil sobre a igualdade de género, em co-autoria com o Narciso Moreira e, depois, em 2018, lancei o meu segundo livro, também sobre a igualdade de género. É preciso não tapar o sol com a peneira. Não por filtros de instagram. Estes temas têm que estar bem expostos. 

“Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.” Esta é uma frase [de José Saramago] que gostas. Este é também um life motto para a Mariana Monteiro de 2020?

Sim. Olha, pode ser (risos). Bom slogan. Ou seja, saber atribuir o tempo ao que realmente importa. Saber fazer uma boa distribuição desse tempo. Temos um bolo, a nossa vida é esse bolo, vamos tentar fatiá-lo de forma inteligente.

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