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Inspiring Women 28. 6. 2018

Maria da Conceição: "Grande parte da minha visão é baseada num sonho"

by Irina Chitas

 

Maria da Conceição construiu a Fundação Maria Cristina e o mundo ficou melhor. Mas há tanto a fazer até que o mundo seja um lugar bonito.

Maria da Conceição © Branislav Simoncik 

Começou do nada, sem estar à espera, sem planear, mas hoje Maria da Conceição já ajuda mais de 200 alunos. A Fundação Maria Cristina é uma organização sem fins lucrativos que atua em Dhaka, no Bangladesh, para elevar as crianças a muito mais do que elas pensavam ser. Como aconteceu a Maria da Conceição.

 

Para começar mesmo pelo início, o que é que queria ser quando fosse grande?

As pessoas costumavam dizer-me que iria ser empregada de limpezas ou semelhante, porque parei de ir para a escola aos 12 anos. Eu meio que aceitei isso na altura, mas pensei, se eu tiver que ser uma empregada de limpezas, então serei a melhor, serei o Ronaldo das limpezas. Saí de Portugal quando tinha 18 anos para ir para Itália e depois para a Suíça e Reino Unido. O salário era muito baixo em Portugal e eu era uma excelente empregada de limpezas, então aspirava muito alto nesse mundo. 

Que valores sente que construiu na sua infância e que contribuíram para que se dedicasse a esta Fundação?

Quando tinha dois anos a minha mãe conheceu uma senhora chamada Cristina. A Cristina era uma refugiada de Angola; era uma empregada de limpezas e tinha seis filhos.

Isto foi em Portugal em 1979, a minha mãe estava com dificuldades, sem dinheiro para me alimentar e a Cristina disse-lhe para ir para Lisboa procurar trabalho que ela iria cuidar de mim até que ela retornasse. A Cristina tinha um lema, "quem alimenta seis, alimenta sete". Embora fosse pobre, não hesitou em cuidar de mim para ajudar a minha mãe. O que Cristina não percebeu foi que a minha mãe nunca voltaria.

Naturalmente, era confuso crescer como uma criança branca com uma família negra numa pequena aldeia. A Cristina costumava dizer-me que a minha mãe voltaria e costumava “fingir” ler cartas dela, mas na realidade ninguém sabia onde ela estava. Ela lutou contra as autoridades que queriam colocar-me ao seu cuidado. Sentiu que eu estava melhor com ela e que a minha mãe, a quem ela havia feito uma promessa, retornaria.

A Cristina era uma mulher incrível, ía sempre de casa em casa procurar trabalho de limpezas, mas também ajudava sempre os necessitados com comida ou dinheiro. Os aldeões disseram-me depois que eu nunca saía do seu lado; uma menina branca pequenina apertando a sua mão com força.

Aprendi muitos valores com a Cristina, principalmente que muitas pessoas precisam de ajuda e se estiver numa posição de ajudá-las de alguma forma, então devia fazê-lo.

Li que tudo começou em 2005. Olhando para trás, como é que se via nessa altura?

Eu era apenas uma hospedeira de bordo, uma jovem muito introvertida que viu a oportunidade de ajudar os outros. Não tinha grandes planos para começar uma instituição de caridade, apenas ajudava uma comunidade o máximo que podia. Nunca esperei que crescesse tanto.

O que é que sentiu que a fez querer mudar a sua vida para poder mudar a dos outros?

Nunca foi planeado, apenas cresceu e cresceu. Naquela época eu tinha muito apoio sem ter de pedir. Não achei que isso iria mudar a minha vida, estava apenas a ajudar pessoas. Parecia-me algo normal. Eventualmente, cresceu tanto que tive de desistir do meu trabalho e concentrar-me a tempo inteiro à fundação. Consegui encontrar um patrocinador corporativo para pagar as minhas despesas e então isso mudou minha vida. Mas quando a recessão chegou e o financiamento ficou muito difícil, mudou ainda mais. Foi quando tive de começar a fazer desafios extremos para aumentar a consciencialização.

Que obstáculos encontrou no início?

O maior obstáculo foi enfrentar a mentalidade da comunidade do bairro da lata em relação à educação. Eles não viam o seu valor. Nas suas mentes, o futuro tinha sido determinado à nascença e era o seu destino viver nos bairros de lata, abaixo do nível de pobreza. Demorei muito tempo a construir a sua confiança para que eles valorizassem o que eu estava a tentar alcançar.

Pensou em desistir? Porquê?

Claro, muitas vezes. É sempre tão difícil. E na maioria das vezes parece que se dá um passo à frente, um passo atrás. Grande parte da minha visão é baseada num sonho: educar estas crianças que se tornarão estudantes brilhantes, mas a realidade nunca é tão linear. Claro que temos boas crianças e estudantes brilhantes, mas é uma luta na maior parte do tempo. Elas vivem vidas difíceis, com tantos problemas. Muitas vezes, torna-se muito para mim, mas eventualmente eu vejo os rostos delas e penso no que posso fazer; eu não as posso dececionar.

Como é que olha para o mundo, hoje?

Eu vejo ao mesmo tempo muito luxo e muita pobreza. Também vejo muita ganância para alcançar níveis materialistas e isso tem mostrado a sua cara feia na solidariedade, mais e mais histórias de escândalos com dinheiro de caridade que não são geridos corretamente ou usados para fins errados.

Acho que o futuro da caridade vai ser muito difícil e pode mudar de forma errada. Por exemplo, vejo um futuro onde haverá pequenos consórcios de doadores ajudando pequenas comunidades e gerindo-as, com os doadores em contato direto com os beneficiários. Especialmente nos dias de hoje, com mais acesso à tecnologia e comunicação, não ficarei surpresa se virmos em breve uma aplicação para isso, se ainda não existir.

Sente que as pessoas olham demasiado para o seu umbigo, quando podiam olhar para o dos outros e perceber que os podem ajudar, às vezes com ações pequenas?

Absolutamente. Todas as pessoas podem ajudar alguém, nem que seja um pouquinho.

Angariar financiamento é um trabalho a tempo inteiro. Como é que o faz hoje em dia? Sente que é mais difícil agora do que quando começou?

Sim, é muito mais difícil, é por isso que faço os desafios, para aumentar a consciencialização e mostrar às pessoas o que estou disposta a fazer para manter este projeto a funcionar.

Muitas pessoas já não confiam em instituições de caridade, porque não confiam na forma em como o seu dinheiro está a ser usado e isso acaba por afetar as instituições boas e eficientes como a nossa. Não gastamos nenhum dos nossos donativos em administração, renda ou salários.

Que mensagem tenta sempre passar, em primeiro lugar, às crianças que ajuda?

Ambicionar mais alto. Não se sentir limitado pelo local ou situação em que nasceram. Às vezes é difícil para eles acreditar que podem ser bem-sucedidos fora dos bairros da lata, porque não conhecem nada diferente. Felizmente agora temos alguns casos de sucesso de estudantes na universidade ou em bons empregos, então as crianças acreditam mais em si mesmas.

O que é que sente quando as vê prosperar?

Tenho muito orgulho no que alguns deles alcançaram. É difícil explicar o quão difíceis são as suas vidas. Embora os ajudemos, eles ainda precisam de trabalhar muito para ter sucesso.

Dizem-lhe que devia abrandar? O que é que responde?

Sim, mas geralmente essas pessoas não entendem que nós podemos ter pago as propinas escolares do ano passado, mas já temos as contas deste ano para pagar.

Os desafios que eu faço exigem uma longa preparação prévia, por vezes um ano. Normalmente quando termino um desafio, começo logo de seguida a treinar para o próximo. Espero que este projeto finalize em breve, quando conseguirmos financiamento suficiente. Mas tenho tantas coisas que quero alcançar, e não tenho tempo para desacelerar ainda.

Três mulheres que a inspiram?

Cristina, a minha mãe adoptiva. Madre Teresa – não tanto porque ela ajudava as pessoas, mas porque ela era uma mulher tão forte que enfrentou tantos desafios, mas sempre seguiu os seus instintos. QUALQUER mulher que enfrenta de frente os seus desafios ou dificuldades na vida e não os vê como barreiras. Mas sim olha para além das dificuldades e vê as possibilidades - isso sempre me inspirou em todas as esferas da vida.

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