The Portuguese Summer Issue
Com um percurso já estabelecido, Magui Corceiro começou cedo na representação e continua a acumular projetos de sucesso, explorando agora oportunidades inter- nacionais — e sublinhando que esta Margarida não para de florescer.
Tinha apenas 16 anos quando se estreou na novela A Prisioneira (2019), o ponto de viragem para a profissão de atriz, depois de ter começado como modelo. A partir daí, sucederam-se os projetos que a estabeleceram na indústria do pequeno ecrã: outros títulos no mesmo formato, como Bem me Quer (2020); Quero é Viver (2022); Morangos com Açúcar (2023) e A Fazenda (2024) validaram a sua escolha profissional, trazendo-lhe notória fama e carinho junto do público e pares, consolidados pela sua destreza em navegar também nas redes sociais. Uma coisa — a carreira de atriz — ajudou a alimentar a outra — a vertente de influencer — e vice-versa, mas, acima de tudo, foi a sua dedicação ao métier e o seu talento, com provas dadas, que a fizeram cruzar a fronteira até Espanha e começar a fazer nome também na indústria de nuestros hermanos: a personagem Maru em Citas Barcelona (2024) e a Zoe de Punto Nemo (2025), na Amazon Prime Video, abriram a porta do pequeno ecrã espanhol; Todo lo que Nunca Fuímos (2026), onde contracena com Maxi Iglesias, assinala a sua estreia no grande ecrã e revela-se já pivotal como mais um marco na sua ascensão apoteótica enquanto atriz a ter em conta. Uma que, por mais que desbrave caminho lá fora, não arranca as raízes portuguesas — mais concretamente, de Santarém — do seu discurso e do seu coração.
Como é que a representação entra na tua vida: era já uma vontade ou foi uma evolução natural do teu início como modelo?
A oportunidade para ser modelo surgiu por mero acaso. Na altura eu tinha 12 anos e um amigo do meu pai achou que eu podia ter potencial para fazer alguma coisa em moda. Apresentou-me aos diretores da Central Mo- dels, que continua a ser a minha agência até hoje, e acabei por ficar agenciada. No início, não era mesmo nada sério, só fazia trabalhos de fotografia, muito pontualmente. Depois, aos 14, começou a surgir a oportunidade de fazer castings de representação: comecei a ir, a receber imensos “nãos”, até que um dia, já com 16 anos, recebo um “sim”. Comecei, nesse mesmo ano, a minha primeira novela. Desde então, não tenho parado. Depois de fazer o meu segundo projeto, percebi que era na representação que eu me sentia completa e realizada e investi na minha formação, procurei saber mais e adquirir mais ferramentas. Esta é uma profissão que está em constante evolução e mutação, portanto vou continuar no registo de absorver, aprender e aplicar por muito tempo. A moda, a apresentação de televisão e os trabalhos publicitários enquanto influencer também fazem parte deste meu percurso, mas são complementos a esta área que eu considero como principal.

Margarida: biquíni, CALZEDONIA. Calças, ADIDAS. Tiago: casaco, DSQUARED2. Constança: top, CONSTANÇA ENTRUDO. Mar: biquíni, CALZEDONIA. Calções, ISABEL MARANT. Carlos: casaco e calças, LACOSTE.
Há algum papel que tenha sido mais especial?
Como comecei relativamente cedo e logo em projetos bastante completos, todos os papéis foram importantes para mim. Fizeram todos muito sentido na fase em que surgiram e deram-me a possibilidade de me transformar enquanto atriz e pessoa. Se tiver mesmo de destacar, destaco três: a minha primeira protagonista, a Eva, na novela A Fazenda, que me fez perceber todo o trabalho e disponibilidade associados a um papel de protagonista. Depois, a Zoe de Punto Nemo porque marcou a minha internacionalização enquanto atriz, com algo mais do que uma participação pontual, pois fiz parte da primeira e segunda temporadas, alterei completamente a minha imagem (tinha rastas) e pude perceber mais sobre after effects e ficção científica. Por último, destaco, claro, a minha Leah do filme Todo Lo Que Nunca Fuímos que marca também a minha estreia internacional em Cinema e ainda é surreal para mim saber que estou nas salas de cinema de vários países.

Margarida: vestido e cuecas, LOUIS VUITTON.
O que é que a representação em Portugal te tem ensinado, enquanto profissional? Mas também como te tem moldado enquanto pessoa, uma vez que ao longo desta quase década, e sendo tão jovem, cresceste pessoal e profissionalmente?
Tem-me ensinado mesmo muito. Em Portugal, fazem-se coisas realmente boas e há projetos de uma qualidade muito elevada. Mesmo assim, ouço muito “lá fora é que é bom”, “lá fora é que os projetos são grandes” e isso não é verdade. Portugal tem equipas muitíssimo completas, com muita formação e com uma capacidade de trabalho difícil de igualar. É verdade que no nosso país nem sempre os orçamentos atribuídos aos projetos culturais, neste caso de representação, são os mais elevados e que, por isso, é normal que notemos discrepâncias entre produções de diversos países, mas até nisso os portugueses conseguem surpreender. Há projetos, cujo investimento é bastante baixo, de uma qualidade superior ou igual aos que têm maiores recursos. Portanto, eu acho que devemos con- centrar-nos mais naquilo que está a ser feito e naquilo que temos, todos, conquistado no universo das séries e do Cinema em Portugal e de Portugal para fora. Esta forma de trabalho moldou a minha vida enquanto pessoa e moldou a minha entrega enquanto atriz, claro. Tenho aprendido sobre entrega, respeito, companheirismo, cooperação, presença e muitas outras coisas. Tem sido um percurso rápido, trabalhoso, mas muito, muito positivo.

Margarida: camisola e calças, LOEWE. Mar: biquíni, CALZEDONIA. Calções, ISABEL MARANT. Constança: vestido, BÉHEN. Tiago: casaco, DSQUARED2. Calças, LEVI’S. Carlos: casaco e calças, LACOSTE.
Falando em crescer, como é passar de jovem para adulta em frente às câmaras?
Eu só tive esta realidade, portanto não sei como é não crescer assim, mas para mim foi muito tranquilo porque, apesar de ter sido um processo relati- vamente rápido, eu senti que foi sendo gradual, degrau a degrau. Ou seja, não senti o reconhecimento e a exposição de um dia para o outro, foi tudo chegando com o seu tempo e eu fui-me habituando e aprendendo a lidar com o que chegava. Ao escolher esta profissão, eu sabia que a exposição iria existir e, em 80% dos meus dias, é algo que não me preocupa de todo e com o qual lido com total normalidade. Há, claro, os 20% restantes, que representam os dias em que sinto que a exposição sobre a minha vida pessoal podia ser um bocadinho menor, mas sei que em relação ao meu trabalho é muito bom que exista e essa não me incomoda nada.

Margarida: top e saia, GONÇALO PEIXOTO. Carlos: calças, MARINE SERRE.
Pareces alguém com os pés bem assentes na terra. Como é que te manténs focada e sem deixar que todo este ambiente te suba à cabeça?
Que bom! Fico contente que seja essa a ideia que têm de mim. Eu tento! Esse exercício não é feito por mim, acho. É feito por quem me rodeia, neste caso, os meus pais e os meus amigos. Tenho muita sorte. Como são a minha esfera próxima, com quem eu falo todos os dias, transmitem-me uma calma e normalidade que talvez não conseguisse ter se não os tivesse tão presentes. Mas eu sou a Magui que vai ao supermercado, que arruma/desarruma a casa, que vai aos almoços e jantares de família, que procura estar presente na vida dos amigos, que liga ao pai quando tem problemas nos pneus do carro ou à mãe quando não sabe o que fazer! Procuro que os ambientes em que me encontro me acrescentem sempre algo de novo, mas tento que não me mudem os valores, a maneira como tratamos os outros ou a postura que temos perante a vida.

Margarida: blazer, camisa, top e calças, BOTTEGA VENETA. Sandálias, GIVENCHY.
Tens sabido estabelecer-te como atriz num mercado nacional competitivo — e estás a repetir a façanha internacionalmente. A internacionalização sempre foi um objetivo? Ou foi algo que organicamente foi surgindo?
Foi uma mistura das duas coisas. Era um objetivo e, por isso, foi um passo estudado e pensado. Trabalhei para isso, fiz formações e percebi, em conjunto com a minha equipa, qual era o próximo passo a dar. Ainda assim, nunca pensei que fosse tão rápido. Isto porque é comum nós, atores, trabalharmos uma língua, aperfeiçoarmos sotaques, observarmos novas culturas, entrarmos na “bolha”, mas não é muito comum que isso traga logo resultados imediatos, e a mim, felizmente, trouxe, e sou muito agradecida por isso. Já estou a gravar mais um projeto em Espanha e é um mercado que me faz mesmo muito sentido e que me recebeu de braços abertos.

Margarida: top e calças, EMPORIO ARMANI. Tiago: casaco, DSQUARED2. Carlos: camisa e calças, LACOSTE.
Os portugueses estão a dar cartas internacionalmente — achas que os atores portugueses estão a criar um momentum, mais que nunca?
Eu espero verdadeiramente que sim. Acredito mesmo na qualidade do talento nacional, em muitas áreas, e a da representação não é exceção. O que pode estar na origem disso é precisamente a capacidade de trabalho e formação de que te falava nas respostas anteriores. Os portugueses fazem muito com pouco, com muita qualidade e isso só pode dar frutos.

Margarida: casaco, body, saia e collants, tudo VALENTINO. Tiago: top, LOLO COLLECTIVE.
Muitos dos nomes portugueses que se estão a estabelecer internacionalmente fizeram-no de Portugal para Hollywood. Tu estás a começar por Espanha — foi uma escolha intencional ou aleatória?
Foi intencional, porque foi um mercado que começou também a dar-me sinais de procura pelo meu trabalho (também por saberem que eu já falava castelhano), mas Hollywood é, sem dúvida, um objetivo que terei mais adiante. Sem pressa, pressão ou estabelecimento de um prazo, porque acredito que quando tiver de chegar, chega. (...) Eu vou um bocadinho ao sabor do vento. Tenho objetivos, claro que sim, trabalho para chegar às minhas metas, mas gosto muito de ser open-minded e de me ir adaptando aos planos e oportunidades. Para já, estou a trabalhar bem em Espanha, mas se amanhã me surgir um projeto incrível noutro ponto qualquer do globo, não hesitarei em tentar!

Margarida: vestido, PRADA. Sapatos, CHRISTIAN LOUBOUTIN. Constança: top e saia, 2B. Tiago: calças, LEVI’S. Ténis, da produção. Carlos: calças, MARINE SERRE.
Como foi passar de falar português para espanhol? Caíste na “armadilha” do portunhol, ao início?
Acho que enquanto atriz acabei por não cair no portunhol porque tive a sorte de, a nível pessoal, ter aprendido antes a língua. Eu passava temporadas em Madrid e fui absorvendo naturalmente o idioma. Quando percebi que poderia ser uma ferramenta de trabalho, aperfeiçoei-o, tive aulas e imergi totalmente na língua. Tinha o meu telemóvel em espanhol, via filmes em espanhol, ouvia músicas de Espanha e assim fui entrando mais no idioma. Ainda não tenho o castelhano perfeito, mas tenho um castelhano que me dá muito gozo falar e gosto bastante de ouvir a minha voz em espanhol! O mais difícil ainda é o improviso porque, enquanto portuguesa, o português ainda é o idioma mais imediato, que me vem logo à cabeça.

Margarida: vestido, COPERNI. Body, INTIMISSIMI. Tiago: calças, LEVI’S. Constança: biquíni, MISSUS. Calças, CONSTANÇA ENTRUDO. Carlos: calças, LACOSTE.
O que sentiste que é mais distinto, entre o modo como se faz produção nacional e produção espanhola? Somos povos muito diferentes ou muito parecidos?
Muda muito e muito pouca coisa! Somos muito parecidos na qualidade e capacidade de trabalho. O ponto mais distinto que encontrei até hoje é uma coisa que não está relacionada diretamente com o trabalho, mas sim com o próprio dia de rodagem. Em Espanha, a hora das refeições durante o trabalho é sagrada. Há um enorme respeito pelas pausas e pelo descanso e em Portugal isto não existe com tanta frequência. De resto, achei tudo bastante parecido em termos de organização e desenvolvimento. Claro que tenho estado em projetos com um investimento confortável, e isso faz com que existam diferenças mais específicas, mas isso não está relacionado com a entrega, profissionalismo ou diferenças gerais, portanto, considero-nos parecidos.

Margarida: top e calças, GIVENCHY. Carlos: casaco, MARINE SERRE. Constança: top, da produção. Calças, PINKO. Tiago: camisa, DSQUARED2. Calças, LEVI’S. Mar: top, CONSTANÇA ENTRUDO.
Depois de Espanha, há objetivos ainda mais longínquos?
Para já, Espanha está a ser casa de mais um projeto e por lá continuarei com mais projetos que vêm aí, mas não fecho a porta a novas possibilidades.
Tens algum realizador com o qual gostasses de trabalhar, ou uma per- sonagem ou tipo de filme que gostasses de experimentar?
Tenho muita curiosidade em explorar personagens com mais camadas, mais contraditórias, menos óbvias. Não precisam de ser vilãs, mas personagens mais imprevisíveis, com lados bons e maus, porque acho que são as mais desafiantes de interpretar. E adorava trabalhar com Pedro Almodóvar. Gosto muito da forma como ele escreve personagens femininas, sempre muito intensas, complexas e reais.
És seleta nos papéis que fazes. O que te faz dizer que sim a um papel? E o que te faz dizer que não?
Sou nos projetos, não só nos papéis. Ou seja, a minha agente de acting sabe perfeitamente o caminho que queremos seguir e já faz essa filtragem comigo. Chegam-nos muitas coisas que não se enquadram naquilo que procuro neste momento, ou que exigem uma disponibilidade temporal que eu não tenho agora e então optamos por excluir. Mas não há um tipo de papel que eu recuse de imediato, porque um papel nunca vem sozinho. É preciso analisar o contexto, o projeto, a equipa e o que me trará de novo. Portanto, é uma análise caso a caso, não excluo nada só porque sim.
Esta edição é dedicada ao verão português. O que é que para ti define o verão português?
É o melhor verão de todos! Fora de brincadeiras, para mim o verão português são os dias longos na praia, os caracóis e os gelados, o sal no cabelo, as festas, os convívios com os amigos e com a família, as tardes na piscina, os festivais de música... o Algarve e a Comporta! O hábito é o primeiro mergulho! Quanto está calor para o primeiro mergulho, o verão chegou para mim (mesmo que seja antes do tempo).

Margarida: vestido, top e cinto, tudo PUCCI. Constança: top, da produção. Tiago: camisa, DSQUARED2. Carlos: casaco, MARINE SERRE. Mar: top, CONSTANÇA ENTRUDO. Calções, ADIDAS.

Margarida: top e calças, EMPORIO ARMANI. Tiago: casaco, DSQUARED2. Carlos: camisa e calças, LACOSTE.
Falando em verão português, um dos seus ex-líbris são as tascas. Que prato nacional adoras pedir numa boa tasca?
Carne de porco à alentejana! É tão português e é tão bom!
Ossos do ofício, passaste muito tempo em Espanha: há algum hábito deles que tenhas apanhado?
Sim, os jantares tardios. Em Espanha, normalmente, janta-se mais tarde do que em Portugal e eu adoro jantar tarde porque assim colo logo com o plano seguinte.
E um hábito tão português que não te consegues descolar dele, onde quer que estejas?
Estar sempre a falar com os meus melhores amigos e família, conta? Acho que os portugueses, de uma forma geral, partilham muito da sua vida com o seu núcleo direto. Pelo menos, não vejo isso a acontecer com tanta frequência com pessoas de outros países e acho mesmo que é uma coisa mui- to portuguesa. Eu adoro e faz-me muita diferença nos meus dias. Fora isso, a sopa é o maior clássico dos portugueses e eu adoro uma boa sopinha.

Margarida: vestido, MIU MIU. Sandálias, PARIS TEXAS.
Qual é a tua expressão popular portuguesa favorita?
“Feita ao bife”. Não uso muitas expressões, confesso, mas esta é a minha preferida.
Daqui a 10 anos, o que gostarias que estivessem a dizer sobre a Magui Corceiro?
É difícil dizer, porque queremos sempre que digam aquilo que nos representa naquele determinado momento e eu não faço ideia onde e como estarei. Mas gostava que me vissem na mesma como a Magui, feliz e realizada, a trabalhar muito pelos seus objetivos e a continuar fiel à sua essência e presente na vida das pessoas mais próximas!
Most popular
Relacionados
Margarida Corceiro: "Os portugueses fazem muito com pouco, com muita qualidade"
23 Sep 2026
