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Entrevistas 13. 12. 2021

Manu San Félix, o homem que mergulha por um universo subaquático melhor

by Rui Matos

 

Biólogo, mergulhador, fotógrafo e explorador da National Geographic, assim é Manu San Félix, o homem que dedica a sua vida ao universo subaquático. Tem como principal objetivo aproximar a natureza das pessoas ao mesmo que tempo que as fascina e inspira mostrando a real importância da natureza para a vida do ser humano. Em conjunto com a Mango, San Félix quer consciencializar o maior número de pessoas para a realidade dos mares e oceanos.

Manu San Félix

O Manu San Felix é um cuidador ávido do meio ambiente, mais especificamente do mundo subaquático. Como é que esse interesse surgiu na sua vida?

Foi aos 13 anos, lembro-me perfeitamente. Nessa altura crescia a ver documentários televisivos de Jacques Cousteau e Félix Rodriguez de la Fuente e, através deles, fiquei fascinado pela natureza e, em particular, pelos mares e oceanos. Nessa idade estava absolutamente convencido que queria dedicar a minha ao que estes dois gigantes estavam a fazer, em especial ao que Cousteau fazia, que era explorar, observar, filmar e proteger mares e oceanos.

Qual é a situação atual da posidonia e porque é que é tão importante para a nossa biodiversidade?

A posidonia (erva do mar) é extremamente importante. É considerada o ecossistema mais importante ao longo da costa mediterrânea uma vez que contribui tanto para a ecologia e a economia deste mar e da costa que o rodeia. A posidonia liberta enormes quantidades de oxigénio. É o sistema mais eficiente na natureza para a recolha de CO2, sendo por isso um aliado no combate ao aquecimento global. É uma reserva de biodiversidade para muitas espécies: aproximadamente 30% das espécies dependem do ecossistema do habitat que a posidonia gera. Além disso, em locais como as Ilhas Baleares, as praias e a água que vivem principalmente do turismo são o que são graças à posidonia, que gerou areia para as praias e construiu recifes durante milhares de anos, que protegem a costa e dão estabilidade para permitir a existência destas praias. Como publicado em revistas científicas pelo investigador Telesca, nos últimos 40 anos perdemos 34% da posidonia que existe no Mediterrâneo ocidental. Assim, temos muita posidonia, mas também perdemos muita coisa, quase um terço. Trata-se de uma situação que precisa de ser levada a sério.

 
 
 
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O que é que podemos fazer para salvar o mediterrâneo?

Tomar medidas agora. Conhecemos os problemas que temos e conhecemos as soluções, e isto é algo que temos de fazer imediatamente porque neste momento ainda temos tempo para recuperar o Mediterrâneo, embora não possamos continuar durante anos a dizer que ainda temos tempo. A primeira coisa que temos de fazer é protegê-lo: neste momento, menos de 1% de todo o Mediterrâneo está protegido (contra a pesca). A previsão global é que até 2030, 30% dos oceanos estarão protegidos (da pesca). É isto que se estima para sustentar a pesca artesanal, que alimenta e emprega tantas pessoas. Temos de deixar de a intoxicar. Estamos a despejar enormes quantidades de água insuficientemente purificada, mesmo água não purificada, de cidades e vilas, para a bacia do Mediterrâneo. Fazendo apenas estas duas coisas, até 2030 teríamos um mar Mediterrâneo mais parecido com o que era em 1950 e não como é agora em 2021.

E quais são as medidas diários que devemos pôr em prática para ajudar?

A forma de alcançar aquilo mencionámos na pergunta anterior é através da criação de zonas marinhas protegidas, pelo que não é lógico que 99% do mar esteja aberto à pesca. Os peixes precisam de espaço para viver, reproduzir-se e crescer, e isto é algo que uma criança entende, não tem de ser um biólogo marinho. E depois temos de acrescentar instalações de purificação, dado que hoje temos o conhecimento e a tecnologia para purificar a água do Mediterrâneo em que nos banhamos e pescamos. É algo de contraditório que, ao mesmo tempo, despejamos ali os nossos resíduos (no mar).

Pode falar-nos daquilo que faz na fundação que fundou, a Vellimari?

A Vellmari é uma associação que foi fundada na ilha de Formentera e o nosso objetivo é recuperar o mar Mediterrâneo. Queremos que isto se propague a outras áreas do Mediterrâneo, e em Formentera, Ibiza e nas Ilhas Baleares estamos a tomar as acções que consideramos necessárias para alcançar esta mudança. É por isso que temos um forte compromisso com a educação. Se conseguirmos educar todas as crianças do Mediterrâneo, dentro de 20 anos já não teremos muitos dos problemas que temos agora, uma vez que os teremos resolvido através da educação. 

Ao mesmo tempo, queremos promover a criação de mais áreas marinhas protegidas nas Ilhas Baleares - Ibiza e Formentera. Neste momento, o que temos (protegido) nas Ilhas Baleares é de 0,16%, o que é uma quantia ridícula. A pesca está a sofrer e temos de a proteger, em primeiro lugar, para ajudar os pescadores, caso contrário, estes não poderão pescar. 

Também temos acções de restauração. Enquanto protegemos, temos de continuar a aprender a restaurar o que degradámos, razão pela qual temos também um ambicioso programa de plantação de posidonia, que está aberto à participação de crianças, bem como de adultos. Desta forma, podemos promover a educação. 

Acima de tudo, o que queremos fazer é difundir a mensagem de que é fácil de destruir, mas muito difícil de recuperar. Portanto, o primeiro objetivo da restauração é a própria educação. Embora estejamos a plantar posidonia, antes das acções de recuperação que nós humanos estamos a realizar, o mais importante é salvaguardar o que temos. No que diz respeito à posidonia, temos de cuidar de cada planta que temos neste momento. 

Atualmente estão a trabalhar em algum projeto?

Estamos a trabalhar num projeto para proteger posidonia através de uma aplicação que desenvolvemos, que se chama Posidonia Maps, que é gratuita para qualquer pessoa descarregar.  O objetivo é que, nas Ilhas Baleares, os barcos deixem de atirar as suas âncoras sobre a posidonia com a ajuda desta aplicação, que lhe diz de uma forma muito simples se está ou não sobre uma pradaria de posidonia.

Em segundo lugar, temos um objetivo de plantar posidonia, para o qual realizámos um projeto-piloto no ano passado. Assim, estabelecemos alguns objetivos ambiciosos para colocar pequenas plantas de posidonia que germinamos no mar, com a participação de jovens e do programa de voluntariado em geral. 

E, em terceiro lugar, é necessário comunicar isto com força, a fim de transmitir esta mensagem da importância das pradarias de posidonia, do Mediterrâneo e dos mares e oceanos em geral nas nossas vidas. Temos a capacidade de gerar imagens impressionantes da beleza e importância da posidonia e do Mediterrâneo, criando uma narrativa que chegará a muitas pessoas. É por isso que estamos a planear uma exposição itinerante, começando nas Ilhas Baleares antes de atravessar a região mediterrânea, com esta mensagem da importância da posidonia, do Mediterrâneo e do oceano.

Como se sentiu quando uma grande marca como a Mango o abordou para criar uma maior consciencialização para esta situação?

Sinto que agora é o momento para as empresas e isto enche-nos de satisfação, assim como de energia e entusiasmo, que uma marca tão importante como a Mango esteja preocupada com algo que pertence a todos e com o qual todos nos devemos preocupar. No fim de contas, a Mango é uma marca e por trás da marca há pessoas, e essas pessoas têm sentimentos e sentem esta preocupação. Acima de tudo, acredito que marcas como a Mango têm a capacidade de chegar às pessoas. Há 12 anos que trabalho para a National Geographic e alcançamos muitas pessoas, embora uma parte específica da população. No entanto, o público da Mango é praticamente toda a população. Eles têm a capacidade de chegar muito perto a muitas pessoas. Isso entusiasma-me e eu encorajo e felicito a Mango porque acredito que eles têm a capacidade, e a enorme responsabilidade, de fazer algo positivo e importante para a sociedade. 

A Mango, ao apoiar este tipo de projectos, está a atuar como porta-voz e a comunicar a importância de tais questões, que estão relacionadas com o mais importante para os seres humanos: a natureza. Para viver, precisamos da natureza, da água, do ar, da alimentação... por isso, neste momento, a sociedade em geral e a Mango em particular também perceberam que temos de mudar esta forma de viver e viver de uma forma que não seja à custa do planeta. Ao fazê-lo, a Mango oferece-se para ajudar de forma importante e, ao mesmo tempo, para difundir a mensagem à sociedade e a outros setores para agir da mesma forma.

 
 
 
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O melhor lugar para mergulhar e descobrir o ambiente subaquático é?

Tenho a sorte de ter praticado mergulho em todo o planeta e em todos os oceanos, em 42 anos cerca de 12.000-14.000 mergulhos, mas neste momento o último lugar onde estive, a Ilha do Milénio no Oceano Pacífico, é aquele que me vem à mente.