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Notícias 24. 1. 2022

Manfred Thierry Mugler, o visionário que deu à mulher poder

by Rui Matos

 

Dominou as passerelles nas décadas de oitenta e noventa, impulsionou o power dressing e deu à mulher poder. Manfred Thierry Mugler será sempre um ícone.

© Getty Images

“Estamos desolados por anunciar que o Mr. Manfred Thierry Mugler morreu neste domingo, 23 de janeiro de 2022. Que a sua alma descanse em paz”, escreveu a equipa do designer no Instagram. A notícia que ninguém esperava e que assolou a indústria. Depressa as homenagens começaram a inundar os nossos feeds. Irina Shayk descreveu Thierry Mugler como o “Deus da Moda”. Já Marc Jacobs agradeceu o seu contributo: “Obrigado por partilhares as tuas fantasias mais loucas”. “Manfred, sinto-me tão honrado por te ter conhecido e por trabalhar dentro do teu belo mundo”, começou por escrever Casey Cadwallader, atual diretor criativo da maison Mugler. “Mudaste a nossa percepção da beleza, da confiança, da representação e do auto-poder. O teu legado é algo que trago comigo em tudo aquilo que faço. Obrigado.”

Alta-Costura, outono/inverno 1995 © Getty Images

Apesar de se ter retirado da indústria da Moda em 2002, o designer continuou a ser uma figura de grande porte com as suas primeiras criações a ganharam um novo público através de uma nova geração de mulheres que reclamam o seu poder. Depois de, em 2008, ter visto a exposição Superheroes, no Costume Institute, Beyoncé encomendou ao designer coordenados para a sua digressão mundial I Am… Tour, que decorreu entre 2009 e 2010. Mais recentemente, Cardi B mergulhou nos arquivos e levou um coordenado estonteante à passadeira vermelha dos Grammys em 2019, e, por sua vez, Kim Kardashian pediu ao designer que idealizasse um coordenado para a Met Gala de 2019, cujo o tema foi Camp: Notes on Fashion - e quem melhor do que Manfred Thierry Mugler para criar um coordenado camp?

Beyoncé, 2009 © Getty Images

Kim Kardashian, 2019 © Getty Images

Mugler, nascido em Estrasburgo, na França, no final da década de quarenta, foi um dos principais designers a criar silhuetas arquitetónicas que casavam o S&M e a high fashion. O látex, a pele e as curvas são três das características que melhor o definem, assim como a silhueta em forma de triângulo invertido com ombros gigantes e uma cintura muito definida e mínima que o tornou mundialmente reconhecido. A cintura de vespa tomou novas proporções quando na coleção de Alta-Costura para a primavera/verão de 1997 imaginou as suas modelos como insetos. Noutras coleções Mugler pensou as mulheres como robôs, motas e até mesmo amêijoas, mas também as desenhava como deusas e anjos.

Alta-Costura outono/inverno 1997 © Getty Images

Primavera/verão 1992 © Getty Images

Primavera/verão 1995 © Getty Images

Grace Jones e Joey Arias foram as primeiras musas de Mugler. Já a relação do designer com David Bowie era tão bem sucedida que Bowie levou ao seu casamento, com Iman, um coordenado com assinatura Thierry Mugler. Diana Ross, Debra Shaw, Demi Moore, Pat Cleveland  e Jerry Hall fazem parte da lista restrita a que o designer chamou de musas.

Antes de tomar de assalto a cidade de Paris com as suas criações, passou por Londres onde contribuiu para os Swinging 60s: “Foi criativo, inventivo e divertido, e acima de tudo, foi um verdadeiro cenário social. Aos sábados à tarde, todos os jovens se pavonearam na King's Road em trajes incríveis,” recordou o designer numa entrevista ao WWD. Depois veio Paris, com Cristóbal Balenciaga e Christian Dior a servirem como as suas grandes influências. 

Thierry Mulger e Grace Jones, 1980 © Getty Images

“Não tinha bem a certeza do que queria fazer, mas a Moda descolou muito rapidamente em Paris, assim que mostrei os meus esboços”, contou ao WWD. “Nessa altura, a Moda estava no modo folclórico. Kenzo era toda a raiva, por isso tinha influências peruanas, influências indianas. Era tudo muito folclórico, e tudo o que eu queria fazer era esta silhueta parisiense, muito pura: o pequeno fato preto, a gabardina, o vestido preto, o vestido de sereia. Fiz o primeiro vestido nu do corpo. Ninguém estava a fazer nu naquela altura. A minha primeira linha de pronto-a-vestir chamava-se Café de Paris, e tratava-se de uma silhueta muito precisa e aerodinâmica, muito fortemente influenciada pela dança.” A primeira coleção foi apresentada em 1973 e no ano seguinte fundou a marca homónima. O reconhecimento veio muito depressa, a força dos seus cortes e a sua visão única não deixavam margem para dúvidas.

Jerry Hall, 1980 © Getty Images

Outono/inverno 1983 © Getty Images

Atualmente, e de acordo com o WWD, Mugler tinha afirmado, numa entrevista em setembro passado, que estaria a trabalhar em novas fragrâncias e numa exposição pessoal de fotografia que iria inaugurar em Berlim. Foi também sem setembro que a retrospetiva da sua carreira está em exposição no Musée des Arts Décoratifs, em Paris, com Thierry Mugler: Couturissime. Esta exibição reune perto de 150 criações feitas entre 1977 e 2014, acompanhadas por fotografias de um dos mais célebres image maker da década de 80. "Quebrou os tabus e os códigos da indústria da Moda, revolucionou a Alta-Costura com invenções inovadoras e escreveu a história da Moda - sem o saber - estação após estação, seguindo o seu instinto e capacitando homens e mulheres com a sua metamorfose. Deixou-nos como uma estrela cadente, em toda a sua glória, celebrada com uma grande retrospetiva que representa o seu legado único”afirmou Thierry-Maxime Loriot, o curador da exposição, após a notícia da morte de Mugler. 

Outono/inverno, 1988 © Getty Images

Outono/inverno, 1995 © Getty Images

Mugler usou as suas capacidades prodigiosas para levar a Moda a níveis até então desconhecidos. Surrealismo, ficção cientifica, dramatismo e muita teatralidade sempre pautaram a sua carreira. O seu legado será para sempre recordado, assim como a sua força de querer dar poder e liberdade às mulheres. Um verdadeiro artista nunca morre e Manfred Thierry Mugler não desaparecerá tão cedo das nossas vidas. Obrigado, Mugler!

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