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Tendências 17. 3. 2017

Livro de História: Alexander McQueen

by Vogue Portugal

 

Revisitamos a narrativa estética de um dos mais geniais criadores do nosso tempo.

 

A primeira memória de que Alexander McQueen teve dele próprio foi a de desenhar um vestido numa das paredes de sua casa, em 1972. Tinha três anos. Aos 15 já tornava as suas visões realidade e fazia vestidos para as três irmãs, de forma a ajudar os pais com as despesas. Foi aprendiz de ateliers como Anderson & Sheppard ou Gieves & Hawkes e avançou na sua aprendizagem para o figurinismo, sobre a alçada de Angels, chegando mesmo a trabalhar nas peças para Os Miseráveis

Ascende a assistente do seu ídolo, Romeo Gigli, em Milão, mas é em Londres que termina a sua formação, na Central Saint Martins. Em 1992 apresenta a sua coleção de final de curso, Jack the Ripper Stalks His Victims, que é adquirida na totalidade por Isabella Blow – a partir de então, a sua mais fervorosa apoiante.

Hamish Bowles descreve a primeira coleção de McQueen como “uma revelação”. Na apresentação de The Birds, uma homenagem a Alfred Hitchcock, enclausurou público e imprensa num armazém claustrofóbico, recheado apenas de sons de pássaros e acidentes de carros. Isto aconteceu em 1994, e – depois de ultrapassada a ansiedade, a incerteza e até o medo, soube-se que estávamos perante um espetáculo que iria definir a década. A Moda nunca mais seria a mesma. 

Quando fez desfilar Highland Rape foi mal interpretado pela crítica, já que não se referia à violação de mulheres – apesar de os modelos descerem a passerelle em corpetes rasgados -, mas à violação da Escócia (terra-natal de Alexander) pela Inglaterra. Na verdade, McQueen viria a afirmar que não queria vulnerabilizar a feminilidade, mas gostava que as pessoas tivessem medo da mulher que se passeasse nas suas roupas. Em 1996 a indústria abraçava-o com o primeiro Bristish Designer of the Year (viria a ser premiado outras três vezes), e a Givenchy nomeava-o diretor criativo da casa.

A tantas vezes apelidada “misoginia” continuou a ser o foco principal de uma obra que não só ultrapassava as regras como as redefinia. Alexander McQueen estava a tornar-se numa força da natureza cuja imaginação selvagem só era ultrapassada pelo talento sobrenatural de a tornar realidade. Sarah Burton chegou a recordar que bastava a equipa dizer-lhe que algo era tecnicamente impossível para, na manhã seguinte, chegarem ao atelier e no manequim estar a prova de que estavam enganados. Os desfiles tornavam-se espetáculos, e cada coleção era tão pejada de pormenores que as ideias-base dariam inspiração para quinze estações. Estivéssemos a falar de qualquer outro criador, e não do que construiu próteses para Aimee Mullins e a colocou a desfilar, do que enjaulou modelos em celas, do que trouxe um holograma de Kate Moss para a passerelle.

Casa-se em 2000 com George Forsyth (Kate Moss é madrinha); em 2001 sai da Givenchy por falta de liberdade criativa – seria alguma casa que não fosse a sua dar-lhe tamanhas asas? – e vende 51% da Alexander McQueen à Gucci, mantendo-se no leme criativo. Dois anos depois lança o primeiro de dois perfumes e, em 2003, recebe da Rainha Isabel a ordem de Commander of the British Empire. Em 2004 apresenta a primeira coleção para homem e em 2006 a sua linha mais acessível – McQ.

Em 2007 é abalado pelo suicídio de Isabella Blow, à qual dedica a sua coleção de primavera. Mas este golpe não abala a genialidade: com 2009 chega Plato’s Atlantis, uma das suas obras mais mediáticas não só pelos vestidos inspirados em mergulho, como nos sapatos de salto vertiginoso que seguem as linhas de um tatu e servem apenas às modelos que são corajosas o suficiente para os manobrar – às modelos e a Lady Gaga, que os usa orgulhosamente em “Bad Romance”.

Com flagship stores em Nova Iorque, Milão e Londres; com prémios, troféus, honras e elogios; com apupos, aplausos e méritos, Alexander McQueen construiu um império que nunca se quis consensual. Enriqueceu, comprou uma mansão para si e outra para a mãe, Joyce, que não só era o seu maior ídolo, como a sua melhor amiga e parceira de negócio (fazia toda a pesquisa histórica que levava à construção das peças). Joyce pereceu ao cancro em 2010 e, nove dias depois, McQueen suicidou-se. Tinha 40 anos. 

A sua última coleção foi apresentada ao som da ópera barroca Dido and the Aeneas, e o seu legado brilhante é continuado por Sarah Burton. A Moda continua a fazer-lhe vénias – o maior dos quais, talvez, seja Savage Beauty, a retrospetiva do MET (acolhida pelo londrino V&A) que bateu records de bilheteira – sem nunca verdadeiramente perdoar a ironia amarga da frase que tornou icónica - "Give me time, and I’ll give you a revolution”.

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