Entrevistas  

Laufey: "As maiores e melhores decisões que tomei foram aquelas em que o meu coração se sobrepôs à minha voz da razão"

10 Jun 2026
By Beatriz Fradoca

The Heart&Reason Issue | Vestido, ALBERTA FERRETTI.

A cantora e compositora Laufey tem vindo a construir um percurso pouco óbvio. Cresceu em Reykjavík, filha de pai islandês e mãe chinesa, num território intermédio, entre línguas, referências e códigos culturais, onde a pertença, no sentido clássico da palavra, nunca se apresentou como algo evidente. Foi nesse desalinhamento, porém, que acabou por encontrar a sua própria linguagem.

O sentimento de pertença, sobretudo na infância, tende a ocupar um espaço demasiado importante na forma como nos vemos no mundo. Afinal, todos sentimos a necessidade quase instintiva de pertencer. Quando a isso se soma uma dimensão cultural híbrida, esse processo torna-se ainda mais complexo, quase como uma negociação constante entre códigos que não se encaixam de forma linear. Num país como a Islândia, onde Laufey era uma das poucas crianças asiáticas, a noção de ser outsider instalou-se de forma quase natural e a consciência de que não caberia “numa única caixa”, como ela própria descreve, não foi apenas uma reflexão identitária, mas algo que acabou por atravessar a sua forma de estar e de criar. Mas, longe de a afastar, essa experiência acabou por afinar o seu olhar: “O sentimento de não pertença é algo que tantas pessoas vivem”, diz, como quem reconhece uma espécie de código universal, “escrever sobre isso ajudou-me a estabelecer contacto com pessoas de todo o mundo e fez-me sentir menos sozinha.”

A ligação à música nasceu cedo, quase como uma extensão natural do ambiente familiar em que cresceu. O avô materno, professor de música e figura central na sua formação inicial, atravessa ainda hoje a forma como a artista encara a composição de maneira quase orgânica. Mais do que um ensino técnico no sentido tradicional, havia nele uma pedagogia construída a partir de imagens e associações, em que a música era constantemente traduzida através do mundo físico, como se cada som pudesse ser explicado por uma textura, um movimento ou uma paisagem. É uma perspetiva que ainda hoje se reflete na escrita da cantora, onde a sensibilidade narrativa e a atenção ao detalhe parecem nascer precisamente dessa ligação entre o concreto e o emocional, entre aquilo que se sente e aquilo que se observa.

Vestido, MUGLER.

O jazz surge depois, através do pai que costumava ouvir nomes como Ella Fitzgerald e Billie Holiday, descobrindo um repertório que rapidamente deixou de ser apenas referência para se tornar linguagem. Há uma memória a que a cantora regressa com frequência: a de ouvir Black Coffee e ficar presa ao timbre de Fitzgerald, como se ali existisse uma densidade quase física do som. Apesar de o jazz ser frequentemente associado a uma certa nostalgia, como se pertencesse a um tempo já fechado, Laufey recusa essa leitura linear. Para si, não se trata de recuperar algo perdido, mas de reconhecer uma continuidade que nunca deixou de existir: “Não acho que tenha trazido o jazz de volta, porque o jazz nunca desapareceu. Ainda assim, fiz da minha vida a missão de garantir que o maior número possível de pessoas ouve as gravações de jazz de que gosto e encontre nelas a mesma inspiração que eu encontrei. Percebi que os meus pares e a minha geração apreciam uma gama tão vasta de música que nunca me preocupei em sentir-me ‘desfasada’. Se olharmos para o panorama da pop atual, os artistas estão a beber inspiração de todas as décadas e até canções do passado estão a ganhar uma nova luz.”

Vestido, J’AMEMME.

Num percurso marcado por questões de pertença, identidade e afirmação de voz, a família mantém-se um suporte constante na vida de Laufey. Se ao longo da sua história há a consciência de não pertencer totalmente a uma única “caixa”, nem cultural nem musical, Junia, a sua irmã gémea, representa precisamente o contrário disso: uma continuidade total, alguém que partilha não apenas memórias, mas a própria origem desse percurso. E é talvez por isso que a ideia de isolamento, tantas vezes associada ao papel de artista, ganha outra leitura no seu caso: “É uma verdadeira bênção, porque muitos descrevem ser artista como uma experiência isolante, mas eu tive-a comigo (Junia) a cada passo do caminho. Ela torna os dias difíceis muito mais fáceis. Trabalhar e viajar pelo mundo com ela é algo saído dos nossos sonhos de infância.” 

No diálogo entre coração e razão, o tema desta edição da Vogue Portugal, Laufey reconhece que, na música, é sempre o coração a tomar a dianteira, como se houvesse ali uma espécie de entrega imediata que dispensa hesitação. Já fora desse espaço, a relação entre as duas forças torna-se mais tensa. Há momentos em que a razão se impõe com mais insistência, sobretudo quando entram em jogo noções de expectativa, de julgamento externo ou até de projeções sobre a pessoa que poderá vir a ser. É nesse contexto que surge a reflexão que recentemente a fez reposicionar esse conflito: “Alguém me disse recentemente que a única decisão que posso tomar é para a minha versão presente, e isso parece-me ser viver com o coração.” A ideia funciona quase como um ajuste de foco, uma forma de reduzir o ruído criado pelo excesso de antecipação e de devolver a decisão a um lugar mais imediato. Olhando para trás, esse princípio ganha ainda mais consistência, já que os momentos mais decisivos do seu percurso seguem um padrão claro: “As maiores e melhores decisões que tomei foram aquelas em que o meu coração se sobrepôs à minha voz da razão.” Não como oposição absoluta, mas como uma hierarquia que, repetidamente, se revela mais fiel àquilo que procura construir.

Top e saia, ALAÏA.

Na sua música, a vulnerabilidade nunca surge como um efeito colateral, mas como ponto de partida. Quando canta “it’s a curse being a lover girl”, não há ironia, mas uma consciência clara dessa exposição emocional, de sentir tudo com uma intensidade que nem sempre é fácil de gerir: “É um peso, porque nos faz sentir tudo de forma muito profunda, mas é também uma força exatamente por essa razão. Ser tão aberta com as minhas emoções permitiu-me chegar a tantos ouvintes que sentem o mesmo.” Essa dualidade atravessa grande parte do seu trabalho e até o seu processo criativo, que oscila entre impulso e disciplina. Há, por um lado, o impulso emocional, aquele momento em que a canção nasce quase em simultâneo com o que está a ser sentido, como se a escrita fosse uma forma imediata de organizar o que ainda está demasiado vivo para ser totalmente compreendido; “Por outro lado, defendo muito a ideia de me sentar e tentar escrever mesmo quando a inspiração não está presente. Não se pode estar sempre à espera que a inspiração apareça.”

Durante muito tempo, a cantora habituou-se a seguir regras com um rigor quase absoluto, como se a segurança dependesse dessa estrutura bem definida. A mudança da Islândia para os Estados Unidos veio, porém, alterar esse equilíbrio de forma irreversível. Sozinha numa cidade nova, sem as referências familiares que até então lhe serviam de apoio, percebeu rapidamente que esse modelo já não seria suficiente. O que antes funcionava como orientação começou a soar limitador, quase incapaz de dar resposta à realidade que a rodeava. Nesse novo contexto, a sobrevivência criativa exigia uma postura menos contida, mais aberta ao risco, um desvio que implicava quebrar algumas dessas regras, não por rebeldia, mas por necessidade de crescimento. A segurança deu lugar à experimentação, e o controlo começou, aos poucos, a ceder espaço ao erro. Esse movimento não surge isolado. Liga-se a uma perceção mais antiga, que remonta à infância, quando era frequentemente vista como “demasiado barulhenta”. A ideia instalou-se de forma subtil, mas persistente, moldando a forma como ocupava espaço, como falava, como se posicionava entre os outros. Durante anos, houve uma tentativa de calibrar essa presença, como se ser mais contida pudesse significar ser mais aceitável. É precisamente essa lógica que mais tarde começa a ser contrariada, já através da música e da confiança que nela encontra: “À medida que comecei a escrever a minha própria música e a encontrar confiança e alegria nisso, percebi que ocupar espaço e ser ‘barulhenta’ era uma das minhas melhores qualidades. É por isso que é tão importante para mim que as mulheres jovens usem a sua voz mais cedo. É uma força enorme.”

Vestido, LOUIS VUITTON.

Durante muito tempo, a cantora habituou-se a seguir regras com um rigor quase absoluto, como se a segurança dependesse dessa estrutura bem definida. A mudança da Islândia para os Estados Unidos veio, porém, alterar esse equilíbrio de forma irreversível. Sozinha numa cidade nova, sem as referências familiares que até então lhe serviam de apoio, percebeu rapidamente que esse modelo já não seria suficiente. O que antes funcionava como orientação começou a soar limitador, quase incapaz de dar resposta à realidade que a rodeava. Nesse novo contexto, a sobrevivência criativa exigia uma postura menos contida, mais aberta ao risco, um desvio que implicava quebrar algumas dessas regras, não por rebeldia, mas por necessidade de crescimento. A segurança deu lugar à experimentação, e o controlo começou, aos poucos, a ceder espaço ao erro. Esse movimento não surge isolado. Liga-se a uma perceção mais antiga, que remonta à infância, quando era frequentemente vista como “demasiado barulhenta”. A ideia instalou-se de forma subtil, mas persistente, moldando a forma como ocupava espaço, como falava, como se posicionava entre os outros. Durante anos, houve uma tentativa de calibrar essa presença, como se ser mais contida pudesse significar ser mais aceitável. É precisamente essa lógica que mais tarde começa a ser contrariada, já através da música e da confiança que nela encontra: “À medida que comecei a escrever a minha própria música e a encontrar confiança e alegria nisso, percebi que ocupar espaço e ser ‘barulhenta’ era uma das minhas melhores qualidades. É por isso que é tão importante para mim que as mulheres jovens usem a sua voz mais cedo. É uma força enorme.”

Vestido, BLUMARINE.

A sua ligação com uma audiência maioritariamente jovem não é acidental, nem se explica apenas pela estética ou pelo género musical. Há, antes, uma afinidade mais difusa, quase intuitiva, com a forma como a geração Z consome e interpreta música. Mais do que categorias rígidas, o que parece estar em causa é a procura de uma sensação, de um estado emocional que não precisa de encaixar numa definição prévia. Nesse sentido, a relação com a Gen Z reflete também muito daquilo que atravessa o seu próprio percurso: a recusa de caixas fixas, a fluidez entre referências, a liberdade de construir uma identidade artística sem obedecer a um único código. A música deixa de ser um território delimitado por géneros e passa a ser um espaço mais aberto, onde diferentes influências coexistem sem hierarquia. As redes sociais tiveram um papel importante nesse encontro, funcionando como ponto de contacto direto entre artista e público. Foi através delas que começou a partilhar o seu trabalho e a criar uma comunidade à sua volta, sem intermediários. Essa proximidade representa também uma forma de autonomia, a possibilidade de falar na primeira pessoa, de controlar a própria narrativa: “Acho que é uma ferramenta importante para poder falar diretamente com o meu público. Comecei por publicar nas redes sociais e ligar-me aos fãs dessa forma. Ter essa linha direta de comunicação, especialmente enquanto jovem artista feminina, é uma verdadeira dádiva. Ninguém fala por mim. Eu falo por mim própria e sempre falei. Isso é um poder que as artistas femininas não tinham, nem sequer há uma década. Dito isto, demasiado de qualquer coisa é mau.”

Visualmente, o seu universo remete muitas vezes para outras épocas com orquestras, silhuetas vintage, clubes de jazz envoltos em fumo, mas essa aproximação ao passado não nasce de um desejo de regressar a ele. Pelo contrário, há uma consciência muito clara de que essa referência é sobretudo estética e sensorial, mais do que propriamente nostálgica. Embora encontre inspiração em diferentes períodos, não existe uma vontade de os habitar. O presente surge, aliás, como o único tempo possível para aquilo que faz. Há uma liberdade, seja de identidade, de expressão ou de escolha, que reconhece como profundamente contemporânea. A possibilidade de ser múltipla, de se reinventar de dia para dia, de cruzar códigos visuais e sonoros sem necessidade de coerência rígida é algo que associa diretamente ao agora.

Vestido, J’AMEMME.

Fora da música, a inspiração de Laufey parece surgir menos de narrativas fechadas e mais da observação direta do que acontece à sua volta. Os museus ocupam um lugar central nesse processo, não apenas pelas obras expostas, mas pelo que se desenrola entre elas: “Sinto-me muito inspirada por museus de arte. Não encontro apenas histórias nas obras, mas também nas pessoas que as visitam. Algumas estão apaixonadas, outras são famílias a atravessar momentos de tensão depois de um dia inteiro juntas. Há tantas histórias sob o mesmo teto.” É nesse espaço de observação que o quotidiano ganha densidade narrativa, como se cada gesto, cada interação, pudesse transformar-se em matéria para escrever. A inspiração surge tanto daquilo que é exibido como daquilo que é vivido à margem. A dança, e em particular o ballet, acrescenta outra camada a esse universo. “Sempre me inspirei no ballet. A inspiração para o cenário da digressão A Matter of Time veio em grande parte de ver Cinderella, do Royal Ballet.”

Ao imaginar o próximo capítulo, Laufey não o pensa como uma rutura total com o que já construiu, mas como um desvio subtil de método. Há sempre um grau de planeamento que sustenta o seu trabalho, uma estrutura que organiza ideias e intenções, mas a vontade, agora, parece ser a de abrir mais espaço à curiosidade. Deixar que novas histórias e novos sons surjam sem um controlo excessivo, quase como um regresso a essa intuição que tantas vezes orientou as suas decisões mais certeiras. Entre o coração e a razão, entre o passado e o presente, entre a estrutura e a liberdade, Laufey continua a habitar um espaço intermédio, o mesmo onde tudo começou, mas já não com a mesma incerteza. Hoje, esse lugar ganhou forma. Não é geográfico nem fixo, foi-se construindo nas ligações que criou ao longo do caminho, na comunidade que a acompanha e que cresce com a sua música, quase como uma extensão natural desse território que, durante tanto tempo, parecia indefinido.

Originalmente publicado no The Heart & Reason Issue, a edição de maio de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.

Direção criativa e fotografiaÉlio Nogueira
StylingLoizos Sofokleous
EntrevistaBeatriz Fradoca
Beatriz Fradoca By Beatriz Fradoca
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