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Entrevistas 6. 2. 2019

Julie Pelipas explica porque é que estilo e sustentabilidade são compatíveis

by Rui Matos

 

Julie Pelipas sabe as regras do jogo da Moda e prefere uma abordagem consciente. Conversámos com ela sobre esta forma de estar.  

© ImaxTree

Quem é Julie Pelipas? O que tem de especial esta mulher, com uma silhueta esguia, para nos fazer querer enfiar no primeiro fato oversized? Para os mais distraídos, Pelipas é diretora de Moda da Vogue Ucrânica, figura incontornável nas galerias de street style e principalmente alguém absolutamente consciente do estado do planeta. Foi em Madrid, no salão de chá do hotel Heritage, a propósito do lançamento da nova coleção da Mango, que nos sentámos com ela para conversar sobre estilo e sustentabilidade.

Recentemente anunciou que é a nova embaixadora da fundação No More Plastic, quando é que se apercebeu dos efeitos da ação humana nos oceanos?
Percebi que temos estes problemas há muito tempo, quando há uns anos atrás comecei a fazer mergulho livre. Sabes, a coisa mais fascinante quando mergulhas é observar o oceano, os peixes, os corais. Quando fazes isto frequentemente começas a ver as pequenas diferenças que estão a acontecer nos oceanos. Há um ano, por exemplo, vias cores fortes e paisagens formidáveis. Essa riqueza está a morrer aos poucos e não precisas de estudos científicos ou de estatísticas, tu testemunhas essas mudanças com os teus próprios olhos. Vais-te apercebendo que estamos em perigo e as mudanças climáticas são o que merecemos como resultado das nossas más ações.  

Como é que tem procurado fazer a diferença?
Antes de me tornar embaixadora da No More Plastic Foundation já tinha uma consciência mais sustentável. Fazia coisas simples como qualquer ser humano consciente devia fazer: limpar a praia, não usar plásticos e ensinar os meus filhos que cada pequena ação é importante para a Natureza. São pequenas coisas como estas que fazem a diferença. Quando me perguntam se acho que, com estas pequenas coisas, vou conseguir fazer a diferença, respondo sempre que sim. Vejo como consegui mudar os hábitos dos meus amigos e como isso afetou tudo aquilo que me rodeia. São coisas pequenas, mas que fazem mesmo a diferença. 

Numa entrevista disse que tenta seguir o mantra de Vivienne Westwood: “não comprar muito, escolher bem e fazer com que as peças durem." Como diretora de Moda, a Julie vê imensas peças e novas tendências, é difícil construir o seu guarda-roupa?
O meu guarda-roupa é muito prático. Nos últimos cinco anos deixei de comprar tudo aquilo que queria e comecei a investir em dois tipos de coisas: primeiro aquilo que realmente preciso e segundo peças sofisticadas, vintage e couture. Invisto muito dinheiro em roupa e espero que a minha filha [um dia] a use. Estas são as coisas que hoje em dia compro, deixei de comprar coisas emocionais, trendy e aquelas peças que ia vendo no Instagram. Parei com isso e não foi difícil de o fazer. Esta é também a filosofia que tento trazer para as minhas páginas de Moda na Vogue e para as minhas plataformas. É muito frequente verem-me com o mesmo look, não tenho qualquer problema com isso. Tenho orgulho de me manter fiel aos meus statements. 

 

 
 
 
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Como mãe tentar adotar essa filosofia quando precisa de comprar roupa para os seus filhos, ou acha isso uma tarefa mais difícil?
Para os meus filhos? É muito fácil, é ainda mais fácil. Vou-te contar uma história. A minha filha mais velha nasceu em Bali, e na ilha existe uma comunidade de mulheres que vão para lá para dar à luz, e nessa comunidade há um tradição muito bonita. Cada nova mãe que lá chega para ter uma criança recebe como prenda as roupas antigas das outras crianças - porque crescem tão rápido que acabas por não precisar dessas roupas. Eu recebi cinco caixas enormes cheias de roupa. Acabei por comprar apenas o básico. Isto foi há oito anos, hoje percebo que é ainda mais fácil ser sustentável no que diz respeito ao guarda-roupa dos meus filhos. As crianças crescem muito rápido. Tens amigos e família a quem podes pedir a roupa antiga dos filhos deles. Quando vejo algumas mães a tentarem pôr os filhos todos trendy e super fashionable - ok, é a escolha delas - mas para mim isso é impensável.

Como é que estabeleceu a sua identidade de estilo?
Aconteceu de uma forma bastante orgânica. No início fazia muitas experiências, acabei por embarcar no jogo das tendências, mas rapidamente apercebi-me que não me sentia confortável. Não era eu mesma com aqueles coordenados. Foi em 2013 que percebi que os fatos masculinos eram a melhor opção para mim. Sou muito alta e um bocado masculina - mesmo na minha vida - e um fato é a melhor opção para mim, sinto-me muito confortável. Hoje são uma grande tendências e espero que assim continue. 

Quando é que percebe que precisa de comprar roupa nova?
É uma pergunta complicada, porque nos últimos dois anos acho que não tenho comprado muita coisa, apenas aquilo de que estou urgentemente a precisar e são quase sempre coisas básicas, como ténis e fatos pretos. A Moda, em primeiro lugar, é um jogo muito bonito e quando sinto que preciso de comprar algo novo é quase sempre uma peça sofisticada, irrealista ou então é porque vi um vestido mesmo bonito e aí vou mesmo comprar. Mas, de forma geral, não vou muito às compras. I don’t do shopping.

© ImaxTree 

Como é que a Moda aconteceu?
Simplesmente aconteceu. Terminei a minha licenciatura em jornalismo, trabalhei em televisão durante algum tempo, transitei para o jornalismo, depois fui editora e a Moda aconteceu de uma forma muito orgânica, assim como os shootings. Durante quatro anos fotografava [como stylist] apenas pela diversão. Era amiga do John Casablancas que tinha uma agência de modelos e uma vez estava fazer um test shooting com algumas modelos e ele veio a Kiev e viu as minhas fotografias e disse que devia continuar. Foi o primeiro a ver o meu trabalho e a dizer-me para investir nesta carreira e eu pensei “ok, talvez ele tenha razão.” I mean, ele descobriu a Cindy Crawford e todas as grandes modelos, ele tem olho para a coisa. Foi tudo muito rápido  estive na Harper’s Bazaar, na Sanoma e depois a Vogue - nunca fui assistente de ninguém, comecei logo a fotografar e isso foi a melhor escola de sempre. 

Tem algum fashion mantra?
Já li muitas biografias, como a da Grace Coddington e a da Carine Roitfeld, porque quando entrei para a família Vogue queria perceber e saber mais sobre este universo. Mas não tenho nenhum mantra ou uma grande inspiração. Se tiver que dizer um nome, talvez Diana Vreeland pelo facto de ter sido uma grande revolucionária e de ter uma alma muito rebelde, que é aquilo que me aproxima muito dela.

Desta coleção da Mango qual é, para si, o melhor investimento?
Posso parecer aborrecida, mas é a linha Commited. É sustentável, é absolutamente linda, é a mais stylish e intemporal. É o melhor investimento. 

 
 
 
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