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Entrevistas 13. 7. 2020

Jonathan Anderson: “Às vezes as coisas mais pequenas são a revolução”

by Rosalind Jana

 

Numa entrevista exclusiva, o designer britânico e diretor criativo da Loewe, reflete sobre se o futuro da Moda é mesmo digital e conta como é comandar a marca espanhola a partir de uma mesa de cozinha e ainda fala do famoso cardigan de Harry Styles.

Jonathan Anderson © Cortesia Loewe

Os calendários tradicionais da indústria da Moda foram cancelados e as apresentações digitais são agora a nova norma. Os últimos meses exigiram abordagens inovadoras para a confecção e exibição das peças de roupa. Algo que parece não ser um problema para diretor criativo da Loewe, Jonathan Anderson. Antes pelo contrário, o criador parece estar a gostar do desafio. 

Com o lançamento dos eventos que Anderson preparou para a linha masculina e a pré-coleção feminina da Loewe, o criador conversou com a Vogue. 

Qual foi o maior desafio ao criar esta nova coleção Loewe?

As duas coleções - J.W. Anderson e Loewe - foram concebidas em minha casa ao computador. Foi há várias semanas que fotografamos tudo, quando as regras mudaram. De uma maneira estranha, tem sido a coleção mais pessoal e doméstica. Sinto que estou a trabalhar na minha cozinha há meses. Isso fez-me ser mais empreendedor e criativo, onde as limitações são importantes.

Além da apresentação virtual, está a enviar um show-in-a-box. Como é que traduziu a fiscalidade de um desfile para esse formato?

Fiquei muito inspirado ao ver as pessoas a fazerem coisas, ao jogarem jogos de tabuleiro em casa, estar com a família e amigos ou até mesmo ficar sozinho. Passei muito tempo sozinho em casa e comecei a fazer maquetes e a trabalhar com as minhas mãos para encontrar soluções. A finalidade desta caixa é oferecer ao espectador algo para fazer com o tempo livre. Podes ou não abrir a caixa. Não é nada forçado.  

Existe um futuro no qual a Moda pode ser completamente digital ou a experiência pessoal será sempre vital?

A certa altura, a ideia de que os desfiles iriam desaparecer começou a propagar-se, mas essa ideia transformou-se no inverso. As marcas tornaram-se máquinas de conteúdo. Não sei. Gostava que fosse tudo mais pessoal. Neste momento, posso falar diretamente com os consumidores. Tem sido muito empoderador ouvir sobre os problemas do produto, aquilo que as pessoas querem e trabalhar com as redes sociais para envolver todos no processo. Eu adorava produzir mais caixas do show-in-a-box, mas o que posso fazer é disponibilizar tudo online.

Como foi estar por trás do momento viral no TikTok que aconteceu depois do Harry Styles surgir com um cardigan da sua marca homónima, J.W. Anderson?

Foi muito reconfortante ver os fãs a tentaram recriar o cardigan. Provavelmente não é por ser uma peça J.W. Anderson, mas sim por ser o Harry Styles. Mas pensei: ‘Ok, sinto que tenho a obrigação de partilhar esse padrão - devia oferecê-lo. Foi muito engraçado ver os miúdos a tricotarem uma sweatshirt ou até mesmo fazerem roupa para gatos. Esse são os aspetos positivos que surgem desta sinergia estranha. 

 
 
 
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O Jonathan é muito enfático sobre celebrar todas as formas de artesanato através do luxo. Isso intensificou-se durante a pandemia?

O luxo é tipo uma caixa de Pandora. Estamos num momento em que há muito acerto de contas. Sinto que a Loewe tem uma responsabilidade cultural de garantir que mantemos o artesanato de pele em Espanha e que aumentamos o seu desenvolvimento. Há valor nisso. O luxo tem um longo caminho a percorrer, como todos os setores. Mas é importante, como empregador, manter essas habilidades em andamento. Durante a pandemia eu e o Pascale Lepoivre, CEO, tivemos que trabalhar todas as noites para garantir que estamos a ser o mais responsáveis possíveis em manter o talento. A prioridade número um para mim, é fazer todos os possíveis para proteger os empregos.

"Na Moda queremos sempre uma revolução, mas às vezes as coisas mais pequenas são a revolução."

Como acha que a indústria respondeu à mudança?

Devido à situação global, é uma questão de fazer o que é certo para a tua marca. Não se trata de competir. Não importa o grupo ou a marca, é um momento para te orgulhares de poderes fazer uma coleção e mostrá-la, independentemente do formato. O que o futuro trará? Quem sabe? Isto é trabalhar em tempo real. Sim, trata-se de uma coleção que vai ser lançada no futuro, mas também a podes saborear agora. Na Moda queremos sempre uma revolução, mas às vezes as coisas mais pequenas são a revolução. Existem outros problemas que precisam de ser enfrentados agora: diversidade, igualdade, o meio ambiente. É hora da Moda ficar quieta e trabalhar qual é o melhor método para o futuro. Isso não significa que precisas de reinventar o calendário de desfiles amanhã. Pode ser um processo mais longo. 

A Moda deveria libertar-se finalmente da sua obsessão pelo novo e por querer ser sempre atual? E quanto à nostalgia, é algo com que devemos ter cuidado?

Há coisas a serem aprendidas com a história e isso não significa que precisamos de continuar com elas. A Moda passou por este momento pós-moderno que aconteceu também na arte. E agora, toda a criatividade chegou a uma parede de tijolos. A nossa única oportunidade é passar por cima disso. Mas para fazê-lo, precisas de deixar coisas para trás. Eu gosto de uma boa luta. Eu trabalhar melhor sob pressão, porque isso me faz sentir vivo.

 

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