Lifestyle   Opinião  

Ir de férias com amigas é mágico, mas também incrivelmente frustrante

04 Aug 2026
By Francesca Faccani

Siobahn Filliettaz, Biliny Manyang, Illona Ombissa e Taiyo Nishikawa fotografados por Kapturing, com styling de Camilo Rodriguez, para a edição The Big Book of Trends da Vogue Portugal, publicada em setembro de 2024.

Entre conversas descontraídas e copos de vinho à beira mar, quando vamos de férias com amigos, há sempre o risco de se discutir e de os problemas se arrastarem até ao regresso. Mas também há uma forma de evitar que isso aconteça.

É o momento mais esperado do regresso, talvez até o único momento verdadeiramente feliz do melancólico final de agosto: aquele em que, ao pequeno-almoço com as amigas se conta, ao pormenor, como correram as férias, onde se esteve, com quem e o que se viu, guardando zelosamente os detalhes mais picantes para o final. Claro, uma grande parte é dedicada aos amores de verão, prestando atenção extra àquela amiga que não consegue ser concisa nem mesmo quando se trata de descrever algo que, no fim de contas, durou apenas umas duas horas.

Chega então o relato mais delicado e mais doloroso, mas, à sua maneira, também o mais divertido: aquele que reúne as discussões e os silêncios que ocorreram durante as férias entre amigas, revelando a superficialidade do que se pensava saber sobre as pessoas com quem se foi, a incompatibilidade dos desejos de férias (talvez alguém ficar fora a noite toda e conhecer pessoas, enquanto outros querem ficar em casa a conversar com um copo de vinho) ou simplesmente a impaciência de passar 24 horas numa relação simbiótica com as mesmas pessoas.

A última temporada de The White Lotus ilustra isso na perfeição, com três amigas de longa data que, aos 40 anos, decidem passar férias juntas. Passado um dia, começam a falar mal umas das outras pelas costas e já não se suportam mais.

The White Lotus
Cortesia HBO

Vicky Cristina Barcelona (2008)
Cortesia Everett

Foi durante umas férias com uma amiga que, neste verão, conheci Ali, de 31 anos, que trabalha em Londres e estava muito feliz por ir passar uns dias em Marselha. Vai ficar sozinha nos primeiros dois dias a passear pela cidade, as suas duas amigas vão juntar-se a ela mais tarde. A primeira é uma colega de trabalho com quem se sente particularmente em sintonia, enquanto a segunda conhece há pouco tempo e diz-me, assim que nos encontramos, que tem muito medo de que os seus sonhos e desejos para as férias não coincidam. “Tenho medo que ela queira jantar fora e depois voltar logo para casa”, conta-me, enquanto ela, que acabou de ser deixada após um namoro de um ano, só quer ficar fora a noite toda, conhecer pessoas novas e divertir-se. Na verdade, quando a conheceu, também Ali tinha planeado visitar a cidade com calma e terminar o dia a saborear um copo de vinho ao pôr-do-sol, rodeada das confidências das amigas.

Existem dois cenários que apresentam uma rapariga que decide ir de férias com as amigas: no primeiro, são amigas de sempre, que se conhecem há uma vida ou há várias vidas, e têm a certeza de que, de alguma forma, tudo vai correr bem. As mulheres em questão esperam as mesmas coisas das férias.

No segundo cenário, a decisão de ir de férias com uma amiga apanha uma das partes um pouco de surpresa: é a consequência direta de um vazio temporário em agosto, deixado por um namorado que a deixou e que tentará preencher a todo o custo, ou simplesmente um vazio que percebeu ter na agenda porque se esqueceu de organizar algo para as férias, vazio esse que decidirá, então, à última da hora, preencher na companhia de uma nova amiga com a agenda livre.

The Sisterhood Of The Traveling Pants 2 (2008)
©Warner Bros/Cortesia Everett Collection

Spring Breakers (2012)
©Annapurna Pictures/Cortesia Everett Collection

O que é uma amiga senão uma pessoa com quem partilhar os desconfortos, os horrores e as desgraças da vida? E que tipo de amizade é essa se esses desconfortos, horrores e desgraças não acontecem também quando estão juntas? Nenhum dos dois cenários está a salvo dos perigos em que umas férias podem transformar-se.

Rebecca, de 21 anos, conta-me que passou uma semana de férias na Grécia com as suas quatro melhores amigas de sempre. Conhecem-se desde a escola primária e passam todas as férias juntas de forma muito agradável. No entanto, este ano, no final da semana, uma das amigas fez uma cena porque se sentia excluída das suas conversas. Tinha ficado noiva durante o ano e achava irritantes as amigas que só falavam de namoricos e aventuras, numa cena que se assemelhava à que a Miranda fez às amigas em Sexo e a Cidade: “Porque é que falam sempre e só de homens?”.

De volta à cidade, no final das férias, encontraram-se para discutir o assunto. No passado, já tinham discutido durante uma viagem, talvez por causa dos jantares fora em excesso, porque uma delas escolhia o quarto mais bonito do que as outras, ou pela limpeza do apartamento, mas desta vez Rebecca e as amigas não conseguiram encontrar uma solução e, por essa razão, decidiram colocar a sua amizade em pausa, pelo menos até que alguém pedisse desculpa.

Ir com apenas uma amiga, que talvez nem se conhece assim tão bem, é um detonador de sentimentos: pode ser a experiência que aproxima duas pessoas para sempre, mas também aquela que as afasta tragicamente.

Ir com apenas uma amiga, que talvez nem se conhece assim tão bem, é um detonador de sentimentos: pode ser a experiência que aproxima duas pessoas para sempre, mas também aquela que as afasta tragicamente. No passado, já me aconteceu partir para Barcelona com uma amiga querida que tinha decidido marcar alguns encontros pelo Tinder enquanto lá estávamos juntas. O The Guardian, que no ano passado elaborou uma lista de motivos pelos quais os amigos podem discutir nas férias e como resolvê-los, incluiu alguns conselhos sobre como lidar com amigos que encontram um namorado de verão. "Se partilhar o quarto com um amigo, faz sentido que nenhum de vocês leve alguém para casa. Tudo o resto é uma questão a negociar. É melhor discutir isso antes das férias do que durante uma saída à noite. Não pode impedir que um amigo vá para a cama com alguém, mas pode tomar medidas de precaução".

Lembro-me de me ter sentido mal naqueles momentos em que fui deixada sozinha numa cidade que não conhecia para que ela fosse a um encontro. Sentia-me exatamente como uma das duas protagonistas do filme de Woody Allen, Vicky Cristina Barcelona, que, em silêncio, testemunha o namoro espanhol da sua melhor amiga. No final das férias, conversámos sobre isso e, há três anos que passamos todas as férias juntas. Somos eu e ela, sem Tinder. Este ano, tive uma desventura bastante semelhante com outra amiga, que logo no primeiro dia se apaixonou perdidamente por um rapaz: mas como é que alguém se pode intrometer nos primeiros dias mágicos de uma linda história de amor que está a nascer só porque uma das partes é uma amiga que tinha prometido passar tempo connosco? Não se faz, encontra-se outras coisas (ou pessoas) que ocupem o tempo.

Thelma & Louise (1991)
Getty Images

The White Lotus
HBO

Imagino que seja mais fácil para os rapazes. Não têm de viver aquela dinâmica simbiótica feminina que, muitas vezes, é também uma resposta ao facto de, numa cidade diferente, nos sentirmos pouco seguras. De facto, Marco, de 28 anos, conta-me que é muito frequente os seus amigos combinarem uma hora e um local para se encontrarem e depois separarem-se por algumas horas.

É uma tentativa que Caterina, de 27 anos, também fez este ano, sendo que dá sempre muita importância ao tempo que passa sozinha. “De vez em quando, dizia à minha amiga que voltaria daqui a duas horinhas e ia dar um passeio sozinha. É necessário que haja algum tempo a sós para nos sentirmos bem com outra pessoa, seja um namorado ou um amigo”, diz-me durante o jantar, enquanto contamos ao pormenor como correram as nossas férias.

Se a beleza de uma viagem reside em explorar lugares desconhecidos e completamente novos, então também temos de gostar de nos aventurar nas complexidades da pessoa com quem decidimos ir de férias. O importante é esclarecer sonhos e esperanças antes da partida. Tudo o resto é uma surpresa deliciosa.

Traduzido do original, disponível aqui

Francesca Faccani By Francesca Faccani

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