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Curiosidades 18. 3. 2019

Oito invenções que mudaram a história da Moda

by Mónica Bozinoski

 

Do little black dress de Coco Chanel à minissaia de Mary Quant, estas são as invenções que desafiaram as normas, criaram novas regras e mudaram o rumo da Moda para sempre.

Twiggy em King's Road, Londres, 1966 ©Stan Meagher/Express/Getty Images 

Fútil, oca, frívola, vazia, inútil, insignificante. Que atire a primeira pedra quem nunca ouviu um destes adjetivos (ou todos, na verdade) serem usados para descrever essa “coisa” que é a Moda. Sempre que uma Andy tenta que uma Emily entenda que existem “coisas” mais “importantes” do que dois cintos “exatamente iguais”, somos levadas ao momento de O Diabo Veste Prada em que dois cintos “exatamente iguais” materializam o ponto onde queremos chegar: essa “coisa” que é a Moda não nos deve nada, mas nós devemos-lhe (quase) tudo.

O little black dress

Leilão de peças de Coco Chanel, 1978 ©Bettmann/Getty Images

A imagem é de 1961. Breakfast at Tiffany’s, Holly Golightly e o vestido que se transformou na arma secreta de todas as mulheres, para todas as ocasiões. A popularidade do mesmo, contudo, deu-se anos antes de Hubert de Givenchy traçar as linhas do estilo imortal que associamos a uma das personagens igualmente imortais de Audrey Hepburn.

“Uma espécie de uniforme para todas as mulheres de bom gosto” – as palavras são da Vogue americana de outubro de 1926 onde, pela primeira vez, se vislumbrou o desenho simples. Preto, em crepe de seda, as mangas longas e os acessórios perlados. Chamaram-lhe o Chanel’s Ford, numa referência ao modelo automobilístico criado por Henry Ford em 1908. Era simples, acessível e democrático. Era o little black dress, o LBD, o fiel companheiro que, quase 100 anos depois, permanece intacto em todos os guarda-roupas femininos.

Para além de ter reinventado “a cor do luto”, como escreve Harriet Hall em She: A Celebration of Renegade Women, a simplicidade aparente do little black dress criado e popularizado por Coco Chanel ajudou a redefinir aquilo que uma mulher devia e podia usar, transformando-se num símbolo de libertação e modernização.

Atrevemo-nos a dizer que, desde então, nenhum vestido representou, de uma forma tão certeira, a evolução do papel e da imagem da mulher na sociedade moderna: do revenge dress da Princesa Diana ao safety-pin com assinatura Versace de Elizabeth Hurley, a magia do little black dress está na sua qualidade de tela em branco e no modo como se conseguiu adaptar às mudanças sociopolíticas das gerações que atravessou. “Para mim, desenhar um little black dress é tentar expressar, num objeto simples e banal, uma grande complexidade sobre as mulheres, a estética e o tempo em que vivemos”, resumiu Miuccia Prada a André Leon Talley. Não diríamos melhor.

As calças

Helen Hullick, 1938 ©Andrew H. Arnott/Getty Images

É difícil imaginar um mundo em que as mulheres eram presas por usar um par de calças – mas foi precisamente isso que aconteceu na Los Angeles de 1938, quando a professora primária Helen Hulick vestiu slacks para testemunhar contra dois suspeitos de um roubo, recusando-se a aceitar o pedido do tribunal de usar um coordenado mais apropriado. Por outras palavras, e nas palavras do próprio tribunal, um coordenado que não fosse uma distração. “Podem dizer ao juiz que vou continuar a defender os meus direitos”, disse Hulick, citada à data pelo Los Angeles Times. “Se ele me ordenar a trocar para um vestido, não o vou fazer. Gosto de usar calças. São confortáveis.”

Já nos anos 70, a socialite Nan Kempner foi impedida de entrar no restaurante La Côte Basque, em Nova Iorque. O motivo era tão óbvio como inacreditável, e dava pelo nome de Le Smoking de Yves Saint Laurent – mais precisamente, as calças que compunham o fato. Em vez de virar costas, Kempner despiu-as e transformou o blazer numa espécie de tuxedo dress. Conseguiu entrar no restaurante, porque tudo era aceitável – tudo menos a imagem de uma mulher de calças.

No decorrer da mesma década, e à medida que as mulheres punham de parte estilos que objetivassem o género feminino, as calças palazzo começam a ganhar um novo fôlego. Nascidas da rejeição das normas patriarcais, transformam-se num símbolo de poder, igualdade e liberdade: mas a luta estava, e está, longe de ganha. Nos EUA, até aos anos 90, uma “lei não escrita” ditava que as mulheres não podiam usar calças no Senado. Tudo mudou quando, em 1993, Carol Moseley Braun, Barbara Mikulski e Nancy Kassebaum “vestiram as calças” e desafiaram as regras arcaicas.

“Ela [senadora Barbara Mikulski] lutou por nós muito antes de termos chegado ao Senado, entrou nas salas onde as mulheres não eram bem-vindas, e fez questão de segurar a porta para que outras mulheres pudessem entrar”, defendeu a senadora Patty Murray, citada pelo The Washington Post. “Todas as mulheres no Senado, e noutras posições pelo país fora, devem-lhe algo que nunca poderá ser retribuído.”

Hoje, o termo “vestir as calças” continua a ser usado de forma pejorativa, pelo menos quando dirigido a alguém do género feminino. Sinónimo de uma mulher arrogante e difícil, basta olhar para o número de vezes em que foi referido durante a campanha de Hillary Clinton. Mas guess what? Planeamos continuar a vestir-nos como mulheres “arrogantes e difíceis” que somos.

O biquíni

Micheline Bernardini, 1946 ©Bettmann/Getty Images

O ano? 1946. A estação? Quente, naturalmente. O cenário? Paris, pós-Segunda Guerra Mundial. O nome? Louis Réard, engenheiro, designer e inventor do “fato de banho mais pequeno que o fato de banho mais pequeno do mundo” – tão pequeno que cabia numa caixa de fósforos. Mas vamos por partes. Back in the day, e antes de o “fato de banho mais pequeno que o fato de banho mais pequeno do mundo” existir, as mulheres usavam peças de praia consideradas por muitos como mais “modestas”, que expunham uma pequena (muito pequena) parte do diafragma feminino.

Foi então que Réard reparou em algo curioso: nas praias francesas, as mulheres estavam a dobrar o material dos seus fatos de banho de duas peças, afastando-o da barriga para exibir a pele anteriormente oculta. O resto podia ser só história, mas foi o momento em que o biquíni como hoje o conhecemos foi oficialmente inventado. Considerado pelo Vaticano como um “pecado”, e proibido nas praias de países como Espanha, Itália ou Austrália, o design revolucionário proposto pelo engenheiro francês estava de tal forma à frente da sua época, que nenhuma modelo profissional o queria usar. O escândalo, contudo, acabou por encontrar alguém à altura.

No dia 5 de julho de 1946, na Piscine Molitor em Paris, a bailarina exótica Micheline Bernardini desfila o biquíni de Réard pela primeira vez, abrindo caminho para o que Jamie Samet, jornalista de Moda, descreveu como “uma espécie de segunda libertação para as mulheres”. De Brigitte Bardot em Cannes a Carrie Fisher no clássico de 1983, Return of the Jedi, o biquíni imaginado por Réard foi de escandaloso a poderoso e o seu espírito livre mudou o mundo para sempre.

O New Look de Christian Dior

New Look, de Christian Dior, 1947 ©Keystone-France/Getty Images

12 de fevereiro de 1947, Paris. Menos de dois anos depois do término da Segunda Guerra Mundial, um designer dado pelo nome de Christian Dior preparava-se para apresentar a sua primeira coleção em nome próprio. Nos salões perfumados do número 30 da Avenue Montaigne, sob as linhas Carolle e En Huit, a estreia de Dior estava prestes a mudar o espírito e a cultura de um país devastado pela Guerra, mas também de uma indústria da Moda debilitada e em recuperação do clima de conflito.

“Em dezembro de 1946, por consequência da guerra e dos uniformes, as mulheres ainda se pareciam e vestiam como Amazonas”, escreveu Christian Dior na sua autobiografia, citado num artigo do The Washington Post. “Mas eu desenhava roupa para mulheres que eram quase como flores, com ombros arredondados, bustos totalmente femininos, e cinturas torcidas à mão por cima de saias que se abriam de forma grandiosa.”

Naquela manhã de fevereiro, como defendeu Laurence Benaïm, autora de diversas obras sobre o designer e o seu legado, ao The Washington Post, Christian Dior “criou um espaço de beleza” e “reinventou o gosto da sedução” com aquele que é, provavelmente, um dos momentos mais citados pelos manuais de História, o New Look – um nome amplamente acarinhado graças à reação de Carmel Snow, na altura chefe de redação da Harper’s Bazaar, aos 90 coordenados propostos pelo couturier.

“É uma revolução, meu querido Christian! Os teus vestidos têm um ar tão new look!”, proferiu Snow sobre a coleção que, numa altura em que as restrições do pós-guerra ainda se faziam sentir, se atreveu a costurar a fantasia, o sonho, a feminilidade e a sensualidade. Epitomado pelo tailleur Bar, um coordenado composto por uma jaqueta em shantung creme que acompanha as curvas do busto, abrindo caminho a uma saia plissada preta, majestosa na sua simplicidade, o New Look de Christian Dior foi, como o próprio descreveu anos mais tarde, “o regresso ao ideal de felicidade civilizada”.

A minissaia

Mary Quant, 1967 ©Keystone-France/Getty Images

As bainhas subiram-se, os olhos arregalaram-se e as mulheres ganharam um novo símbolo de libertação. Se há quem diga que foi André Courrèges que dobrou aquele primeiro pedaço de tecido que viria a revolucionar o guarda-roupa feminino, há também quem defenda que foi graças a Mary Quant que, na década de 60 e para sempre desde então, o impacto da minissaia se fez sentir de uma forma tão significativa. “Se calhar o Courrèges até criou a minissaia primeiro, mas se de facto o fez, ninguém a usava”, escreveu a criadora britânica, num artigo do The Telegraph. Citada pela Vogue americana, Quant terá ido mais longe e afirmado que “foram as raparigas no King’s Road”, onde se situava a sua famosa boutique Bazaar, “que inventaram a minissaia”.

De Londres para o mundo, e com alguns detratores pelo caminho – Coco Chanel não só a apelidou de “simplesmente horrível”, como questionou se toda a gente estava louca, e “os homens de negócios”, nas palavras de Mary Quant, davam-lhe alcunhas como “obscena” e “nojenta” –, a minissaia não demorou a transformar-se em mais do que um simples pedaço de tecido. Numa altura em que as mulheres ganhavam uma nova consciência da sua sexualidade, em grande parte graças à introdução da pílula contracetiva, a minissaia foi um verdadeiro statement político: em 1966, quando a Dior decidiu que não havia lugar na passerelle para bainhas subidas, o grupo de mulheres British Society of the Protection of Mini Skirts protestou contra o tratamento “injusto” dado à peça com cartazes onde se lia “as minissaias são para sempre”.

Usada por feministas como Germaine Greer ou Gloria Steinem, a minissaia foi vista como uma forma de redefinir o papel tradicional da mulher. “Era o sinal de uma nova atitude para aquelas que a vestiam”, explicou Rebecca Arnold, professora no Courtauld Institute of Art, ao Evening Standard. “Simbolizava que os tempos estavam a mudar e que as mulheres eram ativas e visíveis.”

O wrap dress

Andy Warhol e Diane von Fürstenberg ©Tim Boxer/Getty Images

Corria o ano 1974. O cenário era Nova Iorque. Algures entre a Park Avenue e o Studio 54, e quase 15 anos depois da minissaia de Mary Quant ter revolucionado uma geração de jovens mulheres, um novo ícone de libertação feminina começava a ser construído pelas mãos de uma designer belga.

A ideia era simples: juntar um wrap top e uma saia numa única peça em jersey estampado, numa espécie de reinterpretação easy breezy do design clássico de um quimono. A ideia era simples mas aquilo que Diane von Fürstenberg estava longe de adivinhar era o impacto que o seu wrap dress, frequentemente visto como um símbolo de emancipação feminina, teria em todas nós.

Numa década em que as mulheres começavam a percorrer os corredores dos escritórios anteriormente reservados aos homens, e a proclamar a sua independência profissional, financeira e sexual, o vestido criado por Von Fürstenberg celebrava a silhueta e sensualidade femininas, sem nunca comprometer o seu estatuto de women who means business. “O wrap dress fazia com que as mulheres se sentissem como se queriam sentir... livres e sensuais”, disse a criadora ao The Independent.

“Para além disso, tinha o seu lugar na revolução sexual: uma mulher que escolhia a possibilidade de o poder despir em menos de um minuto!” Não é por mero acaso que o wrap dress foi descrito por Diana Vreeland, na altura diretora da Vogue americana, como “smashing” – da mesma forma que não é por mero acaso que, 45 anos depois da sua criação, continua a ser um dos vestidos mais democráticos, inclusivos e intemporais da indústria da Moda.

O power suit

Bianca Jagger ©Ron Galella/Getty Images

Aquela que é a mais bonita de todas as histórias (pedimos desculpa pela imparcialidade) começou a ser escrita nos anos 20, com a linha e a agulha de Coco Chanel. Quarenta anos depois, mais precisamente em 1966, Yves Saint Laurent abre um novo capítulo de desconstrução com o seu icónico Le Smoking. Tudo isto contribuiu para o livro que o tempo foi escrevendo, mas foi com a chegada dos anos 80 que a história do power suit orquestrou um dos seus mais importantes capítulos.

“Na altura, vestir um fato era o expectável se quisesses ser levada a sério como mulher de negócios, mas as mulheres ainda eram muito criticadas por tentaram imitar os homens, porque era um derivado do guarda-roupa masculino”, explicou Shira Tarrant, professora e autora de Fashion Talks: Undressing the Power of Style, à Vice. Do tecido executivo à sétima arte – obrigada Melanie Griffith e Diane Keaton –, e numa altura em que as mulheres continuavam a tentar redefinir o seu papel na sociedade, os fatos que nem sempre assentavam propriamente bem, com os seus ombros desmedidos, as suas linhas rígidas e a sua falta de consideração pelos contornos femininos, eram uma forma de igualar géneros no mesmo patamar.

Giorgio Armani e Donna Karan contribuíram, em grande parte, para a revolução que continua em marcha: transformar o power suit não num “derivado do guarda-roupa masculino”, mas numa segunda natureza feminina. “Quando trabalhava na Anne Klein nos anos 70, as mulheres usavam casacos, gravatas e camisas – vestiam-se como os homens”, disse em tempos Karan. “Onde é que estava a sensualidade da mulher? Acho que ninguém percebia quão alucinantes eram as nossas vidas. Aqueles fatos estavam a fazer-nos ficar para trás.”

Hoje, e graças a uma série de mulheres que lutaram, através do seu guarda-roupa (e não só), para quebrar ideias preconcebidas de género, poder e feminilidade, sem esquecer a mão-cheia de designers que encheram as suas passerelles com as mais diversas versões do mesmo, o power suit é o que quisermos que ele seja. Pode ser oversized e monocromático, pode ser fluido e desafiar as normas da cor, pode ser cintado e gritar I Am Woman – pode ser tudo isto e muito mais, mas sempre na certeza de que é tanto dos homens como nosso.

O punk de Vivienne Westwood

Desfile primavera/verão 2010 de Vivienne Westwood ©Conde Nast Archive

“Acho que todos os ativistas se sentem motivados pela mesma coisa”, disse Vivienne Westwood à revista Dazed. “É óbvio que diferentes pessoas sentem diferentes graus de responsabilidade. Mas eu sempre senti que, se ninguém está a fazer nada, então cabe-me a mim fazê-lo.” Com pouco conformismo e muito tartan, foi precisamente isso que Westwood fez nos anos 70: considerada por muitos como a “mãe do punk”, Westwood pegou naquilo que o movimento tinha para oferecer e orquestrou uma das maiores revoluções que a indústria da Moda alguma vez viu.

Os fechos e a pele, as correntes e os safety pins, as T-shirts rasgadas e os slogans impressos, os corpetes de outros tempos e o tailoring britânico, o tartan e o tweed, o bondage e o fetiche. Todos eles, de uma forma ou de outra, popularizados graças à atitude “frack off” de Westwood, à sua recusa de aceitar a estrutura social e de classes enraizada no imaginário britânico, à sua rebelião contra as normas, os valores e os ideais das gerações que vieram antes dela. A própria terá dito que as suas coleções não eram sobre identidade sexual ou género, mas antes uma forma de “aproveitar a vida”.

Vivienne Westwood imaginou um mundo onde a Moda era mais do que um conjunto de ideias megalómanas penduradas num armário. “Depois de quatro décadas na indústria, Westwood é considerada a decana da Moda britânica: uma rebelde sem medos cuja visão única prova o poder político do vestir”, defende a jornalista Harriet Hall. E como escreveu Claire Marie Healy, editora da Dazed, “sem as ‘primeiras vezes’ de Westwood, é difícil imaginar como é que as perspetivas e os estilos não conformistas teriam sido fomentados. Westwood, que em tempos foi professora, ofereceu o manual”.

 

Artigo originalmente publicado na edição março 2019 da Vogue Portugal.

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