Beleza  

Intimidade adiada: será a abstinência a nova tendência?

26 Feb 2026
By Pureza Fleming

Naddié Kurgan fotografada por Emily Soto, com direção criativa e styling de Ana Tess para o The Memories Issue da Vogue Portugal, publicado em abril de 2024.

O sexo está em pausa. Não é castidade, não é moralidade: é uma geração que aprende a esperar, repensa o prazer e escolhe presença, reflexão e proteção antes do corpo. Entre pressão social, comparação constante e excesso de estímulos, o sexo deixa de ser simples: torna-se território de decisão, um espaço onde liberdade e autoconsciência se encontram.

No número de 3 de janeiro do Financial Times, Jo Ellison, editora do suplemento How to Spend It, que acompanha o jornal ao fim de semana, assumia, na sua rubrica Trending: “Por favor, não falem sobre a minha geração. Este ano, estou a desistir dos Millennials. Mas não levem a peito. Também estou a evitar os X’ers, os Boomers e a Gen Z. Estou farta da forma preguiçosa como se categoriza toda a gente pelo ano de nascimento. Basicamente, é apenas idadismo.” Mantendo a sua linha de raciocínio: “O ano em que nasceste não define a tua identidade. Certamente, pelo bem do progresso social, podemos inventar novas métricas para analisar o mundo.” A argumentação, sempre escrita com rigor e perspicácia, prossegue até reconhecer que “ninguém pode negar que as redes sociais, os smartphones e a tecnologia transformaram a forma como nos comportamos”. Mas Ellison continua a questionar: “Gostaria de saber onde estão todos esses jovens ‘sober curious’ que estão a evitar o álcool em favor do exercício. E onde estão os miúdos que não estão a ter sexo?”. Não me parece haver grande margem para dúvida. Esses miúdos estão fechados em casa. Estão agarrados ao TikTok ou a qualquer outra das dezenas de aplicações que preenchem ecrãs de telemóveis. Não estão, certamente, nos inúmeros bares e clubes que desaparecem à velocidade da luz. Não estão de maneira alguma a apanhar bebedeiras, nem a cometer as asneiras “típicas da idade". Não se estão a enrolar uns com os outros. Longe de querer idealizar os excessos dos anos 80 ou 90, a constatação é clara: estes miúdos simplesmente não estão a fazer sexo.

A castidade e a abstinência sexual começam a ganhar uma visibilidade inesperada entre os jovens. Dados recentes sobre a chamada “sex‐recessão” sugerem que gerações mais novas estão a adiar, ou até a abdicar, da prática sexual – não necessariamente por convicção moral, mas numa combinação complexa de escolhas pessoais, mudanças culturais e, em muitos casos, falta de desejo. Vânia Beliz, sexóloga, observa: “Acho que a questão não é propriamente castidade ou abstinência, mas falta de desejo e interesse. O sexo parece não estar no topo das prioridades e interesses dos jovens.” A liberdade sexual, que prometia autonomia e prazer, parece ter criado também uma banalização do sexo, nota Beliz. Vivemos rodeados de estímulos sexuais e discursos de liberdade que nunca foram tão intensos. Paradoxalmente, isso não aumenta o interesse; antes o dispersa. “É precisamente isso que pode levar ao desinteresse. A partir do momento em que tudo está disponível, pouco há a descobrir. Além disso, questões como o consentimento e situações de violência sexual amplamente divulgadas podem inibir alguns comportamentos. Com alguma frequência, escuto jovens que dizem que já não sabem como agir.” O foco desloca‐se para autonomia, viagens, carreira e independência financeira, enquanto relacionamentos formais e a constituição de família perdem prioridade. As relações, acrescenta Beliz, tornaram‐se mais líquidas: menos compromisso, menos expectativas rígidas, novas formas de conexão. A exposição precoce à sexualidade – através de pornografia, redes sociais e cultura visual – não elimina o desejo, mas altera profundamente a sua experiência. Beliz salienta que o sexo real torna‐se menos interessante diante de expectativas irreais e da hiperconexão digital: “Criam‐se expectativas em relação a determinadas práticas e formas de prazer que não correspondem à realidade. Além disso, a hiperconexão faz com que estejamos constantemente focados em inúmeros estímulos e interesses diferentes. O sexo, tal como o conhecíamos, está a ser vivido de outra forma.” Os jovens que consomem pornografia e conteúdos eróticos cedo demais, sem maturidade emocional para integrar a experiência, acabam por ver o desejo transformado em reação ao estímulo externo, imediato e volátil. Torna‐se mais dependente de novidade e intensidade do que de envolvimento emocional, criando uma sensação de saturação com o tempo. Observadores da cultura jovem, incluindo o Guardian US, destacam que “a vida sexual da Geração Z é marcada por isolamento pandémico, desafios políticos e liberdade ampliada, com jovens a explorar novas formas de relacionamento, desde encontros mais líquidos a conexões mediadas por tecnologia, muitas vezes adiando ou pausando o sexo”.

O fenómeno revela ainda uma dimensão social: o sexo deixou de ser apenas prazer íntimo e passou a ser performance, sujeito a comparação e expectativas externas. Beliz observa: “De certa forma, sempre foi assim, mas agora parece que recebemos ordens e pressão de todos os lados. Ter de corresponder a tantos padrões e exigências é difícil e pode tornar tudo mais frustrante e menos atrativo. Evitamos para não nos confrontarmos com a dificuldade.” O corpo torna‐se observado, avaliado e comparado, e o prazer depende cada vez mais de presença e entrega – atributos que a pressão social torna escassos. Isabel Henriques, psicóloga clínica na Mental Health Clínica, reforça que a distinção entre abstinência consciente e consequência de falta de desejo é crucial. “Há pessoas para quem a castidade ou a abstinência são uma escolha coerente, enraizada em crenças religiosas, espirituais, éticas ou filosóficas. Nesses casos, não estamos perante falta de desejo, mas perante uma decisão identitária que pode ser vivida de forma estável e sem conflito interno. Noutras situações, porém, a abstinência surge de dificuldades emocionais ou experiências relacionais pouco seguras. Aqui, o desejo existe, mas fica suspenso ou inibido, não por convicção, mas por proteção.” Henriques sublinha que, do ponto de vista psicológico, a diminuição da prática sexual não indica perda de interesse, mas dificuldade em sustentar intimidade num mundo saturado de estímulos. “Vivemos num contexto com muito estímulo, muita informação e muitas expectativas, mas com pouco espaço emocional para estar presente no corpo e na relação. O desejo ativa-se facilmente, mas retrai-se quando implica vulnerabilidade, continuidade ou envolvimento emocional. Muitas pessoas sentem-se mais ansiosas, mais comparadas e mais observadas, mesmo na intimidade. Quando o sexo deixa de ser vivido como encontro e passa a ser atravessado por pressão ou autoconsciência, o corpo tende a afastar-se.” O fenómeno da sex-recessão, alerta a psicóloga, deve ser lido com cuidado: “Não pode ser encarada de forma única. A diminuição da prática sexual só constitui um problema quando é vivida com sofrimento, angústia ou sensação de perda de vitalidade emocional. Quando a ausência de desejo gera conflito interno ou afeta a relação consigo próprio ou com o outro, merece atenção clínica. Em muitos outros casos, aquilo a que se chama sex-recessão reflete uma transformação cultural legítima.” Mais do que ausência de sexo, trata-se de uma mudança profunda no modo como se lida com intimidade, desejo e expectativa social.

O que emerge destas análises é uma geração que redefine a intimidade, não desprovida de sexualidade, mas que lida com ela de forma mais complexa e consciente. O sexo deixa de ser apenas ato físico, tornando-se terreno de escolha, proteção e reflexão, mediado por pressões externas, autoconsciência e ritmo de vida acelerado. Como conclui Beliz, “Não somos máquinas, e tudo isto pode influenciar profundamente a nossa intimidade.” Entre liberdade, responsabilidade e novos códigos sociais, a sexualidade torna-se um território de experiência individual, aprendizagem e, sobretudo, de escuta. No fundo, esta geração está a ensinar-nos que o sexo não se resume ao ato. Pausar, adiar, refletir – tudo isto é também intimidade. Entre filtros, apps e pressões externas, os jovens podem até não estar a fazer sexo com frequência, mas estão a redefinir o que significa estar próximo de alguém. E talvez seja isso, mais do que qualquer número de encontros, que realmente conte. No final, menos não é sempre menos; pode ser, surpreendentemente, mais.

Originalmente publicado no The Naif Issue, a edição de fevereiro de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui

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