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Humanos, demasiado humanos

© Gonçalo Claro

Palavra da Vogue 28. 8. 2017

by Ana Murcho

 

Mais de 300 milhões de pessoas sofrem de uma doença invisível chamada depressão. A sociedade moderna acelerou-a, mas também a transformou num tabu. Está na altura de começarmos a falar sobre o assunto – abertamente. O pior que pode acontecer é descobrirmos que até o cérebro tem razões que a razão desconhece. 

Os jornais consideram-na "o mal do século." Winston Churchill chamava-lhe "the black dog" (o cão negro). Sylvia Plath referia-se a ela como "the bell jar" (a redoma de vidro). Por causa dela, Abraham Lincoln sentia-se "o homem vivo mais miserável". Os Pink Floyd cantaram-na em Comfortably Numb, os R.E.M. em Everybody Hurts, e tantas outras bandas fizeram o mesmo, em tantos outros gritos de apaziguamento. Foi o ópio de Scott Fitzgerald, Wolfgang Amadeus Mozart, Isaac Newton. Vimo-la em Melancolia (Lars von Trier), As Horas (Stephen Daldry), Garden State (Zach Braff) e num sem-fim de películas que, por esta altura, já nos deviam ter ensinado tudo sobre todas as coisas do universo. Lemos sobre ela nas entrevistas de vida de Cara Delevigne, Amanda Seyfried, Selena Gomez, Halle Berry. 

Estamos em 2017, e apesar de o mundo já não ir para novo, ainda não nos sentimos preparados para lidar com a palavra "depressão" – menos ainda com o que ela possa significar. A História devia ter-nos ensinado alguma coisa: afinal, a depressão começa no primeiro ser humano, vai ao princípio dos tempos, não escolhe sexos, idades, classes sociais. E, no entanto, continuamos demasiado assustados sempre que é preciso falar nesse descontentamento descontente, nessa tristeza que começa não sabemos onde nem porquê. Conseguimos queixar-nos de tudo o resto, assumimos as nossas dores, os nossos pecados capitais, lutamos contra os maiores inimigos, mas o silêncio impõe-se quando o assunto cruza as profundezas do cérebro e da alma. Não temos uma nódoa negra, um tumor, uma perna partida – ninguém vai entender. Como se faz?

Sejamos francos, a depressão começa por não ser, sequer, uma doença fácil de definir. Nem para quem lida com ela por questões de trabalho.

Tiago Reis Marques é docente e investigador do Instituto de Psiquiatria do King’s College, em Londres. Dá­-nos uma versão possível, a da ciência: "Enquanto médicos, regemo-nos por critérios de diagnósticos definidos por grandes equipas de trabalho, atualizados com alguma regularidade. Não quer dizer que sejam verdades insofismáveis, mas refletem aquilo que com o conhecimento atual podemos considerar uma depressão. […] Os sintomas são múltiplos, mas pelo menos um de dois tem que estar presente: humor depressivo, que entendemos por tristeza, e a perda de prazer ou de interesse em atividades que antes criavam prazer ou interesse. Além destes sintomas, pelo menos outros três sintomas têm que estar presentes, tais como fadiga, alterações do sono, alterações do apetite, alterações da memória ou concentração, agitação ou lentificação motora, pensamentos sobre morte ou ideação suicida, entre outros. Não significa que todos estejam presentes, mas pelo menos alguns deles." 

Ao que parece, muitos destes sintomas estão presentes no dia a dia da nossa sociedade. Nas recentes comemorações do Dia Mundial da Saúde de 2017, no passado 7 de abril, a Organização Mundial de Saúde lançou uma iniciativa chamada Let’s Talk (Vamos Conversar) de forma a promover o diálogo sobre a depressão – e a "reduzir o estigma" a ela associado. Os números são alarmantes: em 2015 existiam mais de 322 milhões de pessoas com depressão, o equivalente a 4,4% da população mundial. Portugal é o país da Europa com a taxa mais elevada e o segundo ao nível internacional – os mais recentes dados apontam para mais de um milhão de pessoas com depressão ou ansiedade. De acordo com o Infarmed, o ano passado consumiram-se cerca de 18 milhões de embalagens de ansiolíticos, antidepressivos, hipnóticos e sedativos. Porque é que a depressão se tornou uma doença tão comum? "Vários fatores contribuíram para este aumento. Entre estes, um aumento dos fatores de risco, como stress crónico, expectativas sociais, entre outros. Por outro lado, um aumento dos casos reportados. […] Durante muito tempo as pessoas sofreram em silêncio, pensando que não havia nada a fazer e não procurando ajuda", explica o médico.

Os relatos são tantos como poemas que nunca chegaram a ser: "Imagina uma canção triste em eterno repeat", "Pensa num corredor fundo, cujas paredes não têm fim. Ou num dia de chuva infinito. Ou isto tudo e mistura sons que não fazem sentido, músculos tensos, luzes de todas as cores, fruta que deixou de saber a fruta. É mais ou menos assim que te sentes quando estás deprimido". Ou então não. O desespero é universal, mas a depressão, esse nome que imaginamos noutras cabeceiras, é pessoal e intransmissível. Tentar traduzi-la é uma presunção de inteligência. Por isso nada do que não se consegue explicar é fácil de entender a quem não está doente. 

Uma pessoa que nunca teve uma depressão dificilmente pode entender o outro lado: afinal, quantas vezes não enfrentamos "fases más", quantos dias não nos sentimos tristes, quantos fins de semana não queremos ficar na cama, não sair de casa? 

Em termos químicos, como funciona o cérebro do não doente? O que é que ele tem que falta ao cérebro do deprimido? "Infelizmente é muito mais complexo do que simplesmente a ausência ou presença em excesso de algo. As teorias iniciais apontavam para a ausência de um neurotransmissor – a serotonina – mas simplesmente porque os medicamentos com que tratamos a depressão aumentam a serotonina. No entanto, não podemos estabelecer que simplesmente porque aumentamos os níveis de um neurotransmissor que a causa da depressão é a ausência desse mesmo, da mesma forma que se a aspirina trata a dor de cabeça não podemos inferir que a dor de cabeça é provocada por uma ausência de aspirina no cérebro", sublinha Tiago Reis Marques. Como tal, o tratamento é sempre isolado, particular. "Os estudos demonstram eficácia semelhante entre as duas abordagens [comprimidos e terapia], mas uma eficácia potenciada se forem utilizadas as duas em comum. Dessa forma, caso o doente tenha acesso, tempo e capacidade económica para tal, a recomendação é utilizar estas duas técnicas em paralelo."  

E depois a sociedade não ajuda. Evita, não percebe, e não ajuda. São principalmente dois os preconceitos criados, e alimentados, à volta da depressão. O primeiro, que o psiquiatra (e, muitas vezes, o psicólogo) é "o médico dos loucos"; o segundo, que há pessoas deprimidas que "não têm razões nenhumas para estar assim". Como é que chegamos a este ponto? A palavra ao especialista. "A sociedade sempre viveu mal com o que não compreende, e a loucura sempre foi vivida com muito medo por parte da população geral. Infelizmente só nos últimos 50 anos é que começámos a ter medicamentos minimamente eficazes, e que podemos tratar as doenças mentais mais graves, para as quais a única solução foi o internamento em hospitais próprios que ganharam uma denotação muito negativa, como os manicómios e os hospícios. O médico psiquiatra era, portanto, o médico que tratava ou tentava apoiar esses casos, e assim surgiu essa noção do médico dos loucos. Passou então a surgir o medo de ir ao psiquiatra, pelo próprio medo de se poder ter uma dessas doenças para as quais não existiam tratamentos. O segundo preconceito está associado a uma noção completamente errada de que a pessoa pode moldar e controlar os seus estados mentais, e de que a doença mental é sempre consequência de algum fator externo. As pessoas têm a tendência natural de procurar uma causa-efeito, da mesma forma que quando são diagnosticadas com um cancro do pulmão se perguntam como é possível se nunca fumaram na vida. Isto é muito importante, porque a maioria das doenças são o resultado de uma combinação de fatores genéticos com fatores ambientais, e raramente o resultado de um só fator. A depressão não tem na maior parte dos casos uma causa única, daí que é completamente errado ver a depressão a partir desse espectro. A depressão é semelhante a qualquer outra doença, pode-nos afetar sem ser o resultado de nenhum fator externo." 

Vivemos uma época de avanços científicos e tecnológicos, a informação sobre "superalimentos" e "supervitaminas" é abundante, existem dezenas de exercícios e técnicas de mindfulness ao nosso dispor, a esperança média de vida aumentou. Não era suposto estarmos felizes? Porque é que estamos, e continuamos, cada vez mais deprimidos? 

"Sim, é verdade. Esses fatores são todos protetores, sem dúvida, e está comprovado terem alguma eficácia na melhoria do humor e da redução da ansiedade. Mas a verdade é que nem todas as pessoas têm acesso a eles. É uma minoria de pessoas que apresenta este tipo de cuidados com a alimentação e pratica técnicas de mindfulness, porque de resto vemos problemas e doenças associadas a aumentar com o estilo de vida, como o sedentarismo e a obesidade. Por outro lado, a urbanicidade, a pressão de desempenho, a incerteza laboral, o stress crónico, são tudo fatores de risco para episódios depressivos e que têm vindo a ser cada vez mais prevalentes na sociedade atual. Ou seja, existe uma alteração do equilíbrio entre os fatores de risco e os fatores protetores, com a balança a cair para os primeiros." Ou então, arriscamos, porque somos demasiado humanos, e haverá sempre uma linha muito ténue que nem a ciência conseguirá explicar. Isso não faz de nós loucos. Loucos, garantimos-lhe, são os outros.


*Artigo originalmente publicado na edição nº176 da Vogue Portugal.  

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humanos depressão

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