Beleza  

Himenoplastia | Like a virgin

24 Sep 2021
By Sara Andrade

Que não é tocada pela primeira vez. A cirurgia de “recuperação da virgindade” parece prometer um “começar de novo” nas relações sexuais. Só que neste “como uma virgem”, a palavra-chave é o “como.” Não parece, mas é.

Que não é tocada pela primeira vez. A cirurgia de “recuperação da virgindade” parece prometer um “começar de novo” nas relações sexuais. Só que neste “como uma virgem”, a palavra-chave é o “como.” Não parece, mas é.

Esta história do “Era uma vez um hímen” é daquelas em que é possível acrescentar “que será outra vez um hímen”, por assim dizer. Porque isto do começar de novo tem muitas aplicações reais e metafóricas, e a anatomia feminina não é excepção. E falamos em anatomia feminina e não em relações sexuais porque a himenoplastia, quando referida apenas como “cirurgia da recuperação da virgindade”, assenta em dois falsos pressupostos: que o hímen quebrado significa que uma mulher já não é virgem; e que a sua reconstrução significará que ela nunca teve relações sexuais. Spoiler alert: o hímen pode partir-se mesmo antes de haver penetração sexual — seja por atividade física intensa (andar de bicicleta, a cavalo, etc.), seja até pela inserção de um tampão; e não há cirurgia nenhuma que apague as suas experiências sexuais — pelo menos, não mais do que aquele gelado para afogar mágoas depois de um break-up. Como qualquer ruga ou mazela que denúncia experiências de vida, a sua primeira vez continua a existir, por mais que use botox ou que acabe por cicatrizar. O que não significa que esta não seja uma cirurgia válida. Mas antes de entrarmos pelas motivações que levam algumas mulheres a querer oferecer um recomeço às suas vaginas, interessa explicar o que é, afinal, este palavrão da himenoplastia — ou cirurgia de reconstrução do hímen, que me parece mais fidedigna ao propósito da intervenção. “Esta cirurgia tem por objetivo reconstruir a anatomia e morfologia do hímen na mulher adulta ou jovem”, explica o Dr. Zeferino Biscaia Fraga, especialista de Cirurgia Plástica e Estética. “O hímen é uma membrana elástica fibro-mucosa, com um ou vários orifícios, que se encontra implantada na transição da vulva para a vagina. Encontra-se em várias espécies de mamíferos. A sua anatomia e morfologia são bem conhecidas, não acontecendo o mesmo com a sua fisiologia, isto é, a sua função e significado. Sob o ponto de vista médico, o mais plausível é constituir uma barreira protetora para as infeções ginecológicas na infância. O contacto com a urina, fezes, detritos, poeiras, areias e outros agentes potencialmente infecciosos será protegido durante a primeira e a segunda infância. É digno de registo que o ser humano desde há muito tempo criou padrões de referência social, cultural, étnica e religiosa relativos ao significado da integridade e da perda (rasgadura) do hímen, que não se coadunam com a ciência.”

Ou seja, tendemos, enquanto sociedade, a associar o hímen à virgindade de uma mulher, quando essa acepção é por demais redutora, e falaciosa — porque nem todas as ruturas do hímen são consequência de uma primeira relação sexual; assim como nem todas as atividades sexuais rasgam o hímen. O conceito de virgindade é um conceito social e tem pouca correspondência na rutura do hímen, em termos médicos. Ainda assim, algumas das motivações que norteiam a escolha deste tipo de intervenção prendem-se com crenças religiosas, culturais e sociais. Por exemplo, uma vez que a presença de um hímen intacto ainda é importante em muitas culturas, uma mulher pode querer que esta indicação de “pureza” se manifeste na sua noite de núpcias; mesmo que não seja por razões de cultura, há muitas mulheres já sexualmente ativas que preferem oferecer ao seu parceiro uma experiência “virginal”; e há também quem queira simplesmente esquecer o passado, por ter cedido à pressão do grupo e ter perdido a virgindade demasiado cedo — psicologicamente, esta é uma forma de “revirginização” (ainda que na prática, a “desvirginização”, de facto, aconteceu). Biscaia Fraga corrobora que algumas das mulheres que o procuram para este género de cirurgia têm argumentos do género em mente: “Os casos clínicos que nos têm procurado enquadram-se num contexto sociocultural, étnico, religioso e geográfico muito peculiar, quase sempre impregnados de um forte dramatismo, e raramente de patente futilidade”, explica o cirurgião, apontando, anonimamente, alguns casos como exemplo: “Uma jovem senhora (30 a 40 anos) rigorosamente só na consulta, exortando o máximo sigilo, oriunda e residente numa pequena vila do interior, cujo namoro durou meia dúzia de anos e se viu interrompido de forma brusca. Enamora-se de um homem mais velho ao qual, por razões de forte pressão social e religiosa, pretende demostrar a sua ‘honradez’, ‘virgindade’ e ‘pureza’ no dia do casamento. A consulta é feita com a paciente ‘lavada em lágrimas’”, reforça o especialista.

Há (muitos) mais exemplos. Outro caso inclui uma “jovem rapariga de 16 a 20 anos acompanhada pela mãe, possessiva e protetora, que anuncia o casamento da filha, com data marcada, a qual tem de estar, e demonstrar, ser ‘íntegra’ naquele dia. Este caráter imperativo revestido de acentuado ‘stress’ para a jovem paciente acontece em etnias específicas, em imigrantes de países/nações de governos com forte implantação religiosa monoteísta.” Biscaia Fraga sublinha que é “difícil descrever o nível expresso verbalmente que é caso de ‘vida ou morte’; no passado mais recente, isto é, nos últimos 15 anos, mais concretamente.” Lembra-se ainda de casos de pacientes na faixa etária dos 40 a 50 anos que queriam “oferecer a virgindade no dia de aniversário do marido” e ainda de outras que pretendiam reconstruir o hímen “para oferecer ao novo namorado”, ratificando esta vertente de associar o hímen com a pureza de uma mulher, sendo que muitas o fazem não por si, mas por aquilo que os outros, os seus pares sociais, irão pensar, assumir, etc. Mas as razões para se submeter a uma himenoplastia vão além das pressões religiosas, culturais e sociais, amorosas e até estéticas. Há quem o faça por uma questão de controlo — veja-se o caso de agressão sexual, em que a restauração pode ter efeitos benéficos mais do que físicos, acima de tudo psicológicos. O aumento do prazer sexual é outra vertente listada como móbil por algumas clínicas: depois de ser mãe, os músculos vaginais podem enfraquecer e alguma flacidez pode ocorrer com a idade — a himenoplastia ajuda a fortalecer estes músculos. Há também motivações médicas que podem nortear a execução da cirurgia, porque nem todos os hímens são iguais: “Na presença de hímen imperfurado (sem qualquer orifício, com membrana fechada e intacta) torna-se imperativo proceder a himenoplastia (abertura central), a fim de permitir a drenagem de secreções e fluxo menstrual (situação clinica rara)”, refere o cirurgião. Isto é, no caso de hímen imperfurado (caso em que toda a abertura vaginal se encontra coberta pelo hímen e que normalmente se descobre na entrada da puberdade, uma vez que a menstruação fica bloqueada), e situações muito próximas deste caso clínico, a intervenção ganha um argumento médico.

"É POSSÍVEL, TECNICAMENTE, RECONSTRUIR A MORFOLOGIA E A ANATOMIA DO HÍMEN, E ESTE ATO DEVE OU NÃO SER EXECUTADO APÓS AVALIAÇÃO MUITO PONDERADA DE CADA CASO CLÍNICO, SENDO CERTO QUE A DECISÃO DEVERÁ SER DEPENDENTE SE SE ESTÁ OU NÃO A CONTRIBUIR PARA A MELHORIA FÍSICA, PSICOLÓGICA, SOCIAL E GLOBAL DA PACIENTE” Dr. Biscaia Fraga

E em que consiste a intervenção, concretamente? “A ‘recuperação da virgindade’ ou himenoplastia morfológica consiste no acto cirúrgico de refazer a membrana através da mucosa da parede vulvo-vaginal, sendo possível atingir um grau de encerramento superior ao original em virtude da boa plasticidade e elasticidade dos tecidos loco-regionais”, explica o especialista sobre este procedimento de reconstrução da membrana vaginal, ressalvando que “é obrigatório respeitar a anatomia considerada normal.” O procedimento é relativamente simples, sem pós-operatório complicado, a avaliação de cada situação é que pode ser o ponto-chave antes de avançar com a cirurgia. O Dr. Zeferino Biscaia Fraga não se coíbe de assumir que não avançou com todos os casos que lhe chegaram às mãos: “É possível, tecnicamente, reconstruir a morfologia e a anatomia do hímen, e este ato deve ou não ser executado após avaliação muito ponderada de cada caso clínico, sendo certo que a decisão deverá ser dependente se se está ou não a contribuir para a melhoria física, psicológica, social e global da paciente”, ressalva, acrescentando que “de acordo com este princípio e sem outros juízos de valor, já reconstruí e já recusei casos pois trata-se de cirurgia e anestesia com os inerentes riscos, embora seja realizada em regime ambulatório, isto é, sem internamento”. A posição do médico toca num ponto importante — não é o ponto G, mas é o ponto da motivação e consequente retorno pós-operatório. É necessário analisar se os argumentos são válidos e se a vida, seja física seja psicológica da paciente, melhorará com a intervenção. O profissional de saúde não é apenas o executante, ele tem um papel crucial na educação e explicação do procedimento, dos propósitos e do retorno real para o dia a dia e para futuro da paciente.

Até porque, com maior ou menor manifestação, qualquer intervenção cirúrgica tem potenciais efeitos secundários, por menos graves que possam sê-lo. Um testemunho dado ao India Times, em 2017, relatava que, por causa de um encontro arranjado pelos pais, uma leitora, Swati Srivastava (nome fictício), considerou a cirurgia porque a química com o date tornado noivo tinha sido tal que, no seio de duas famílias conservadoras, parecia-lhe uma opção mais viável do que contar ao rapaz, Aditya (nome fi ctício), o seu passado com contagem q.b. de experiências sexuais. Long story short: na noite de núpcias, quando o tema surgiu e Swati manteve a fachada, descobriu que o agora marido tinha um passado sexual não só recheado como ousado (muito ousado), sentindo até que Aditya não se teria importado com a sua lista de parceiros e que até teria gostado de saber que a mulher era mais experiente na área. Swati acrescentara ainda, no relato, que tinha “sangrado” [importa sublinhar que nem sempre acontece] e que não estava “particularmente orgulhosa de o ter feito na cama de um hotel.” Moral da história: vale a pena ponderar bem as razões para fazer esta cirurgia. Se for por si e por questões físicas e psicológicas que a farão ter uma vida mais plena, os argumentos serão sempre válidos. Ceder a pressões externas sem considerar a sua vontade dificilmente acrescentará valor e só a fará passar por uma cirurgia desnecessária (e por um alívio indesejado da conta bancária, uma vez que, de acordo com Biscaia Fraga, uma cirurgia deste género pode custar entre os €1.800 e €3.500 - o preço inclui as equipas cirúrgica e anestésica e bloco).

É preciso ter em conta algumas nuances: a reconstrução do hímen não limpa o que quer que tenha acontecido — as suas experiências sexuais não deixam de existir, a sua virgindade não regressa. A virgindade é algo que temos até determinada altura e que, nas condições certas, decidimos deixar de ter — sublinhe-se o “decidimos” porque, infelizmente, isto não é uma afirmação linear, e há milhares de mulheres, no mundo inteiro, que deixaram de ser virgens à força, contra a sua vontade, e isso não pode ser ignorado. Mas talvez se pararmos de encarar a virgindade (feminina e masculina) como um assunto tabu, sejamos capazes de falar nela com mais à-vontade e menos pudor. Quando ocorre no momento certo, e com o nosso consentimento, e por nossa decisão, a virgindade deixa de “nos ser tirada”, deixa de ser “perdida”, e passa apenas a ser algo preterido em prol de novas experiências e sensações. Se conseguirmos aceitar tudo isto, talvez não precisemos de tentar recuperá-la a qualquer custo. Até porque a ideia de que a reconstrução física, seja do hímen, seja de cicatrizes, seja de rugas, apaga a perda da virgindade, corrige aquele alegado defeito, disfarça a idade que temos, não passa de uma ilusão se não entendermos que o passado não pode, nunca, ser apagado. Pode, isso sim, ser arrumado e resolvido: uma himenoplastia pode ajudar a recomeçar. Mas que seja um recomeço pelas razões certas, em vez de uma utopia em começar do zero. Até porque todas as suas experiências (sexuais ou não) fizeram de si aquilo que é hoje, foram lições que, se apreendidas da melhor maneira, a tornaram melhor. E isso é motivo de celebração, não um sentimento de culpa passível de se tapar com a peneira. Ou com uma membrana elástica fibro-mucosa.

Publicado originalmente na edição New Beginnings da Vogue Portugal, de setembro 2021.For the english version, click here. 

Sara Andrade By Sara Andrade

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