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Pessoas 23. 3. 2020

Para lá da tela: o guarda-roupa dos artistas

by Mónica Bozinoski

 

O que têm em comum Jean-Michel Basquiat, Yoko Ono, Robert Mapplethorpe, Louise Nevelson, Salvador Dalí e Louise Bourgeois? Um guarda-roupa que é tão digno de museu quanto as próprias obras.

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Georgia O'Keeffe, Andy Warhol, Keith Haring, Frida Kahlo, David Hockney and Pablo Picasso ©Getty Images; iStock

 

Diz o ditado que não há duas sem três e o mundo da arte parece confirmar esta crença popular de que, por vezes, os trios são (mesmo) melhores do que as duplas. Vamos aos factos. Não há Pablo Picasso sem chapéus, Breton tops e sobretudos oversized. Não há Andy Warhol sem casaco de pele preto, camisolas de gola alta e óculos com lentes que ora eram transparentes, ora eram escuras. Não há David Hockney sem cabelo loiro, óculos redondos e cores infinitas. Não há Frida Kahlo sem androginia, herança e maximalismo. Não há Lee Miller sem calças com um corte masculino, trench coats e botas de combate. Não há Georgia O’Keeffe sem fatos à medida, vestidos longos e quimonos.

Diz o ditado que não há duas sem três porque, na verdade, não há artista sem guarda-roupa distinto, sem look de assinatura, sem acessório inconfundível. Os chapéus de René Magritte. Os fatos de Jeff Koons. Os óculos de Yoko Ono. O cabelo de Yayoi Kusama. Cada pormenor tão revelador como uma qualquer pincelada oculta num qualquer quadro que já foi observado vezes sem conta – mas que continua a carregar em si mais significado do que aquele que alguma vez se imaginou ser possível. Cada pormenor tão influente como uma qualquer imagem à qual voltamos vezes e vezes sem conta – mas que continua a carregar em si relevância, atualidade e pertinência. O high and low de Jean-Michel Basquiat, que coordenava de forma harmoniosa uma peça de designer com um par de calças de ganga rasgadas e um par de ténis que eram tudo menos uma tela em branco. O workwear de Jackson Pollock, concentrado num ciclo de t-shirts pretas ou brancas, macacões Levi’s e jeans Lee. O surrealismo de mãos dadas com a Moda de Salvador Dalí, uma personalidade mítica que fundiu o mais extravagante e o mais clássico.

Ícones de estilo nos seus próprios termos, ícones de estilo não conformes com tendências, ícones de estilo dotados de um entendimento da Moda que vai além da sua camada mais superficial, cada um destes artistas influenciou a forma como a indústria e os seus mais brilhantes criativos pensam e constróem. Continuamos a vê-los nas ruas e nas passerelles. Continuamos a vê-los quando a autenticidade fala mais alto do que qualquer moda passageira. Continuamos a vê-los quando vestimos um fato de proporções oversized, um sobretudo assoberbado ou uma simples camisola às riscas – que, verdade seja dita, é sempre mais do que uma camisola às riscas. Continuamos a vê-los porque nos sentimos ligados a eles. A todas as partes deles.

Mas se dúvidas restassem de que o guarda-roupa de alguns dos nomes mais influentes da história é tão impressionante como a sua obra, a autora Terry Newman tira-as todas em Legendary Artists and the Clothes They Wore (Harper Collins, 2019), um livro com mais de quarenta perfis que exploram a relação entre o guarda-roupa de nomes como Salvador Dalí, Jackson Pollock, Piet Mondrian e Niki de Saint Phalle, as suas próprias manifestações artísticas e a indústria da Moda.

Como explica Newman, que conversou com a Vogue Portugal por email, na introdução desta sua segunda obra (a primeira, Legendary Authors and the Clothes They Wore, explora o estilo de alguns dos maiores nomes da literatura), “pode parecer um pouco simplista ou rebuscado examinar a arte através da Moda – olhar para as roupas que os artistas usavam e para o trabalho que criaram como duas partes de uma mesma equação. Contudo, explorar o guarda-roupa destes artistas pode ajudar-nos a compreender as suas formas de expressão profundas.” E continua, dizendo que “a história de um artista pode ser contada através das roupas que usou”. “O carisma dos grandes artistas é algo que resiste. Os seus guarda-roupas, ainda que mais efémeros, mas tal e qual como a sua obra, foram cuidadosamente escrutinados pelos olhos curiosos dos designers, e as mensagens que carregam têm sido incorporadas na inconstante narrativa da Moda.” Nós dissemos que não há duas sem três: nem arte sem artista, nem artista sem guarda-roupa. Mas quem melhor para o explicar do que Terry Newman?

Georgia O'Keeffe ©Getty Images

Quem foram os artistas que a influenciaram durante a infância?
Quando era miúda, a Yoko Ono sempre me pareceu o auge do chic esotérico, e contemplava o guarda-roupa dela com uma minuciosidade tão aguçada como a obra estranha e maravilhosa dela. Quando estava na universidade, no final dos anos 80, apaixonei-me pelo mundo nova-iorquino de Keith Haring e Jean-Michel Basquiat, a fusão entre hip hop, streetwear e high-fashion no trabalho deles. Eles eram outsiders, mas criaram a sua própria cena, que dominou o mainstream com aquilo que eles vestiam e aquilo que eles faziam.

Foi uma das editoras da revista i-D nos anos 90. Como era a relação entre Moda e arte nessa altura?
A i-D nos anos 90 era um sítio especial; era uma revista que abraçava verdadeiramente o novo e o intrépido, e os fotógrafos, a Moda, as modelos e os criativos eram pessoas brilhantes que normalmente não se encaixavam com aquilo que se via noutros editoriais. Esta visão inclusiva significava que a Moda se fundia facilmente com a arte – o estilo e a identidade eram desconstruídos e mesclados com uma individualidade artística que designers como Margiela, McQueen, Chalayan e Galliano levavam até à passerelle. As suas coleções eram inspiradoras e visionárias em diversas formas artísticas.

Antes de escrever Legendary Artists and the Clothes They Wore, publicou o livro Legendary Authors and the Clothes They Wore. Como foi todo este processo?
Sempre me senti muito fascinada pela noção de estilo pessoal: para mim, o carácter está diretamente ligado àquilo que uma pessoa veste, e era uma miúda que se interessava muito por livros, roupa, Moda e Arte. Por isso, fazia bastante sentido pesquisar estas ideias e escrever um livro sobre elas. Quando olhas para as peças de roupa de alguém que te inspira, ganhas uma perceção extra do porquê dessa pessoa se comportar da forma como se comporta.

Quando falamos em estilo, o que é que mais distingue os autores dos artistas?
A ideia de que os artistas se vestem para o trabalho que têm, porque é esperado que assim seja, enquanto os autores ficam o dia todo em casa de pijama é um tanto cliché, e aquilo que quis fazer foi explorar esses preconceitos e testar a minha teoria de que as pessoas interessantes vestem roupas interessantes. Olhar para todos aqueles titãs da literatura e da arte através das roupas que usavam deixou-me um pouco nervosa no início – especialmente porque comecei com o Samuel Beckett no meu primeiro livro, e parecia um conceito bastante audaz. Mas resultou. Também encontrei muitas ligações entre a indústria da Moda, a Arte e a Literatura, o que desenvolveu a minha ideia ainda mais além.

Andy Warhol ©Getty Images

O livro Legendary Artists and the Clothes They Wore explora o estilo de uma série de artistas, de Niki de Saint Phalle a Andy Warhol, de Yoko Ono a Cindy Sherman. Tem algum favorito?
Adoro-os a todos mas, se tivesse que escolher apenas um, seria a Georgia O’Keeffe, visto que o estilo dela é exatamente aquilo que eu gosto: um pouco empertigado e severo, mas prático, e um pouco utilitário com um twist feminino.

Na introdução do livro, escreveu que “a história de um artista pode ser contada através das suas peças de roupa”. Quais foram as melhores histórias que descobriu durante a sua investigação?
Estava encantada com as histórias de todos estes artistas, e todas elas eram realmente envolventes. A Cindy Sherman, por exemplo, cuja obra explora a identidade, começou a mascarar-se em criança – ela era a mais nova de cinco crianças, a crescer em New Jersey, e disse em tempos que pensa que a sua compulsão para fazer isso surgiu do facto de ter que relembrar aos pais que estava ali. A atitude que a Marina Abramovich tem em relação à Moda nos dias de hoje é completamente diferente do modo como ela se sentia quando era mais nova. Nas palavras dela, “nos anos 70, quando as artistas usavam batom vermelho e verniz nas unhas e qualquer coisa que se relacionasse com Moda, eram olhadas com repugnância, como se fossem mesmo más artistas”. Mas depois de ela ter percorrido a Grande Muralha da China, tomou a decisão consciente de se divertir e usar peças de roupa de designers. Hoje, a Marina já foi capa de mais revistas do que algumas supermodelos, a usar o seu batom vermelho de assinatura, e colaborou com designers de Moda, incluindo o Riccardo Tisci.

Moda e Arte são muito pessoais, e ambas se relacionam com a nossa identidade, personalidade e ideias. De que forma é que o estilo dos grandes artistas que explora no seu livro influenciou as obras que criaram?
A Louise Nevelson disse que “a arte e a vida são a mesma coisa para mim, e a Moda é uma parte da vida. Sinto-me feliz quando uso roupas bonitas, joias incríveis. Estou constantemente a criar. Porque é que devia parar quando se trata de mim?” Na minha opinião, aquela espécie de colagem cacofónica que era o estilo dela espelhava as culturas que ela criou. Aquela justaposição estranha de peças de roupa dissimilares coalescia de uma forma única e convincente quando ela as misturava e, similarmente, os materiais inúteis da vida que ela juntava nas suas esculturas evocavam sentimentos intensos, ao mesmo tempo que transmitiam harmonia.

Keith Haring ©Getty Images

A ideia de tempo tem sido cada vez mais explorada pela indústria da Moda, seja através do tempo de vida de uma peça de vestuário ou da sustentabilidade de materiais. De todos os artistas que explora em Legendary Artists and the Clothes They Wore, quem tem o estilo mais intemporal?
Uma das razões que me levou a escrever este livro foi defender a ideia de um estilo intemporal, ao invés de estar on trend. A ideia é que a tua personalidade está entrelaçada com as roupas que vestes, e todos os artistas no meu livro refletem isso de uma forma ou de outra. Muitas das artistas ainda são musas nos moodboards de designers nos dias de hoje. As peças de vestuário que a Lee Miller usava, por exemplo, inspiraram uma coleção da Phoebe Philo para a Céline, e a Georgia O’Keeffe foi a engenheira de estilo de campanhas e desfiles de Maria Grazia Chiuri para a Dior. O estilo delas resiste porque era original no seu tempo e não encaixava com aquilo que era a última tendência. Em vez disso, era um reflexo das suas vidas e dos seus interesses. A Frida Kahlo, que está na capa do meu livro, encapsula isto na perfeição.

"A IDEIA DE QUE OS ARTISTAS SE VESTEM PARA O TRABALHO QUE TÊM, PORQUE É ESPERADO QUE ASSIM SEJA, ENQUANTO OS AUTORES FICAM O DIA TODO EM CASA DE PIJAMA É UM TANTO CLICHÉ” – TERRY NEWMAN

A Moda tem uma longa relação com a arte e ainda é, nos dias de hoje, influenciada por obras e artistas de igual modo. Qual é a razão deste fascínio duradouro?
Ambas são áreas criativas que expressam identidade e emoção. Foi Pierre Bergé quem em tempos disse que “a Moda não é arte, mas a Moda não consegue viver sem arte”. Penso que isto é verdade, mas também acredito que a arte também não consegue viver sem a Moda. Hoje, os impérios da Moda e da Arte andam de mãos dadas e produzem ideias que podem ser companheiras bastante felizes e a relação, por vezes, fica menos clara com uma ingenuidade estilosa – por exemplo, a instalação Double Club cor-de-rosa e iluminada por néon de Miuccia Prada, em colaboração com o artista Carsten Holler, primeiramente exibida em Londres, no ano de 2008. No passado, também se fundiu de uma forma bastante orgânica. Quando a artista suíça Meret Oppenheim conheceu Schiaparelli, em 1936, e propôs uma pulseira de pelo para a coleção de inverno da designer, acabou por ser impulsionada a revestir uma chávena e um pires com pelo animal, criando um dos seus trabalhos mais famosos: Le Déjeuner em fourrure.

Foram vários os momentos em que Moda e Arte se encontraram. Tem algum de eleição?
Os meus favoritos são quase sempre algo relacionado com o trabalho de Yves Saint Laurent, pela sua beleza transparente – por exemplo, ele adorava Matisse e homenageou a pintura de 1940, La Blouse Roumaine, recriando a blusa da modelo de uma forma muito idêntica nos anos 80 e apresentando-a com uma saia de veludo azul safira, tal como no retrato. Também gosto muito do cut-out inspirado em Matisse do outono/inverno 2012-13 de Comme des Garçons, porque parece tão simples, mas, ao mesmo tempo, é muito avant-garde e arrojado. O final à la Jackson Pollock da primavera 1999 de Alexander McQueen, quando o vestido de Shalom Harlow foi borrifado com tinta por dois robôs enquanto ela girava numa plataforma, foi um momento único entre arte e Moda. Tive a sorte de me sentar muito perto da front row e nunca me irei esquecer do quão espetacular foi ver esse momento.

Artigo originalmente publicado na edição de março 2020 da Vogue Portugal. 

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