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Entrevistas 19. 2. 2020

Lagerfeld Confidential, para sempre imortalizado numa carteira

by Rui Matos

 

A Olympia Le-Tan transformou o póster do documentário Lagerfeld Confidential numa carteira. Aproveitámos esse lançamento para conversar com Gregory Bernard, produtor do documentário e fundador e diretor criativo da etiqueta parisiense.

© Eduardo Gonçalves

“A Moda é efémera, perigosa e injusta.” São estas as palavras proferidas por Karl Lagerfeld no documentário Lagerfeld Confidential (2007), uma obra cinematográfica que é o seu retrato mais íntimo. Um ponytail de cabelos brancos, óculos de sol escuros de dimensões grandiosas e luvas em pele. Não é preciso muito mais para descrever o kaiser. Ou talvez seja. Lagerfeld sempre foi um homem muito convicto, de si e dos seus ideais. Nunca se coibiu a dizer aquilo que pensava e as provas disso mesmo estão no documentário de Rodolphe Marconi: “Odeio pessoas que não sabem estar sozinhas”; “Adoro a mudança, não estou apegado a nada”; “Quando entrei na Chanel, ela era uma bela adormecida - e nem era bonita, ela ressonava”; “O sucesso anula, tens que fazer de novo e melhor”; “As melhores coisas que alguma vez fiz, vieram todas de sonhos”. Frases como estas fizeram de Karl o homem mais adorado, mas também o mais odiado. 

 

Hoje, 19 de fevereiro, assinala-se o primeiro ano da sua morte. Sem surpresas, as redes sociais enchem-se de fotografias e descrições que enaltecem a sua genialidade. Há um ano, o mundo perdia um dos homens mais influentes e poderosos da indústria. Diz-se por aí que todos são substituíveis, mas a verdade é que Karl Lagerfeld - e toda a sua persona, visão e espírito - é insubstituível. 

Em jeito de homenagem, Gregory Bernard, o produtor responsável por Lagerfeld Confidential e o fundador e diretor criativo da Olympia Le-Tan, transformou o póster do documentário numa clutch que entra diretamente para a nossa coleção de carteiras. Aproveitámos este lançamento conversar com Bernard e recordar o legado de Lagerfeld.  

O Gregory começou como engenheiro. Como é que o Cinema, a Moda e Arte no geral se tornaram uma parte importante da sua vida?

Foi um decisão muito pessoal. Eu interessava-me muito por arte no geral, mas tinha uma paixão louca por filmes e quis envolver-me na concepção dos filmes. Há uns quantos filmes que mudaram para sempre a minha vida. 

E que filmes são esses?

Quer dizer, eu era um grande admirar de Cinema: desde os filmes do Stanley Kubrick a documentários obscuros de homens que mordem cães, ou até mesmo filmes mais escandalosos que me fizeram perceber que podia ter a liberdade de fazer qualquer tipo de filmes, fazer filmes do mundo em que vives. Eu quis participar nisso. E tive essa oportunidade porque um amigo meu era próximo do Karl e ele queria - era o sonho dele - fazer um filme sobre a Chanel. Ele ficou próximo do Lagerfeld e precisava de alguém em quem confiasse para este projeto, uma vez que não havia um guião. Ele queria passar tempo com ele, filmá-lo e criar alguma coisa a partir daí. 

Como é que recorda os tempos em que passou a produzir Lagerfeld Confidential?

Foi um projeto longo, porque a ideia, e aquilo que eu queria, era não haver um guião e depois filmar. A ideia era confiar no artista e fazer um trabalho colaborativo com o próprio Karl: filmá-lo, entrevistá-lo e conversar sobre aquele período de vida. Depois, com as mais de 200 horas de gravações, criar um documentário, que para mim é um retrato de um artista feito por um artista. E isso foi o que me interessou bastante neste projeto, porque era criar um filme de ficção sobre a fantasia que era o Karl Lagerfeld, mas ao mesmo tempo falar sobre o verdadeiro Lagerfeld. 

Foi fácil criar essa atmosfera?

O que foi mais difícil foi ter a aprovação do Karl e de tudo aquilo que o rodeava (desde a Chanel à Fendi e às pessoas). É muito difícil ter tanto tempo com ele, toda a gente quer um pedaço do Karl, todos querem passar uma hora com ele, entrevistá-lo. Então, ter alguém o tempo todo a filmar foi o desafio. Enquanto produtor, eu tinha que ser muito discreto, com um low profile, e criar uma boa relação com ele para que ele soubesse que nós não estávamos à procura do lado glamoroso da vida dele. Assim que ele percebeu que todos eram pessoas de confiança, aquilo que precisávamos de fazer era gravar e ter uma quantidade substancial de imagens para criarmos uma história. E, claro, a parte mais difícil foi editar. 

O que é que aprendeu com Karl que nunca mais vai esquecer?

Ele tinha uma grande disciplina na vida dele. Era um homem muito disciplinado consigo e com aquilo que esperava dos outros. A disciplina não significa que não podes ser louco ou criativo, significa que estás a criar standards altos. Ser pontual, ser organizado, no caso dele ser desorganizado, mas de uma forma muito especifica. 

Como produtor, qual é a parte mais difícil do seu trabalho?

É a relação com os artistas. É uma experiência muito difícil e perigosa, porque não podes manter a distância mas tens que manter a distância, porque tens um objetivo profissional para alcançar. Se és apaixonado pelo trabalho acabas por perder essas distância e muito da tua vida pessoal acaba por se envolver e aí precisas de ser muito forte emocionalmente para teres uma mente limpa e não confundires as coisas e fazeres com que o artista te compreenda. 

Como é a vida de um produtor?

A vida de um produtor é como a vida de um empreendedor, e é isso que eu sou. Tens que encontrar o teu produto e saber o quão importante e valioso é agora, e o quão importante e valioso vai ser no futuro. Para mim não é sobre fazer um grande sucesso ou muito dinheiro, mas sim a importância que vai ter na história. Quando fazes um filme com muito sucesso, 10 anos depois já ninguém se vai lembrar. O que eu tento fazer é criar filmes que vão ser vistos e lembrados 10, 15, 20 anos depois. 

Além de um retrato íntimo de Lagerfeld, o que é que este filme significa?

Para mim, Lagerfeld Confidential criou uma tendência, foi um dos primeiros filmes nesta era moderna dos documentários de Moda. Antes de 2007 não havia muitos documentários sobre Moda. As pessoas perceberam que tu podes falar de Moda e fazer um filme sobre isso e ser exibido nos cinemas e em festivais e ser considerado arte. Estes filmes contam a história de criadores e contam o seu processo criativo. Criadores como o Lagerfeld são major e acredito mesmo que o Lagerfeld Confidential inspirou outros designers, mas também as marcas. 

Além do Cinema, o Gregory é o fundador e diretor criativo da Olympia Le-Tan, a marca que imortaliza capas de livros e pósteres de filmes em carteiras. 

Sou um empreendedor e gosto de fundar empresas. Para mim, um filme é como uma empresa, a única diferença é que tem um início e um fim. Crias um produto, produzes esse conceito, juntas a melhor equipa possível para materializares esse desejo, arranjas o dinheiro e a melhor maneira de o vender. 

Na Moda e na Olympia Le-Tan o que acho ser importante (num mundo onde há designers de Moda todos os dias e roupa nova a toda a hora) é criar uma marca com uma ideia forte. O que a Moda significava para mim nos anos 60, 70, 80 e 90 era revolução, era, sobretudo, dar poder às mulheres, dar-lhes as ferramentas para se expressarem e dizerem quem realmente eram. Depois dos anos 90, na primeira década dos anos 2000, esse conceito perdeu-se. As pessoas queriam ser vistas, famosas, ricas e sexuais. Fazer carteiras que são livros é mostrar - às vezes com humor - o que tu lês, qual é a mensagem que queres passar, quão provocativo queres ser, quão intelectual és. Ou então podes só querer usar um livro - ou um filme, uma imagem, uma escultura. 

@ Eduardo Gonçalves

E o processo criativo. Como é que é criada uma carteira?

O início do processo criativo é pensar num assunto que seja importante agora e criar uma coleção-cápsula. O que fazemos é encontrar a pessoa certa para essa coleção, para co-criar essa coleção. Não é como se fossemos uma marcar parisiense, que tem aquela atitude de que só aquilo que fazemos é cool. Qualquer sítio pode servir de inspiração. Eu quero fazer qualquer coisa com Portugal - muitos franceses não sabem o quão potente a poesia portuguesa é. E é tão importante na história do país. 

Qual foi o motivo pelo qual transformou o póster de Lagerfeld Confidential numa clutch?

É um tributo pessoal ao Karl. Tenho muitas memórias boas com ele. Lembro-me do dia em que criámos este póster. Fizemos 50 versões, e continuo a guardar todas as tentativas. No fundo criei esta carteira para mim, para ter uma clutch e ter a oportunidade de a levar para um screening. Mas também porque acho que é um tributo com muito respeito pelo legado do Karl. Ele não queria nenhum tipo de homenagem ou tributo depois da sua morte. 

E o Karl gostou do resultado final?

Sim, gostou. Ele validou tudo. Ele gostou muito do filme.

O Karl gostava das suas carteiras?

Quando criei a minha primeira coleção ele apoiou-me imenso. Lembro-me dele ser um grande fã de Emily Dickinson, era a sua autora favorita. O Karl foi uma das primeiras pessoas a quem dei uma Olympia Le-Tan. Ofereci-lhe uma carteira com a Emily Dickinson, e ele ficou muito contente. 

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