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Notícias 15. 4. 2020

Olivier Rousteing da Balmain, Natacha Ramsay-Levi da Chloé e Cédric Charbit da Balenciaga falam sobre o futuro dos desfiles

by Steff Yotka

 

Olivier Rousteing, Natacha Ramsay-Levi, Cédric Charbit e Nicole Phelps

A pandemia provocada pelo novo coronavírus cancelou desfiles de Moda, mas isso não significa que a indústria da Moda vá parar ou até mesmo abrandar. No segundo dia das Vogue Global ConversationsOlivier Rousteing (diretor criativo na Balmain), Natacha Ramsay-Levi (diretora criativa na Chloé) e Cédric Charbit (CEO na Balenciaga) reuniram-se no Zoom com Nicole Phelps (diretora da Vogue Runway) para conversar sobre como é que os desfiles podem e devem mudar no futuro.

Ao longo de uma hora, o grupo conversou sobre o valor dos desfiles virtuais e a sua relação com a experiência física, a inclusão que o mundo digital traz e como é que essa experiência oferece à indústria a oportunidade de redefinir e repensar a forma como pode negociar.

Embaixo, os destaques deste segundo dia de #VogueGlobalConversations. 

Qual é o público de um desfile?

Um dos aspetos cruciais quando pensamos em desfiles virtuais e físicos é analisar quem é o público para cada um destes eventos. O CEO da Balenciaga, Cédric Charbit, revelou dados sobre os eventos da marca que mostravam o alcance dos dois tipos de desfiles: a cada estação, a Balenciaga convida cerca de 600 pessoas para os seus desfiles na Semana de Moda de Paris. Mais de 8 mil pessoas assistem ao desfile, ao vivo, no YouTube, e 60 mil no Instagram, enquanto que no Twitter 300 mil pessoas falam sobre este acontecimento. “Se combinarmos isto tudo com os replays [dos streams] vamos ter uma audiência de 10 milhões”, afirmou Charbit. “Acho que uma realidade virtual já está a acontecer e o que é preciso fazer é abraçar este fenómeno. O nosso público precisa de ser reconsiderado. É preciso entender: temos convidados ou espectadores?”

Rousteing e Ramsay-Levi ecoaram esse sentimento, delineando as diferentes possibilidades de um desfile online e de um desfile tradicional. Olivier Rousteing, por exemplo, gostaria de levar os seus desfiles para as ruas de Paris quando o confinamento terminar, com o objetivo de permitir que mais pessoas sejam incluídas na narrativa, enquanto isso Natacha Ramsay-Levi afirmou: “Acho que todos concordamos que valorizamos os desfiles. É um momento em que te podes reunir com a comunidade, é um momento em que há sensibilidade humana. Obviamente, o digital está lá para amplificar e, como o Olivier estava a dizer, talvez seja a maneira de como experimentamos um desfile que precisa de mudar e ser mais inclusiva.”

“O que é que se perde ao ver um desfile online e o que é que se ganha?”

O painel começou com esta pergunta, enviada por um espectador no Zoom. Sem dúvida, esta é a pergunta para um milhão de euros na indústria da Moda - e que cada marca responde à sua maneira. Rousteing começou por fazer uma distinção entre a atmosfera que poderia criar no universo digital e tradicional. “Não olho para o digital como menos emocional, vejo-o como uma experiência em que podes levar os teus sonhos para um próximo nível”, confessou, referenciado o potencial de colaborar com artistas digitais para criar realidades virtuais.

“Devemos estar cientes de que o público é maioritariamente digital, mas não vou acabar com desfiles. Os desfiles são um momento bonito”, afirmou Ramsay-Levi. “Podem ser apenas 600 pessoas numa sala, mas são outras 600 a trabalhar no backstage. Acho que é um momento muito lindo e todos nos devemos orgulhar”, continuou, observando que o auto-isolamento fez com que ela valorizasse ainda mais a conexão humana. “Acredito que os desfiles são eventos especiais e estão aqui para inspirar e dialogar - e têm um significado e devem ser autênticos. Há uma dimensão humana, que desejo manter.”

O futuro é um lugar onde as experiências digitais e físicas convivem em harmonia. “Fazer um desfile físico e traduzi-lo para uma plataforma digital, eu não acredito nisso. Em primeiro lugar, acho que os desfiles precisam de ser construídos de um ponto de vista digital”, afirmou Charbit. “Temos que gerir uma experiência online e offline que seja igualmente relevante para as pessoas, e é isso que tem toda a minha atenção nos dias de hoje: garantir que o desfile de amanhã, ou o da estação passada, por exemplo, não seja mais fraco se o estiveres a ver em casa ou na sala de desfiles.”

“Devemos estar cientes de que o público é maioritariamente digital, mas não vou acabar com desfiles. Os desfiles são um momento bonito." Natacha Ramsay-Levi

Mais tarde, Cédric fez um analogia entre a indústria da música e da Moda, apontando que eventos ao vivo como festivais e concertos são tão importantes para os fãs de música como consumir este conteúdo digitalmente. “Atualmente, temos que entrar numa fase em que a tecnologia e a Moda precisam de estar sincronizadas. Não é mais uma ilusão. Agora precisamos de injetar tecnologia na maneira como transmitimos mensagens paras as pessoas, mesmo nos showrooms e nos desfiles”, confessou. “Para mim, é muito emocionante ver que finalmente a tecnologia e a Moda se estão a fundir, porque uma precisa da outra.”

Rousteing acrescentou que talvez a maneira como entendemos a conexão emocional precise de mudar. “Mas as emoções estão a mudar”, disse. “Antes das pessoas baterem palmas, agora as pessoas usam o Instagram, que é o outro tipo de emoção. Tenho a certeza de que no futuro, vamos poder encontrar uma maneira com a ilustração ou com o digital, de trazer esse tipo de emoção.”

Como é que podemos garantir que criatividade é sustentável?

“Não queremos viver num planeta que vai morrer amanhã. Precisamos de proteger, não só a indústria da Moda, mas também o nosso mundo”, afirmou Rousteing. À medida que a conversa se direcionava para a sustentabilidade - com Charbit a revelar que o diretor criativo da Balenciaga, Demna Gvasalia e a sua equipa de design, lançaram recentemente um mapa de sustentabilidade para 2020 e 2021 - Ramsay-Levi fez uma das citações mais comoventes da conversa: “Não podemos desperdiçar materiais porque poluímos muito, mas também não podemos desperdiçar a criatividade.”

“Não queremos viver num planeta que vai morrer amanhã." Olivier Rousteing

A designer continuou destacando que a conexão entre o comercial e o criativo está em desacordo. “O desperdício vem de um sistema que solicita novos produtos o tempo todo. […] Constantemente são solicitadas novidades”, afirmou, destacando ainda que os desfiles são um momento para a sua equipa expressar a criatividade, enquanto que as pré-coleções são o que proporcionam uma vida útil mais longa nas vendas. “É um desperdício de criatividade. As silhuetas que criamos têm pouco tempo para se expandirem e, então, são colocadas à venda e perdem o seu valor.”

“Acho que as marcas têm a oportunidade de parar, pensar e fazer propostas concretas para um novo negócio. […] Comprar não é um ato sem sentido. É o ato de fazer parte da comunidade. […] Eu sei que o próximo produto que vou comprar é algo que precisa de ser relevante."

Charbit concordou, dizendo que acredita que apoiar o design tem de ser o seu objetivo principal e do de outros CEOs. “Estamos aqui para apoiar a visão criativa. Não somos uma empresa que é orientada pelo marketing. Somos uma empresa que é orientada pelo design, e se o design abraça uma determinada coisa, nós estamos aqui”, disse. “Nós, os CEOs, precisamos de dar mais espaço e de colocar a criatividade no centro. As oportunidades de negócio e os resultados virão como consequência do objetivo principal.”

Como é que as marcas mais pequenas podem sobreviver e prosperar?

No final da conversa, Nicole Phelps leu algumas perguntas adicionais enviadas pelos espectadores do Zoom. Uma das perguntas era sobre como as marcas mais pequenas, no futuro, podem competir digitalmente ao mesmo nível das grandes Casas de luxo. “Assim como hoje, não é apenas uma questão de dinheiro. É tudo uma questão de ideias e criatividade”, afirmou Charbit. “Todos temos identidades e precisamos de permanecer, o mais próximo possível, da nossa essência usando mais a tecnologia para nos expressarmos. Esse seria o meu mantra, o meu conselho para qualquer um de nós e todos aqueles que desejam existir no mundo amanhã. […] Se estiveres sincronizado com o que representas no teu tempo, vais ter sucesso.”

Um futuro mais inclusivo e digital aplica-se a marcas grandes e pequenas. “Acho que há oportunidade para existir uma indústria da Moda melhor depois desta crise”, Charbit continuou. “Acho que há muita esperança.”

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