Emma Leonora e Nicole Moulds fotografadas por Alessandro Esposito, com realização de Pablo Patané, para a edição Twin Souls da Vogue Portugal, publicada em novembro de 2019.
Não sofremos apenas por amor, também existem desilusões nas amizades (e, por vezes, são piores). O que é o conceito de "friend bombing", como se pode reconhecer e como se proteger de relações de amizade manipuladoras?
O conceito de "friend bombing" e como se proteger desta dinâmica manipuladora
Friend bombing consiste numa relação de amizade tóxica que nos pode fazer muito mal. Pode acontecer a qualquer pessoa, pelo menos uma vez na vida, confundir a amizade com o amor. Ou talvez, a pessoa simplesmente sente aquela mesma sensação que caracteriza certos começos: o entusiasmo repentino, a vontade de se abrir sem filtros e a estranha certeza de ter encontrado alguém que parece compreender-nos desde sempre. Afinal, algumas emoções falam a mesma língua. No entanto, houve uma altura em que as relações — de amor ou de amizade — seguiam um ritmo diferente (bilhetes passados por baixo da bancada; encontros marcados para o mesmo sítio, à mesma hora; telefonemas a usar headphones escondidos, não fosse alguém, noutra divisão, ouvir).

Focus Features
Everett Collection
Havia uma certa expectativa, e talvez fosse precisamente isso que tornava tudo mais especial. Não porque as ligações fossem necessariamente melhores, mas porque exigiam paciência. Uma amizade constrói-se aos poucos, com uma espécie de elegância silenciosa. Hoje, em contrapartida, vivemos numa sociedade que nos mantém constantemente ligados: vemos o que os outros fazem em tempo real, partilhamos pensamentos, imagens, emoções e temos a sensação de aceder à vida de alguém quase sem esforço. Já não sabemos esperar e, talvez, até tenhamos esquecido o sentimento de aborrecimento. O mesmo se passa com as relações, que parecem ter-se adaptado a esta velocidade: têm de ser intensas, encantadoras e profundas desde o início.
Acabei de conhecer alguém, mas já parece ser a minha alma gémea: o que é o friend bombing?
Nos últimos anos, temos ouvido falar de ghosting, orbiting e love bombing, termos que descrevem novas formas de viver as relações na era digital. A estes juntou-se recentemente também o friend bombing, uma dinâmica que diz respeito ao mundo da amizade e que descreve um comportamento caracterizado por atenções intensas e prematuras em relação a alguém. Mensagens contínuas, disponibilidade constante, elogios excessivos, presentes e pedidos de proximidade emocional imediata.

The White Lotus
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Este mecanismo assemelha-se muito ao do love bombing, com o qual partilha parte do termo. Em ambos os casos, de facto, a outra pessoa parece avançar na relação com uma intensidade que ultrapassa os tempos (naturais) do processo de conhecimento mútuo. A diferença, porém, é que no friend bombing o contexto não é de amor, mas de amizade, e talvez seja precisamente isso que o torna mais difícil de reconhecer. A amizade não deveria ser sempre um terreno seguro?
Quando o entusiasmo se torna opressão: os sinais de alerta
As amizades genuínas não precisam de se apressar. São os avós e os pais que nos dizem isso, mas, no fundo, a Geração Z também está ciente disso. As amizades verdadeiras crescem, consolidam-se e vão-se conhecendo ao longo do tempo. É por isso que alguns sinais merecem atenção. Pode tratar-se de uma pessoa que exige uma presença constante no nosso dia-a-dia, que envia mensagens constantemente à espera de respostas imediatas ou que, após muito pouco tempo, utiliza expressões como “és tudo para mim" ou “nunca me senti assim com ninguém”.

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Noutros casos, os sinais são mais subtis: o sentimento de culpa quando se dedica tempo a outras pessoas, a sensação de ter de justificar cada ausência, a impressão de nos termos tornado responsáveis pelo equilíbrio emocional do outro. No início, tudo isto pode ser lisonjeiro: quem não gostaria de se sentir escolhido e importante todos os dias? Depois, porém, algo muda. Essa mesma atenção que parecia tranquilizadora transforma-se num fardo opressivo. Uma relação não deveria fazer-nos sentir sempre acolhidos, em vez de sufocados?
Estabelecer limites não significa amar-se menos: como se proteger
Nas relações, sejam elas de que tipo forem, há sempre necessidade de equilíbrio. Equilíbrio entre quem ama e quem é amado, entre quem observa e quem é observado. Por vezes, porém, a realidade é mais difícil do que parece: os laços humanos não seguem fórmulas matemáticas universais e o equilíbrio emocional é uma questão complicada (e imprevisível).

Hulu
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Proteger-se do friend bombing não significa tornar-se desconfiado ou deixar de se envolver, mas sim lembrar-se de que cada relação precisa do seu tempo. Significa conceder a si próprio o direito de abrandar o ritmo, de não contar tudo de imediato e de manter espaços pessoais sem se sentir egoísta, observando também como a outra pessoa reage aos limites que estabelecemos. Quem deseja verdadeiramente construir uma relação saudável pode sentir-se desiludido, mas saberá respeitar esse espaço; quem, pelo contrário, encara a ligação como uma forma de posse, tenderá a transformar essa distância numa culpa. Talvez, então, as amizades mais bonitas sejam aquelas que surgem sem fazer barulho e que não exigem tudo e de imediato. Um pouco como os encontros de antigamente, marcados com uma simples conversa, sem ansiedade nem urgência, mas com a silenciosa certeza de que alguém, no final, estaria realmente lá.
Traduzido do original, disponível aqui.
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