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Pessoas 4. 11. 2019

Franca Forever

by Patrícia Torres

 

Fazer parte da Vogue é assumir o compromisso de perpetuar o legado distinto e decisivo que mulheres extraordinárias deixaram no mundo. Franca Sozzani faz parte dessa plêiade insigne como a mulher que conquistou tudo e todos através da Moda, tal como ela a entendia: “a Moda não tem nada de ridículo. São as pessoas da moda que fazem a Moda parecer ridícula. Não devíamos ser transformadas em celebridades. Mas se nos tornarmos uma celebridade que seja pelo que fazemos, não pelo que vestimos, calçamos ou por causa de mais uma carteira.” Mulher de apurado sentido ético e estético. Direta, criativa e brilhante, na Vogue Itália Franca Sozzani ultrapassou a barreira da língua e do preconceito quando ousou mostrar o que nunca ninguém havia mostrado antes. E com isso disse tudo. 

Chaos and Creation, 2016 © movie still 

Franca não morreu. Franca Sozzani continua viva a cada página de cada uma das vinte duas edições da Vogue à volta do mundo. O seu olhar azul, atento, gentil e curioso espreita-nos por entre essas páginas, resultado final e visível de meses de um trabalho veemente e meticuloso, que eleva a Moda ao estatuto de arte. A arte do sonho. Um sonho que exige responsabilidade, esforço e absoluta dedicação por parte de jornalistas, fotógrafos, editores, designers, assistentes, modelos e tantos outros cuja criatividade, inteligência, coragem e resiliência fazem da Vogue um caso único no mundo e na história das publicações de Moda. Franca também era assim, única. Durante 28 anos assumiu a chefia editorial da Vogue Itália (1988 - 2016, ano da sua morte), liderando um projeto visionário, que obrigou o mundo a olhar para a Moda de forma percuciente. Numa entrevista ao jornal britânico The Telegraph, em 2013, Franca diz: “Todas as revistas têm acesso às mesmas roupas que nós. Vamos todos aos mesmos desfiles, trabalhamos todos com as mesmas modelos. Se não oferecermos outro ponto de vista sobre o que estamos a fazer vamos ser apenas mais um catálogo de Moda. E ninguém precisa de mais um catálogo de Moda.”

Franca Sozzani era a Vogue e a Vogue é uma autoridade. Mas foi graças à ideia que Franca Sozzani tinha do que é ser uma “autoridade" que a Vogue se tornou no portento que é hoje. Para compreender como é que isso aconteceu voemos até à Londres de finais dos anos 60, princípios de 70. O economista Harold Wilson, do partido Trabalhista, era então o Primeiro Ministro de Inglaterra (1964-1976) e na capital da mini-saia, das culottese das go-go bootsas raparigas desmaiavam com os Beatles e faziam a revolução sexual com os Rolling Stones. Antes de aterrar na cidade do Big Ben,com vintee poucos anos, um curso em literatura germânica e filosofia, um divórcio (Franca esteve casada apenas três meses) e uma vontade indómita de descobrir o mundo, Sozzani já tinha viajado pela India. Mas foi em Londres que a ragazza italiana viveu uma espécie de epifania. “Em Londres senti o perfume da liberdade e essa sensação mudou totalmente a minha forma de pensar. Toda a gente era diferente e isso era tão bonito. Ninguém queria ser igual ou parecer-se com outra pessoa. De certa forma esse tipo de liberdade provoca muito a nossa criatividade.”

Franca nasceu a 20 de Dezembro de 1950, em Mantua, na Lombardia, uma das 20 regiões administrativas italianas, a segunda mais populosa do país – 9 milhões de pessoas.  Nesse ano Itália vivia o chamado “milagre económico”, após a segunda guerra mundial (como documentam os historiadores) o que contribuiu para o rápido desenvolvimentos social e cultural do país, que viria a transformá-lo numa das maiores potências industriais europeias. E é nesse ambiente de oportunidades, sucesso e conforto que a família burguesa de Franca, especialmente o pai, Gilberto Sozzani, engenheiro na indústria automóvel, incentiva as filhas (Franca e Carla) a serem mulheres independentes, destemidas e vencedoras. “Sempre pensei que estava destinada a ter uma vida normal – uma casa, filhos, jogar golf. Mas depois decidi que essa não era a vida que queria ter. Não ia aguentar ficar em casa com os miúdos a fazer spaghetti”, diz Sozzani no documentário “Franca: Chaos and Creation”. O filme, que estreou em Setembro de 2016 durante a 73ª edição do Festival de Cinema de Veneza, em Itália, foi realizado pelo seu único filho, Francesco Carrozzini que falou à Vogue Portugal desde Nova Iorque, nos EUA. “A minha mãe era uma mulher com uma sensibilidade muito particular. Eu também sou. E por isso somos muito difíceis de quebrar, não desistimos facilmente daquilo em que acreditamos, não nos sentimos derrotados com as dificuldades, porque o mais importante é continuar e seguir em frente.” 

No filme de Carrozzini, Franca é a brilhante e polémica editora chefe da Vogue Itália, mas é também a mãe de Francesco, que criou e educou sozinha. “Tive a sorte de ter com a minha mãe uma relação que era muito forte e que eu sinto que continua viva. A memória que guardo dela é muito positiva. Melancólica, por vezes, mas muito positiva. Perdi o acesso à mentora incrível que ela era, à amiga, à conselheira. E claro, queria muito ainda poder falar com ela sobre tudo. Sobre o meu trabalho, sobre a minha vida pessoal, sobre as minhas escolhas. Porque em tudo o que eu fazia ela estava presente, envolvia-se, a nossa relação era assim. Todos os dias dou por mim a pensar: o que faria a minha mãe nesta situação? Todos os dias.”

Pensar em Franca é também aceder à energia de todas as mulheres notáveis que a antecederam na história da Vogue. Um legado fundamental, que contribuiu para transformar o papel social, cultural e histórico da mulher, colocando-a num lugar de destaque, pela defesa da sua autonomia e emancipação, do seu direito à opinião, ao pensamento livre e à imagem não estereotipada. Numa sociedade que resistia em dividir o poder com as mulheres, os nomes que abriram o caminho e marcaram a diferença, coincidência ou não, estavam aqui. Diana Vreeland, ícone da Moda e editora chefe da Vogue americana na década de 60 e 70, Joan Didion, jornalista, ensaísta e romancista americana que se estreou na Vogue EUA com um artigo sobre auto estima feminina - “Self-Respect: Its Source, Its Power – ou Donyale Luna, a primeira super modelo negra a aparecer na capa da edição britânica da Vogue, em maio de 1966, uma década marcada pelos grandes movimentos de luta contra a descriminação e a segregação racial nos EUA e de defesa dos direitos civis dos negros. 

Em 1964, a lufada de ar fresco que era a Vogue chega a Itália pela mão de Condé Montrose Nast, o magnata americano fundador da Condé Nast – um dos maiores grupos editoriais do mundo, que detém publicações como a GQ, Vanity Fair, The New Yorker, a W ou a Wired. O que é que uma mulher precisa de ter, saber e ser para conseguir chegar ao topo da revista de Moda mais importante do mundo criada por um homem?

Em criança o pai de Franca incentivava-a a perder o medo de saltar. Como? Saltando. Francesco recorda que uma das melhores qualidades da mãe era a curiosidade. Mas antes de se ser curiosa é preciso ser intrépida. “Acho a curiosidade uma forte qualidade e é uma qualidade que exige coragem. O trabalho que a minha mãe fez não foi fácil, especialmente se pensarmos no contexto em que ela viveu, nos anos 80. Claramente o mundo mudou imenso e agora as mulheres e os homens desempenham papéis completamente diferentes na sociedade. A minha mãe assumiu a direção da Vogue Itália no fim dos anos 70, o que não era comum para uma mulher. A curiosidade, a coragem e um certo tipo de resiliência eram das suas melhores qualidades.” Franca Sozzani chegou à Vogue Bambiniem 1976, pela mão da sua irmã mais velha, Carla Sozzani que também esteve ligada à revista. No filme de Carrozinni ficamos a saber que a futura editora chefe da Vogue Itália não achava o trabalho com crianças particularmente interessante, mas, apesar de tudo, o bom desempenho de Franca foi notado. Em 1980 a recompensa chegou quando assumiu a editoria da revista italiana Lei (edição italiana da revista americana Glamour, também do grupo Condé Naste) e, mais tarde, da Per Lui, chancela da Vogue, dirigida ao público masculino. Por essa altura Franca já sabia que tipo de linguagem queria usar para se destacar no universo editorial da Moda e elevar a Vogue Itália ao estatuto de ícone, dentro e fora do império Condé Nast.

Quando finalmente atinge o topo, como editora chefe da revista, em 1988 (no mesmo ano em que a eficaz Anna Wintor chega à chefia da Vogue americana), Franca assume que quer experimentar “uma abordagem conceptual diferente”, como ela própria diz. E admite mesmo, já numa fase retrospetiva, que muitas vezes ultrapassou os limites. “Eu estiquei muito a corda, acho que cheguei a exagerar mesmo, mas...é isso que faz a Vogue Itália diferente.” O novo estilo da Vogue Itália tem a marca de Franca Sozzani e a maestria daqueles que foram os seus grandes cúmplices “no crime”. Steven Meisel, Bruce Weber, Peter Lindbergh ou Paolo Roversi são os seus fotógrafos de eleição. Foi com eles que Franca deu o salto para o qual desde a infância tinha sido preparada para dar. A cada nova edição da Vogue Itália o mundo “sério” - que não só não falava uma palavra de italiano, como não podia desdenhar mais sobre o modus operandida Moda - quando confrontado com as imagens provocantemente sexy, glamorosas e escandalosamente atuais da Vogue Itália exaspera-se em calorosas e intelectualizadas discussões, ajuizando até ao mais ínfimo detalhe todas as possíveis leituras de interpretação política, social, cultural moral, ética e estética que essas imagens geravam. Perde-se o medo de saltar, saltando.

Em Julho de 2005, o editorial “Makeover Madness” – A demência das Transformações – aponta os flashes à obsessão pelas cirurgias plásticas. Franca, através do olhar do fotógrafo nova iorquino Steven Meisel, abala o mundo fashionista(e não só) ao revelar uma super Linda Evangelista envolta em seringas e ligaduras ensanguentadas, num pós-operatório surpreendentemente elegante e sedutor, que expõe a realidade neurótica à volta das injeções de botox, da rinoplastia ou da lipoaspiração. Em suma, Franca coloca o dedo na ferida quando nos mostra o seu ângulo sobre a obsessão pela perfeição. Ainda mal nos tínhamos recomposto, em Setembro de 2006, apenas um ano depois, Franca lança, o editorial “State of Emergency” - com Steve Meisel, outra vez. Passados cinco anos sobre os ataques ao World Trade Center, em Nova Iorque, perpetrado pela organização fundamentalista islâmica al-Qaeda, a 11 de Setembro de 2001, as modelos Hilary Rhoda e Iselin Steiro surgem maniatadas por polícias violentos e abusivos, numa clara alusão (ou crítica) ao reforço exagerado da segurança nos aeroportos, que se verificou logo após o ataque que vitimou três mil pessoas. Johanna Bourke, professora de História na Universidade de Birkbeck, em Londres, escreve no jornal inglês The Guardian que o editorial de Franca Sozzani, “leva a pornografia do terror a um outro extremo. Isto é a fotografia de moda ao serviço dos interesses dos políticos da tortura e do abuso.” E continua: “há uma satisfação vicária em ver essas representações de crueldade no interesse da segurança nacional.” Franca responde às críticas numa entrevista ao siteda cadeia de lojas de luxo Harvey Nichols: “Criei algo que não é apenas sobre Moda. É sobre sociedade, cultura, sobre o que está à nossa volta, porque a maneira como nos vestimos está completamente ligada à vida que levamos.” No reinado de Sozzani a Vogue Itália podia não chegar aos 1.3 milhões de tiragem da sua homóloga americana – rondava os 120.000 - mas tinha seguramente conquistado a atenção de todos, sem exceção.

Para Francesco Carrozzini a mãe acreditava que a Moda “tinha um poder mediático incrível. E o facto da Moda se ter tornado numa forma de arte e de negócio que chama a atenção do mundo, ela sabia que através da Moda era possível chegar às pessoas e, dessa maneira, talvez ela acreditasse que era possível mudar um bocadinho o mundo.” Entrevistada para a Vogue Runway, por Lynn Yaeger, Franca defende-se dos ataques violentos dirigidos aos seus editoriais, arremessando a pergunta que parece óbvia: “Porque é que uma revista de Moda não pode falar sobre o que está a acontecer no mundo?” Em 2007 as super modelos Agyness Deyn, Denisa Dvorakova, Guinevere van Seenus ou Missy Rayder protagonizam o editorial “Super Models enter Rehab”, um ensaio sobre a ténue linha que separa a fama da decadência e da ressaca da vida real. Meisel é novamente o fotógrafo eleito de Franca. Mas Peter Lindbergh (1944 – 2019), amigo de longa data de Sozzani, destaca na Vogue alemã, naquela que foi a sua última entrevista antes de nos deixar, a 3 de setembro, a liberdade criativa, a confiança absoluta e o amor que Franca votava aos seus principais parceiros criativos. “A Vogue Itália foi sempre totalmente livre. Era incrível como a Franca Sozzani nos protegia, aos seus três fotógrafos amados (Meisel, Lindbergh e Weber). Podíamos fazer o que quiséssemos. Poder usufruir desse tipo de apoio é indescritível. A Franca era muito especial, fomos muitos mimados por ela, por podermos trabalhar assim, sob aquelas condições, fomos muito mimados.”

Chaos and Creation, 2016 © movie still

O americano Steven Klein foi o último fotógrafo a trabalhar com Sozzani no editorial “The polaroid issue”. Uma edição que ficará para a história como a derradeira da mítica editora chefe da Vogue Itália, com uma estrondosa Madonna na capa. “Nós os fotógrafos devemos-lhe tudo”, diz Klein aquando da morte de Franca. “Ela não era apenas bonita. Era inteligente e destemida ao criar a sua própria visão.” Bruce Weber, outro dos seus fotógrafos preferidos, conta no filme de Francesco Carrozinni, que nos envelopes onde colocava as fotografias que enviava a Franca, escrevia “pessoal”. Diz ele: “Agora compreendo que tirava aquelas fotos para ti (Sozzani) porque tu eras a única que as podia compreender.”A morte de Franca deixou um vazio. Mas Franca continua viva a cada página de cada uma das vinte e duas edições da Vogue à volta do mundo. 

“The black issue” foi a edição mais vendida na história da Vogue Itália.  Hoje é umas das edições de colecionador mais raras e desejadas do mundo. Quatro capas, 30 mil tiragens e uma tiragem extra de mais 30 mil exemplares - a revista esgotou nos Estados Unidos e no Reino Unido em apenas 72 horas, tendo sido feita uma nova impressão, o que nunca tinha acontecido antes na história da Condé Nast. O momento inédito que foi a eleição do primeiro presidente negro dos EUA -  Barack Obama foi empossado a 20 de Janeiro de 2009 - e a generalizada falta de representação de modelos negras nos desfiles e nas capas das revistas de Moda, fez com que Franca pressentisse a mudança que aí vinha. Parte do seu trabalho era também ler o momento político e social, avaliar o contexto histórico e antecipar-se ao que viria a ser o novo paradigma, contribuindo ativamente para essa transformação incontornável, dando-lhe força, forma e expressão.

“The Black issue” reúne algumas das mais famosas modelos negras – Naomi Campbel, Liya Kebede, Jourdan Dunn ou Sessilee Lopez fotografadas por Steven Meisel e vestidas pelo então diretor de Moda da revista W, o ganês-britânico Edward Enninful, hoje editor chefe da Vogue britânica. A mensagem de Franca era, mais uma vez, óbvia. Porém, e mais uma vez, polémica. Celebrar a diversidade racial, exultando as mulheres negras das mais diversas áreas, da política ao entretenimento.  Bethann Hardison, ex-modelo e ativista dos direitos das mulheres negras nos EUA, em declarações ao The Undefeated, diz sobre Franca que “ela nunca teve medo de ser controversa. A Franca usou a sua plataforma para discutir questões socio-ambientais de forma honesta (...) desafiando as noções de diversidade cultural e racial dentro da comunidade da Moda.” Apesar dos aplausos de alguns, há quem olhe para a “Black issue” com sentido de analise reflexiva muito crítica. Foi o caso da investigadora em teoria colonial e pós-colonial, escritora e professora na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, a indiana Priyamvada Gopal. Na sua crónica regular no jornal inglês The Guardian, Priyamvada escreve: “Isto (referindo-se ao editorial de Franca) são mulheres negras retratadas como mulheres brancas: narizes aquilinos, olhos grandes, rostos redondos (...) cabelos persuadidos numa lisura sedosa ou cuidadosamente guardados em turbantes, imagem atrás de imagem. (...) Apelidando a edição dedicada às mulheres negras como especial e mostrando-a em conformidade com a ideia dominante (branca e europeia) do que é a sofisticação e a beleza, a black issue, diz-nos muito sobre como as raças e as etnias são entendidas nos media. Não ser branco significa ser relegado para as edições especiais, enquanto as edições normais continuam a ser determinantemente brancas.”

A “Black issue” fica na história. Franca Sozzani permanece inquieta. “O nome Vogue é bom, mas não chega. Dentro de ti tens de o preencher com alguma coisa que seja contemporânea”, explica Sozzani em 2013, na entrevista ao Telegraph, já aqui antes citada. Em 2014, à Vogue Austrália, Franca complementa essa ideia ao sublinhar a importância do conhecimento, especialmente numa área (a da Moda) onde é fácil cair na superficialidade ignorante e confrangedora. “A cultura é uma coisa que tens de ter, de forma a que a tua abordagem à vida seja feita de maneira sustentada. Se não tens nenhuma referência cultural não chegas a compreender totalmente o que te rodeia. Se não sabes nada sobre história da fotografia ou sobre história da Moda, se não sabes quem foi o Ansel Adams, nesse caso devias saber. É preciso mais do que conseguir apenas conjugar um chapéu extravagante com um par de sapatos”. Francesco, filho de Franca explica-nos como a mãe era uma agulha de marear que, além de legitimamente saber situar a Moda (e os seus protagonistas) no tempo e no espaço, apontava, simultaneamente, uma direção rumo ao futuro. “As pessoas sentem falta de uma referência, de uma luz guia e a Franca era uma referência a todos os níveis para muitas pessoas. E quando alguém como ela desaparece, eu acho que as pessoas que ficam se sentem um bocadinho perdidas.  Eu pude comprovar isso com muitos designers, amigos e fotógrafos. Perceber isso marcou-me muito.”

Após o “Black issue”, os editoriais controversos da Vogue Itália seguem-se à velocidade da força de rotação da Terra. Terça feira de abril de 2010. O mundo acorda com a notícia de uma explosão na plataforma petrolífera Deepwater Horizon (da petroleira BP) no Golfo do México. Mil e quinhentos metros abaixo da superfície do oceano, 3,2 milhões de barris de petróleo largam uma mancha monstruosa que se espalha rapidamente pelo fundo do mar, ao largo de 22 milhas de comprimento. Morreram 11 pessoas, incontáveis peixes, pelicanos, aves marinhas e tartarugas, sufocadas. Corais perderam a cor, cobertos de petróleo, e o número de mortes dos golfinhos, que era de 63 por ano, entre 2003 e 2009, subiu para 200 por ano desde abril de 2010 (fonte Agência Reuters). A BP pagou mais de 57.000 milhões de euros pela catástrofe, em limpeza, materiais e custos médicos. Mas quanto vale o planeta Terra e os seres vivos que o habitam? E a Vogue, tem alguma coisa a dizer sobre isso? Para Franca Sozzani sim. “Water and Oil” foi o título de um editorial que os mais críticos apelidaram de “inapropriado”. Franca, mais uma vez, teve a amabilidade de responder: “Compreendo que seja chocante de ver.” A modelo Kristen McMenamy é fotografada por Steven Meisel, colocada junto ao mar e às rochas, como se tivesse dado à costa, moribunda, coberta de uma matéria negra tóxica e degradante. As imagens são asfixiantes, dolorosas e perturbadoras. Como doloroso e perturbante é saber que depois daquele que está classificado como o maior desastre ambiental da história, 80% das gravidezes dos golfinhos não chegam ao fim devido à exposição ao petróleo (dados de um estudo da agência para os Oceanos e a Atmosfera dos EUA, 2016).

O editor da revista W, Stefano Tonchi recorda a frase de Franca que ele nunca esqueceu. “Se levares alguma coisa longe demais, não precisas de justificar nada.” Corajosa, convicta, assertiva e forte. Assim era Franca Sozzani, uma figura petit, de longos cabelos loiros e ondeados que lhe caiam pelas costas, impávidos e serenos, alheios às revoltosas reações que Franca provocava à sua passagem. “Às vezes acho que sou doida. Porque é que fiz uma coisa assim? Mas ao mesmo tempo não me consigo arrepender. Quando percebemos que fizemos algo errado, temos simplesmente de continuar, e continuar a tentar.” Jonathan Newhouse, o Presidente da Condé Nast International admite que Franca levou a Vogue italiana demasiado longe para aquilo que é a zona de conforto do Grupo de media internacional. Mas colocá-lo só assim é dizer pouco. No filme do filho de Sozzani, Newhouse confessa: “Eu disse-lhe, se continuas nesta direção, talvez tenha que te demitir.”  Franca rebate. “O que a Condé Nast queria era raparigas a rir e a saltar.” O que é que uma mulher precisa de ter, saber e ser para conseguir chegar ao topo da revista de Moda mais importante do mundo gerida por um homem? O filho de Franca responde-nos com a leveza que a mãe, apesar de tudo, apreciava e lhe ensinou, como fica claro no filme que Francesco lhe dedica. “A Moda para ela era muito divertida. Para ela os anos 80 e 90 foram os melhores anos, porque esses foram os anos em que havia muita criatividade, muita energia, muito dinheiro. Ela gostava de Moda porque ela a viveu ao máximo e no melhor. A minha mãe adorava o sonho que é a Moda. E adorava poder reforçar, através do seu trabalho na Vogue que a Moda é viver o sonho. Ela ofereceu às pessoas a oportunidade de viverem o sonho. Se não quiserem sonhar não comprem a Vogue.”

Franca Sozzani tinha um sonho. E o sonho era o mesmo que a Vogue se tinha proposto concretizar quando foi criada, no inicio do século XIX: dar a possibilidade às mulheres de reclamarem para si o poder de serem elas as protagonistas da sua própria vida. Foi esse o princípio que Franca abraçou e foi esse princípio que deu origem a editoriais como “Cinematic”. “Em Itália a cada três dias uma mulher morre assassinada por um parente, pelo marido ou pelo namorado. A ferramenta que eu uso para protestar contra isso é uma revista de Moda”, diz Sozzani a propósito do editorial que usa o imaginário do cinema para chamar a atenção para a violência contra as mulheres. Em “Belle Vere”, Franca enche as páginas da Vogue Itália com corpos curvilíneos, onde somos presentados com mulheres orgulhosamente diversas e muito belas. Se a Vogue não puder quebrar o tabu do body shaming ou denunciar o sofrimento que a anorexia provoca, quem é que pode? “A Moda não tem nada de ridículo. São as pessoas da moda que fazem a Moda parecer ridícula.”

Nos últimos anos, antes do fim, Franca foi porta voz de inúmeras causas, tendo sido nomeada embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas no mesmo ano em que foi agraciada, pelo então Presidente Nicolas Sarkozy, com a Ordem Nacional da Legião de Honra, em 2012. “A minha missão é usar o meu know-how, a minha experiência e a minha força de vontade para ajudar a concretizar projetos que gerem mais educação e mais trabalho. Não acredito que seja possível ajudar alguém no mundo sem que lhe seja dado acesso à educação, a um salário condigno e a possibilidade de evoluir.” Três anos após a sua morte, Franca Sozzani continua a agir sobre o nosso sentido de dever, a nossa consciência e sobre os desígnios da Vogue. Ela foi a mulher que teve a ousadia de superar o seu destino, ir além do seu tempo e das suas circunstâncias, tudo feito sem remorsos ou culpas. E isto, tanto na sua vida pública, como na sua vida privada. “Ela abriu o caminho para que mais mulheres possam ser o que ela foi, mãe e uma líder. Ela representa tudo o que as mulheres hoje em dia defendem. Ela era forte e destemida e só queria ser boa editora e boa mãe. A minha mãe era acima de tudo minha mãe, e só depois ela era tudo o resto”, diz Francesco. Um “resto” que para nós significa ainda tudo. “Quando corremos riscos, isso significa que todos os meses, a cada edição, as pessoas vão estar lá para te julgar, mas como é o meu nome que aparece, eu só faço o que sinto que devo fazer.” 

 

Artigo originalmente publicado na edição de outubro de 2019 da Vogue Portugal. 

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