E se lhe faltasse a voz, esta mulher continuaria sem se calar. Munida da palavra escrita, é através de papel e caneta que a nossa protagonista escreve a sua história. Mesmo que o mundo tente impedi-la, ela não se coíbe de narrar as aventuras de outros tempos, de outras eras, de outras épocas — aquelas em que a literatura pertencia aos homens e as mulheres figuravam como seres míticos, em mares longínquos e terras distantes. Eras em que os livros eram maiores, em que a pena escrevia sentenças, em que o feminino era idolatrado, mas não incluído nos direitos básicos do quotidiano. Remetidas ao silêncio, as páginas falavam por si, escritas pela mão delicada de uma escritora, assinadas com um ambíguo pseudónimo masculino. Sónia Balacó faz as vezes de uma heroína épica que cruza os tempos para chegar a um presente em que as mulheres querem, devem, conquistam e têm voz, dentro e fora do papel. E a sua é uma delas — uma que continua a imprimir em páginas com versos que, em bom rigor, não são só palavras. É a poesia que a define.
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