Artigo Anterior

Giambattista Valli fala sobre a sua colaboração com a H&M

Próximo Artigo

Miss Fame: "Quero que a indústria continue a recompensar e a celebrar modelos como eu"

Entrevistas 7. 10. 2019

Eva Herzigova: “Vogue é o que está a acontecer no momento”

by Patrícia Torres

 

"Sinto que consegui chegar muito longe já com a minha idade, e sinto-me muito humilde sobre o que consegui obter em tão pouco tempo", conta-nos Eva Herzigova.

FOR THE ENGLISH VERSION CLICK HERE.

© Fotografia de Branislav Simoncik. Styling de Woo Lee.

Eva Herzigova não é pelo depois, é pelo sempre. Sempre que Eva acumula mais uma capa (da Vogue), o termo top model é reconfirmado. Sempre que Eva, aos 46 anos, assinala que se pode ser intemporal nesta indústria, ela torna-se pertinente e atual. Mesmo que os primeiros passos tenham sido dados em 1989, protagonizado a primeira campanha em 1994 e que, desde aí, se tenham acumulado páginas (e capas) sem interregno, a sua relevância é, continua a ser, ratificada. Quando Eva Herzigova acrescenta a Vogue Portugal à sua lista de conquistas nunca é Eva depois. É Eva sempre.  

O que significa a Vogue para si?
A Vogue significa Moda, não é? ‘In Vogue’, literalmente significa ‘na Moda’. Vogue é o que está a acontecer no momento. Mas, pensando de forma mais abrangente, em todos os sentidos, a Vogue representa tudo o que está a acontecer culturalmente, criativamente. Vogue não remete apenas para aquela ideia de Moda que recai na roupa ou na cor do cabelo. A Vogue é mais do que isso.

De entre as 25 edições da Vogue que existem no mundo, tem uma preferida? 
Adoro a Vogue Checoslováquia. Sinto muito orgulho que o meu país tenha uma edição Vogue e acho que eles têm uma identidade muito forte e bem definida.

É capaz de eleger a capa mais icónica da história da Vogue? 
Eu diria a da foto tirada pelo fotógrafo Peter Lindbergh às cinco supermodelos - Naomi Campbell, Linda Evangelista, Tatjana Simic, Christy Turlington e Cindy Crawford. Ou aquela fotografia que o Patrick Demarchelier tirou, onde aparecem...seriam quantas modelos? É uma foto onde elas aparecem todas juntas e há um escadote. [A imagem, da autoria do fotógrafo francês Patrick Demarchelier, data de 1992, e nela estão presentes alguma das mais icónicas modelos dos anos 90, como Naomi Campbell, Cindy Crawford ou Linda Evangelista]Essas fotografas destacam-se. São fotos de grupo que projetam uma espécie de união feminina que para mim tem grande impacto. São memoráveis.

De todos os fotógrafos com quem trabalhou, qual gostaria de destacar e porquê? 
Eu fiz muitas Vogues com o Helmut Newton. Ele expunha as mulheres, expunha aquele tipo de imagens, que na maioria das vezes eram mal interpretadas. As imagens dele pareciam objectificar as mulheres mas, para mim, o que o Helmut Newton fazia, era colocar as mulheres numa posição de poder, na posição de líderes. Isso é o contrário de objectificar as mulheres. Eu penso que, de um ponto de vista particular, as imagens tinham um cariz sexual, sim, porque as imagens eram ousadas e ficavam na nossa memória, mas também por isso elas são intemporais. Ele retratava as lutas de poder e colocava sempre as mulheres no topo, elas ganhavam. 

"A voz das mulheres pode finalmente fazer-se ouvir, e há mais respeito por essa voz, e essa voz é válida e deve ser ouvida e tida em conta, porque ela faz parte da mudança que o mundo precisa."

Que maiores diferenças nota entre o tempo em que foi modelo e a maneira como as coisas na Moda funcionam agora? 
Passaram 30 anos, os tempos mudaram, obviamente. Hoje as mulheres, as modelos femininas têm mais proteção legal, há mais regras, as modelos menores não podem andar desacompanhadas, existe mais esse sentido de proteção junto das modelos mais jovens. Por outro lado, a questão da inclusão está presente em todo o lado. A questão de corresponder aos padrões que definiam o peso, a altura, as medidas tudo isso mudou. Incluir na Moda todas as mulheres, de todas as formas e feitios é uma coisa maravilhosa. Finalmente abriram-se as portas aos sonhos de tantas raparigas. À parte disso, esta mudança abriu muito os olhos da sociedade para realmente perceber que a beleza tem muitos feitios e muitas formas e essa mensagem é muito bonita. Quando as pessoas são standardizadas, ou quando existe apenas um tipo de beleza, isso faz as pessoas diferentes sentirem-se pouco válidas. Outra diferença é que a voz das mulheres pode finalmente fazer-se ouvir, e há mais respeito por essa voz, e essa voz é válida e deve ser ouvida e tida em conta, porque ela faz parte da mudança que o mundo precisa. 

Acha que a Moda reflete o estado do mundo ou aliena-nos dos problemas e do aparente caos em que vivemos?
Acho que a Moda é um espelho dos desejos e fruto das criações mais profundas dos seres humanos e acho que a Moda, a par da arte, é a primeira a dar sinais desses desejos, e a projetar essa voz profunda que temos enquanto coletivo. Aliás, a Moda nem chega a ser um espelho, porque ela é visionária e pioneira sobre o que virá a ser a sociedade. Portanto, nesse sentido, é a Moda a primeira a comunicar o futuro, a comunicar as mudanças por que o mundo irá passar.

Em Setembro a Vogue Portugal fez uma edição totalmente dedicada à sustentabilidade. A Eva é sensível às mudanças climáticas, ao tema da sustentabilidade e à ecologia?
Claro que sim, penso que, neste momento, o mundo todo é sensível a essas questões. Estamos obcecados com o planeta. E desde que fui mãe que fiquei mais consciente, este tema tornou-se pessoal para mim. É um movimento, estamos todos concentrados nisso e a falar disso e é incrível como esta geração está a fazer disto a sua luta, é pessoal para eles também. Eu só tomei consciência das mudanças climáticas depois de ser mãe, porque me preocupo com o futuro dos meus filhos. Quando era mais nova não pensava muito nisso, nem pensava muito no meu futuro. Por isso é que esta geração é tão inspiradora, pelo que estão a fazer pelo mundo e pelo nosso futuro. A Greta Thunberg é uma força da natureza, a maneira como ela conseguiu chegar a tanta gente, a sua profunda consciência sobre o que está a acontecer no mundo e o facto de se fazer ouvir, chamando a atenção sobre a importância de fazermos mudanças reais, desafiando as empresas e desafiando a indústria. A indústria da Moda é, aliás, uma das indústrias mais poluentes do mundo. Eu não sou a Greta Thunberg, eu contribuo para esta luta à minha maneira. Fazemos reciclagem, ensino os meus filhos a serem justos, éticos, falo-lhes sobre as desigualdades no mundo, sobre a importância de pouparmos água, energia. Estas questões têm a ver com educação e têm a ver com a forma como vivemos diariamente, tem a ver com aquilo que comemos – somos vegetarianos quatro vezes por semana - , sobre a forma como nos deslocamos e isso faz-nos mais conscientes sobre o impacto que temos no mundo e no meio ambiente.

Quando consome Moda as suas decisões são mais racionais ou mais emocionais? Consome por impulso?
Nessa área sou muito consistenteTalvez lhe possa chamar clássica/elegante, mas eu escolho sempre as peças intemporais: a camisola preta, as calças pretas, o casaco cinzento, a blusa branca. Por isso, não consumo assim tanto. E quando consumo prefiro gastar mais, mas comprar roupa feita com materiais de qualidade. Porque a roupa de qualidade dura muito tempo e esta é também uma forma de contribuir para um mundo mais sustentável. A sustentabilidade não tem a ver apenas com ecologia. É preciso comprar de forma consciente, com materiais orgânicos e tentar não contribuir para o desperdício. Hoje, as pessoas compram dez t-shirts, compram vestidos sem pensar se precisam deles. Não sou nada assim, tenho as mesmas t-shirts há anos e tenho peças feitas com bons materiais.  

"Não costumo olhar para os números ou para a idade como questões sobre as quais deva preocupar-me, porque a idade e envelhecer faz parte da vida."

Vamos falar do Brexit. A Eva já viveu em Inglaterra, como é que vê a saída do Reino Unido da União Europeia?
Eu percebo porque é que as pessoas votaram a favor do Brexit. Tenho muitos amigos ingleses e percebo os seus motivos. Um dos argumentos deles era que o Parlamento Europeu tem que mudar, e eu concordo com isso. Mas acho que a dada altura, durante a discussão sobre a permanência ou saída do Reino Unido da Europa a informação foi muito deturpada. A dada altura, já ninguém sabia distinguir entre a informação certa e a informação errada sobre o que é o Brexit, sobre quais seriam as suas consequências. Nem as regras sobre a votação do Brexit foram bem feitas. Eles decidiram avançar com o Brexit quando o país estava totalmente dividido. Consigo perceber o que provocou isto, mas neste momento, ao fim de três anos, já é uma brincadeira, ninguém está a chegar a lado nenhum, o que acaba por ter consequências na economia britânica. Eu agora vivo em Itália. Mudamo-nos, em parte, por causa do que se está a passar. O Brexit trouxe muita agressividade, especialmente visível na cidade de Londres, isso nota-se. Este não é um tema para o qual se deva olhar de forma leve e espero que se resolva rapidamente. Sou contra o Brexit porque acredito que as pessoas devem construir juntas, unidas, não de forma individualista ou com muros. Somos mais fortes unidos. Mas o Parlamento Europeu tem de ser revitalizado, e por isso compreendo porque é que o Brexit aconteceu. 

A Eva tem 46 anos, é, obviamente, uma mulher muito bonita. Sente alguma pressão relativamente à idade e ao envelhecimento?
Não sinto nenhuma pressão desse tipo. Sinto que consegui chegar muito longe já com a minha idade, e sinto-me muito humilde sobre o que consegui obter em tão pouco tempo. Eu estou a colher as sementes que plantei há anos atrás e a aproveitar esses frutos. Não costumo olhar para os números ou para a idade como questões sobre as quais deva preocupar-me, porque a idade e envelhecer faz parte da vida. Porquê estar a lutar contra isso? É algo natural e eu adoro ser natural, porque também adoro a natureza e tentar alterar isso seria ir contra o processo, seria estúpido. Podemos cuidar de nós, olhar para nós, mas o melhor que temos vem mesmo da maneira como nos sentimos: quando estamos felizes, em paz, calmas projetamos luz e vida. Projetamos felicidade e isso transforma-se em beleza. A beleza vem mesmo de dentro. Sempre me senti confiante, e nos tempos que correm, em que as mulheres são aceites e aceitam-se pelo que são, eu sinto-me ainda melhor. Sou como sou e não vou ser julgada por isso, ou pela minha idade. E também não vou adotar um olhar melancólico sobre mim mesma. Nem quero ser uma referência do passado. Eu vivi aquele passado, mas acredito que sou relevante agora. E poder transmitir isso isso é uma coisa que me deixa feliz. 

Que grande sonho tem ainda por concretizar?
Adorava conseguir ir de férias com os meus pais. Há algum tempo que não fazemos isso juntos. (risos)

Qual é a coisa mais importante que um jovem modelo deve saber antes de começar a trabalhar?
Falando da família, tenho pena que nem toda a gente possa contar com uma família sólida, forte que passe valores e princípios importantes. Acho que esses valores e esses princípios são o mais importante e os jovens modelos devem estabelecer desde logo quais são esses valores antes de entrarem numa indústria em que se está muito dependente da opinião dos outros. Porque esta é uma indústria que assenta naquilo que as outras pessoas gostam ou querem. 

A Vogue Portugal celebra 17 anos de vida. O que deseja à nossa revista para os próximos 17 anos?
Ah isso é incrível! Parabéns! Dezassete anos, quer dizer que começaram em 2002, que máximo! Será que vou poder estar na vossa capa daqui a dezassete anos? (risos) Eu desejo que a Vogue Portugal continue a ir mais além, a levar mais além aquelas vozes de que falámos no início e que essas vozes venham do coração.  Que sejam criativos e respeitem o vosso contexto cultural, porque isto tem a ver com a vossa marca no mundo, por isso continuem a fazer a diferença. E sejam orgulhosos do que fazem.

Alguma vez visitou Portugal?
Estive em Portugal há anos. Estive na costa, junto ao mar e toda a gente fala da costa Atlântica. Tenho três rapazes e eles adoram fazer surf e já ouvi dizer que Portugal tem um mar incrível para o surf, por isso espero regressar em breve. Andamos a planear ir há já três anos e espero que aconteça para o próximo ano.

 

A produção fotográfica com Eva Herzigova pode ser vista na edição de outubro de 2019 da Vogue Portugal, nas bancas. 

Este website utiliza cookies. Saiba mais sobre a nossa política de cookies.   OK