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Entrevistas 21. 6. 2017

Entrevista: Christian Roth e Eric Domège

by Carlota Morais Pires

 

Revolucionaram os anos 80 ao transformarem a (ainda pequena) indústria do eyewear com a sua estética futurista e olhar subsersivo. Quase trinta anos depois de criarem os óculos de sol que viriam a ser usados por Andy Warhol, Karl Lagerfeld, Kurt Cobain e toda uma Nova Iorque em ebolição, voltam a lançar uma coleção. A Vogue falou com os dois designers sobre o passado e o futuro da Moda e tudo o que continua a inspirá-los.

 

Lançaram a vossa marca no início dos anos 80, precisamente por sentirem que a indústria era demasiado conservadora. Qual foi a primeira reacção à vossa estética avant garde?
Series A foi o nosso primeiro design - era inovador, futurista e teve um grande impacto quando o lançámos em 1984. Marcou o início de uma nova fase no segmento dos óculos de sol; isto além de comunicar ao mercado o estilo da marca, com as suas lentes flutuantes, o appeal dos anos 50 e a provocação do tamanho e da forma. Em Nova Iorque as celebridades começaram a usá-los porque os adoravam e compravam, não porque os oferecíamos; e foi assim que os óculos se tornaram icónicos na cidade. Foi incrível. Olhando para trás foi um privilégio viver em Nova Iorque numa altura em que a cultura das celebridades não era um problema, como acontece hoje.

O que mais vos inspirava na década de 80? E hoje – o que vos inspirou para a criação desta nova coleção?
Quando começámos, a indústria dos óculos de sol era demasiado conservadora. Ninguém ia além do óbvio. Ao desenvolvermos novas técnicas de construção conseguimos chegar às passerelles em colaborações com os designers mais talentosos, numa espécie de laboratório de experimentação para novas ideias. Foi assim que criámos uma nova linguagem para o design de óculos e óculos de sol.

Mas já há muito tempo que olhamos para o movimento Bauhaus, que transformou áreas tão diferentes como a arquitetura, o design, a fotografia, a escultura e a tipografia, e as aglomerou numa única corrente cultural, isto há quase um século atrás. A coleção que acabamos de lançar surge com o nome de Deconstructed Bauhaus, numa tentativa de reconciliar o design modernista com a filosofia do design contemporâneo que também é irónica, nostálgica e subversiva.

Este novo capítulo assinala uma evolução significativa na identidade da nossa marca. Criámos esta nova coleção como se fosse quase uma análise a todo o nosso trabalho. Isto serviu dois propósitos: permitiu-nos afastar do nosso universo e desconstruir a nossa própria (e distintiva) linguagem de design  - de forma literal - e substituir os conceitos que daí resultaram num diálogo com questões culturais mais alargadas.

O que já podem dizer sobre a nova coleção?
Entre as inovações mais excitantes que surgem deste olhar sobre todo o nosso trabalho está o regresso das nossas icónicas lens-in-lens, uma tecnologia que é contemporânea ao primeiro desfile que fizemos, em 1986. Esta técnica, que envolve selar uma lente colorida numa lente maior, permitiu-nos uma maior experimentação com cores e formas que recuperam o glamour da arquitetura Art Deco de Miami, onde temos o nosso estúdio de design desde 2009.

Esta tecnologia lens-in-lens surge em diferentes formas, como o Ventriloquist, uma armação inspirada na arquitetura pós-modernista na sua geometria ornamental e decorativa; o Matos, que surge com novas proporções e cores inesperadas, numa subversão total de um clássico; e o Archive 1993, uma das nossas formas mais icónicas, que é agora re-imaginada numa mancha de cor.

Estão ainda de volta os icónicos Series 6558, uma armação que regressa depois de 20 anos do seu primeiro lançamento. É um símbolo de uma fusão da música, da Moda e da cultura das celebridades, uma armação que foi atualizada com uma excitante variedade de novos materiais e técnicas de construção, para uma nova e perspicaz geração que adora óculos de sol. Como designers, temos a possibilidade de recuperar o passado e criar o futuro. Reviver este design permitiu-nos fazer estas duas coisas, enquanto explorámos novas ideias e trabalhámos com materiais que não existiam há 20 ou 30 anos atrás.

Quem imaginam a usar os vossos óculos de sol? Imaginam alguma pessoa em concreto durante o processo criativo?
Não gostamos de fechar as nossas coleções em caixas e reduzi-las a etiquetas. Cada coleção é criada para ser usada por muitas pessoas, que têm em comum apreciar peças únicas, a qualidade dos materiais e o luxo que não é convencional. São pessoas que querem ter um estilo independente, e são elas quem mais nos inspira.

Começaram a trabalhar em Moda no início dos anos 80. Mais de três décadas depois, quão diferente está a indústria?
Começámos nesta indústria antes de as grandes casas de Moda terem licenças para criar óculos e óculos de sol. Ainda antes de estes serem considerados acessórios de Moda. Nós construímos um caminho, fizemos dos óculos objetos com estilo quando eram vistos apenas pela sua funcionalidade. Foi muito antes de existir o product placement e a oferta de presentes às celebridades.

Nesta altura as tendências ainda não tinham chegado às ópticas. Os verdadeiros pioneiros deste novo conceito começaram nos Estados Unidos: o Marvin Freeman com a Optica em Rodeo Drive, em Beverly Hills, e o Larry Sands com a Optical Shop of Aspen. Foi este o início para os designers de eyewear independentes, com estes dois visionários que se tornaram os nossos primeiros clientes e mentores. Mais tarde, em 1990, e com o apoio da Vogue US, o Christian foi o primeiro designer convidado para integrar o CFDA (Council of Fashion Designers of America), o  que acabou por impulsionar a percepção do eyewear como Moda.  

Se tivessem essa possibilidade, o que mudavam na indústria de Moda hoje? O que é que ainda está a faltar?
Temos de ser humildes com esta questão – quem somos nós para julgar a indústria de Moda atual? O comentário que temos a fazer é que é de enorme importância que o consumidor saiba o país de origem do que está a comprar, principalmente quando são óculos de sol, porque cobrem uma das partes mais importantes e sensíveis do corpo, os olhos. As nossas coleções são todas feitas em Itália.

Sentem que hoje existem mais designers a criar peças fora da caixa?
Relativamente ao eyewear a última década foi muito produtiva e viu emergir uma nova geração de designers muito talentosos. Eles têm de criar os seus próprios legados, nós temos o privilégio de já ter o nosso. 

Que designers admiram?
Iris van Herpen pela forma incrível como usa as novas tecnologias – foi um dos pontos altos da exposição Manus x Machina, na exposição no Costume Institute na primavera de 2016. Também Rei Kawakubo para a Comme des Garçons, pela sua genialidade anti-Moda, austera, por vezes desconstruída, e Madame Gres pelo seu modernismo, técnica e pelos vestidos esculturais, que foram absolutamente avant garde no seu tempo. E, claro, o nosso amigo Helmut Lang, que mudou a Moda nos anos 80 e 90 e deixou a sua própria empresa no pico da sua carreira.

O que ainda vos falta alcançar?
No nosso tempo a solidariedade é cada vez mais urgente. É altura de devolver à sociedade o que ela nos deu. Estamos a liderar o comité da edCFDA (eyewear designers of the Council of Fashion Designers of America) em Nova Iorque, e acabámos de lançar uma coleção coletiva e solidária de óculos de sol com dez designers. Os lucros vão reverter a favor da associação Fashion Targets Breast Cancer, que apoia a luta contra o cancro da mama. Queremos criar e associar-nos a mais iniciativas como esta.

A coleção The Deconstructed Bauhaus está disponível nas óticas Olhar de Prata, em Lisboa.

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