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Entrevistas 30. 10. 2017

Entrelaçadas

by Patrícia Domingues

 

Infelizmente, o cancro da mama não é uma luta de uma mulher só, mas, se fosse, Lynne Archibald seria o equivalente à mulher-maravilha. Falámos com a antiga Presidente e fundadora da Associação Laço que agora representa o Fundo iMM-Laço, sobre o que pode ajudar a travar as 1600 mortes anuais.

 

  

Li numa entrevista sua recente, que a Lynne acredita que a cruzada pela cura do cancro da mama pode estar no laboratório, no estudo das células e do ADN. Pode explicar o que está a ser feito em laboratório?

Estão neste momento a decorrer quatro projetos em laboratórios do Instituto de Medicina Molecular, em Lisboa, com o apoio do Fundo iMM-Laço. Dois destes projetos analisam o sistema imunitário e como este pode ter um papel fundamental na inibição do crescimento do tumor do cancro da mama, na formação de metástases, ou até como este pode ser uma preciosa ajuda na regressão ou eliminação dos tumores. Também estão a ser realizadas duas investigações no âmbito da genética dos tumores, uma que procura perceber qual o mecanismo que desencadeia metástases cerebrais. A outra foca na análise genética dos tumores para prever a resposta à quimioterapia em mulheres com cancro da mama em estádios iniciais, assim como a identificar o tipo de tumores com mais risco de metastização. Recentemente terminou um novo concurso do qual serão escolhidos mais projetos a decorrer no próximo ano com a ajuda do Fundo iMM-Laço. Anualmente o Fundo procura apoiar três projetos, no entanto este número depende do dinheiro angariado ao longo do ano. 

Em parceria com o iMM, a Laço criou o Fundo iMM-Laço. A que se deve esta junção e qual a finalidade do fundo?

Ninguém sabe quais são as causas que desencadeiam o cancro da mama por isso não podemos falar de prevenção primária – não existe uma vacina ou mesmo um comportamento que consiga garantir que nunca vamos ter cancro da mama. Isto é frustrante quando o que gostaríamos era de conseguir prevenir a doença. Por isso, criámos o Fundo iMM-Laço que está focado na investigação e tem como objetivo ajudar a encontrar as causas, para que no futuro possamos falar de prevenção ou mesmo de cura. Hoje, as doenças que podem ser curadas nos hospitais foram primeiro curadas nos laboratórios por cientistas. Precisamos de dar mais e melhores ferramentas aos profissionais de saúde que hoje fazem tudo que o podem, mas não têm uma cura para o cancro da mama. Esperamos assim sensibilizar a sociedade civil para a enorme importância que a ciência tem na saúde. 

Ao fim de tantos anos, parecem estar mais voltados para a investigação do que o rastreio (embora continue a salientar a importância deste). O que mudou? O que descobriram na sua jornada?

Há 20 anos, toda a gente achou que o diagnóstico precoce (prevenção secundária) ia resolver o problema de muitos cancros. A capacidade de hoje em dia, cada vez mais sofisticada de “olhar para dentro” do corpo permite encontrar anomalias muito mais cedo e isso tem sido fundamental na diminuição das mortes causadas por vários cancros, por exemplo o cancro colo-rectal e cancro do colo do útero.

Infelizmente a esperança que isto ia acontecer também com o cancro da mama tem sido frustrada. De certeza, o rastreio tem sido importante para detetar cedo alguns cancros da mama que iam desenvolver para um prognóstico pior mas em 2010 começaram a sair estudos a indicar que o impacto do rastreio nas mortes causadas pelo cancro da mama estava longe de ser o desejado. E ao longo dos anos muitos são os estudos que vão nesse sentido – deteção precoce é bom para alguns cancros mas sabemos que 30% dos casos, mesmo diagnosticados cedo e sendo bem tratados, vão regressar tornando-se em cancros metastáticos, ou seja, vão atingir outros órgãos do corpo humano. Ninguém morre de cancro da mama numa fase inicial mas essa não é a realidade para os que sofrem de cancro da mama metastático. Não gostamos como sociedade de falar sobre isso mas em Portugal, e em todos os outros países, o número de mortes por cancro da mama continua a subir. Mais de 1600 mulheres morrem todos os anos em Portugal com cancro da mama – mais do que quando o rastreio começou. Portanto alguma coisa não está a funcionar.

Podemos também falar em estilo de vida saudável, que é obviamente importante não só para evitar o cancro mas também um leque de outras doenças. Mas mais uma vez, estilo de vida saudável não chega para prevenir o cancro da mama. Pode baixar o risco, tal e qual como outros comportamentos que aumentam ou diminuem ligeiramente o risco, mas de modo global, não contado com os casos das famílias com uma mutação genética, e até percebemos melhor o cancro da mama, o azar continua a ser um fator importante.

Hoje, há pelo menos 5000 mulheres e as suas famílias a viverem com cancro da mama metastático, incluindo mulheres mais novas que nem tinham idade para fazer rastreio e que foram diagnosticadas logo no início com cancro da mama metastático. Fico zangada quando ouço a frase “prevenção, meio caminho andado” – gostava de saber qual é essa “prevenção”? O que é que estas 1600 mulheres deviam ter feito mais? Na sua grande maioria, fizeram tudo certo mas o cancro voltou na mesma e com pior prognóstico. Sendo a primeira causa da morte das mulheres em Portugal acho que a situação merece muito mais atenção.

Sabendo que o cancro da mama muitas vezes não dá sinais, a que devemos estar atentas? Quais são as armas que temos ao nosso alcance?

Mesmo não sendo as melhores, temos algumas armas:

- diminuir o risco com um estilo de vida saudável e ativa, sem fumo e sem álcool e com uma dieta variada e rica em frutos e legumes;

- fazer mamografia de dois em dois anos a partir dos 50 anos;

- ter atenção ao corpo todos os dias -  ao tomar banho, preste uns segundos de atenção às mamas e se notar uma anomalia, falar com o médico. 

Os sinais de suspeita são:um nódulo (caroço); o aumento progressivo e assimétrico de uma das mamas; alterações na pele (depressão, espessamento ou endurecimento da pele) localizadas; retração de um dos mamilos; corrimento (branco amarelado ou sanguinolento) mamilar.

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