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Enfants Terribles

©Rui Palma

Entrevistas 26. 4. 2017

by Tiago Manaia

 

Inspirados na amizade de Joana de Verona e Miguel Nunes, imaginámos uma história onde livremente desafiam as leis do sono. Um dia e uma noite a fotografar os enfants terribles do cinema português. A irmandade ficou registada. As fotografias inspiram-se de episódios de ficção mirabolantes, o que nos contam na entrevista é real. Fotografia: Rui Palma.

Estamos num Palácio em Lisboa. A equipa de nove pessoas da Vogue acaba de improvisar um camarim num minúsculo quarto luxuoso. Mal cabemos no espaço, em dez minutos tudo muda. Os vestidos são pendurados na varanda, as mesas de cabeceira transformadas em estúdio de maquilhagem, a casa de banho ora é zona de cabeleireiro ora é provador, o mini-bar serve para guardar fruta fresca. Os grooms do hotel tornam-se nossos cúmplices. Inventam cabides, multiplicam charriots. A varanda é agora uma grande mancha de cor, com roupa e acessórios a voar. A música que sai do telefone de Miguel Nunes contagia o ambiente. Ainda ninguém se esqueceu do seu olhar no filme Cartas da Guerra, contava os anos de Lobo Antunes em África, a preto e branco os olhos de Miguel adivinham-se da cor do mar. É ator desde a adolescência, das séries juvenis saltou para o cinema de Teresa Villaverde em Cisne. Há um percurso que desenha com mistério, há o magnetismo da sua presença. A lista de realizadores que quiseram filmar Joana de Verona é extensa. Marco Martins, Raoul Ruiz, Salaviza, Miguel Gomes, Botelho, Jorge Cramez. Não estão aqui todos. Tem ainda uma vida intensa no teatro. E, à hora do primetime invade as televisões – o público identifica-se, conquistou o mundo das telenovelas. Joana é leve, parece sobrevoar os espaços que atravessa. A leveza transforma-se rapidamente em intensidade, a magia existe nessas transições. Quando começamos a fotografar nos jardins do hotel sentimos o olhar intrigado dos seguranças. Discretos, olham pelo canto do olho. Há uma rave party que se improvisa para a imagem – inclui um banho de meia-noite na piscina.

No Instagram, o designer Riccardo Tisci acaba de publicar uma fotografia. Está no mesmo hotel onde fotografamos, numa outra ala. Na sua publicação Tisci escreve, “a amizade é mais rara que o amor”. A frase serve bem a cumplicidade que existe entre Miguel e Joana. São onze da noite, deixamos o palácio. Joana tem o cabelo molhado, apanhamos um táxi. Sente que está a ficar doente. Miguel atravessa a cidade atrás de nós, segue-nos cinematograficamente na sua mota até ao Cais do Sodré. Começamos então a entrevista.

Lembram-se da vossa primeira conversa e de como se conheceram?

Miguel Nunes: Eu lembro-me. Conhecemo-nos a trabalhar numa série de televisão.
Joana de Verona: Há onze anos...
M.N. O pessoal com quem estávamos a trabalhar estava a combinar beber um copo e a Joana disse-me: “então vá, dá-me o teu número”. Dei-lhe o meu número e ela gravou-o como Miguel Mano. Eu disse-lhe, “não, mas eu não sou teu irmão”. Acho que foi um pressentimento da Joana de que ia começar uma nova amizade.

Sentias que tinhas de tratar o Miguel assim?
J.V. Não faço ideia, tinha 16 anos, não me lembro. Mas lembro-me de que o Miguel a brincar disse, “eu não sou teu irmão, não me chames assim”.

Tens irmãos?
M.N. Tenho duas irmãs.
J.V. E eu tenho quatro irmãos. Sou a mais nova de cinco.
M.N. Ela queria mais um.

A cumplicidade entre vocês acontece quando?
J.V. Foi rápido, a amizade cresceu rapidamente. Eu e o Miguel passámos muito tempo da nossa vida um com o outro. Já morámos fora de Portugal juntos – em Berlim, a fazer um filme como irmãos. E fui morar para Paris e depois o Miguel também foi para lá.
Isso quer dizer que és tu a precursora, Joana?
J.V. Apesar de ele ser mais velho que eu, cumpro um bocado a função de irmã mais velha. (ironiza) Ele segue todos os meus bons exemplos, normalmente uns meses ou um ano depois de mim. Faz as mesmas coisas que eu, um bocadinho depois.

O que vos ligava na altura em que se conheceram? Miguel, estavas a estudar economia quando conheceste a Joana.
J.V. Eu estava a estudar teatro no Chapitô e Ciências Sociais e Humanas no secundário. A amizade no início não foi logo isto, foi uma miúda de 16 anos e um miúdo de 18 com uma dinâmica parecida. Longe de saber que ia ser isto. Isto é uma irmandade não é?
M.N. Entre nós não existe pudor em conversar sobre nada. Criticamo-nos um ao outro, pensamos sobre as coisas em conjunto também.

É uma conversa contínua?
J.V. Sim, cada vez mais.
M.N. Foi modificando muito com a idade.
J.V. Isso é que é bonito, nós na verdade estamos a crescer juntos há 11 anos.

Joana, sentes que foste responsável pelo Miguel se ter tornado ator? Ele estava a estudar outra coisa quando se conheceram na série da TVI. Miguel, quando é que decides que vais ser mesmo só ator?
J.V. Eu não sei responder a isso tudo...
M.N. Sim, foi um bocado responsável. A Joana concorreu à Escola Superior de Teatro, no ano a seguir incentivou-me a concorrer também. Fui-me interessando mais pelo teatro por causa dela, sobretudo quando comecei a ver as coisas que fazia no Teatro do Vestido. Eu comecei a trabalhar em séries muito novo, quando tinha doze anos.

Como começaste a fazer séries?
M.N Uma pessoa encontrou-me uma vez na rua, a mim e aos meus primos, perguntou se não queríamos fazer parte de uma agência. Não pensava que se pudesse tornar na minha profissão. Pensei nisso mais tarde porque estava a fazer um trabalho em televisão e tive algumas dificuldades. Pensei que teria de ganhar mais ferramentas para poder dominar um bocadinho mais as coisas que tinha de trabalhar.

Foram feitos pactos de amizade ao longo destes 11 anos?
J.V. Bom, eu acho que não. A única coisa que existe é a liberdade, sabendo que somos o melhor amigo um do outro. Apesar desta relação de irmandade muito forte, há a liberdade total para o Miguel fazer outros amigos e dedicar o tempo dele às pessoas que quer. E nunca há uma espécie de cobrança. O único pacto que existe, nem sequer é um pacto consciente ou verbal, é sermos sinceros um para o outro. E se houver coisas que ele faz que eu não consiga perceber, eu tenho de o verbalizar. E vice-versa — se discordarmos, discordamos. Temos a liberdade e abertura para o fazer, isso é viver esta amizade.
M.N. Nós, quando estamos juntos, atraímos muitas pessoas novas que depois vão permanecendo nas nossas vidas. São coisas que acontecem do acaso.
J.V. Em qualquer parte do mundo.

De certa forma, vocês foram descobertos pelo público a representar na mesma série. E depois o vosso percurso evoluiu de forma semelhante, ligando-vos os dois ao cinema de autor. Um ator pode ser militante nas escolhas que faz?
J.V. Sim, completamente: quando depositas a tua alma e essência enquanto pessoa e artista ou criador. Este trabalho é um lugar tão difícil de afastar ou de dissociar da tua vida. As coisas estão tão ligadas e contaminam-se de tal forma, que quando fazes opções artísticas e sugeres coisas enquanto criativo elas denotam aquilo que pensas.
É o teu olhar sobre o mundo, a maneira como vês as coisas. É óbvio que existe uma militância nos trabalhos que aceitas fazer e nos trabalhos que não aceitas fazer. Ou seja, tudo isso é ser-se militante, não é?
M.N. Acho que podes pôr essa militância no teu trabalho, mas ao mesmo tempo deves deixar espaço para a personagem que estás a criar poder ser livre. Senão vais estar sempre a julgar as próprias coisas que estás a fazer. Tens de te entregar de alguma forma a lugares que não conheces.

Como é que acontece essa entrega?
M.N. Passa por atribuíres confiança a pessoas que não conheces. Neste caso, atores e realizadores, ou artistas com quem te vais cruzando.

Miguel, para rodar o filme Cartas da Guerra do Ivo Ferreira foste para África durante uns meses. Nesses meses tiveste pouco contacto com o teu próprio mundo. Houve nesse abandono uma sensação maior de liberdade?
M.N. A liberdade, no meu caso concreto e no trabalho, tem a ver com uma espécie de acontecimento entre duas pessoas. Entre dois atores ou vários atores e isso é muito especial. Tem a ver com isso.

E tu, Joana? No filme Mil e Uma Noites do Miguel Gomes, sentiste isso? Esse mesmo sentimento de liberdade e abandono. Pode ser assustador?
J.V. Eu não sei se percebi a tua pergunta. Ou seja, falas de momentos de liberdade enquanto se está trabalhar. E de me assustar com o facto de me sentir tão livre e tão entregue que posso esquecer-me da realidade, é isso?

A entrega pode dar-te essa liberdade. Pergunto só se não é assustador também?
J.V. No caso de África com o Miguel tem a ver com um contexto especifico, com uma distância que não é a realidade dele.

Tu nunca sentiste isso?
J.V. Esse medo de me entregar tanto?

O abandono. Não precisa de ser medo obrigatoriamente. Era algo que eu estava a sugerir.
J.V. Eu no filme do Miguel Gomes senti-me muito entregue, sim. Do ponto de vista da liberdade e da criação. No filme Como Desenhar um Círculo Perfeito do Marco Martins, senti-me mais do que entregue. Naquele momento era só aquilo. A nossa vida mudou por causa da entrega, da família que se criou. Foi mesmo uma experiência interessante a nível profissional e pessoal. Está tudo relacionado: bebes da vida para usar no trabalho, e o trabalho também deixa lastros na tua vida. No espetáculo que fiz agora no Teatro Nacional com a Mónica Calle houve momentos de liberdade total. Falo do último dia do espetáculo. Aquilo não foi transe, porque nós estávamos muito conscientes do que estava a acontecer. Não estávamos era a acreditar no que estava a acontecer! Foi muito surpreendente, muito poderoso e transcendente. Foi um estado de graça, uma comunhão total.

Nesse espetáculo estavas nua. Há quem ache que estar nu em público é precisamente libertador. E há quem ache o contrário. O que sentiste?
J.V. Foi ótimo porque fez todo o sentido. Este espetáculo foi concebido connosco com roupa. Depois, e claramente numa tentativa de anti-barroco ou anti-adornos, fomos ao essencial do movimento – do rigor e da respiração. Fomos ao rigor de um grupo num coletivo que se tenta expressar com individualidade. Este espetáculo tinha de ser pensado assim, com estes corpos de mulheres nuas. Era o único lugar onde este trabalho estava certo. A roupa seria uma proteção. Para mim foi muito mais libertador no mesmo espetáculo poder fazer 45 minutos do Bolero de Ravel em loop ou tocar Beethoven num contra baixo e fazer pontas de bailarina. Mais isso do que estar nua.
Queria só juntar uma coisa relativamente ao abandono: Eu acho que as pessoas podem entregar-se muito. E encontrar um momento de transcendência e superação, onde há uma liberdade extrema. Não têm de perder completamente a noção da realidade. Eu acho que é possível estares num momento completamente único e fortíssimo e ainda assim consciente. Acontece a todos fazer uma cena que de repente vai para um lado que não estavas à espera. Ali cria-se uma sinergia não expectável, que não estava controlada. Ficas surpreendido.

Às vezes têm medo do que sentem ?
J.V. Estás a falar no trabalho ou na vida?

Tu trabalhas com a tua vida.
J.V Mas num sentido lato?
M.N Sim, assusta. Às vezes assusta.

Tu estás sempre a separar, Joana?
M.N. Há momentos assustadores, mas isso também pode ser proveitoso para o teu trabalho. Concordo com o que a Joana diz, é um processo mais ou menos consciente que tu alimentas, convém não ter medo.
J.V. Deixa-me dizer uma coisa: na vida já me assustei com sentimentos ou sensações. Porque nós somos muito pérfidos enquanto pessoas. O ser humano é um dos animais mais pérfidos, mais corrompido que existe. É educado e formatado através de uma sociedade que dita como se deve ser. Dita as tuas normas de comportamento e como devem ser em relação aos outros. Tu tens 50% de um potencial humano incrível, como também tens um potencial humano negro e negativo. E como nós não nos conhecemos totalmente, é normal que te surpreendas com sentimentos que desconheces. No trabalho tento aceitar as coisas que acontecem sem julgamento e sem esse medo. Não me assusto, nunca me assustei por ter sentido determinada coisa. Quando estás ali em brainstorming e em processo há determinadas coisas que vêm que podem ser usadas. Às vezes consegues qualificar, outras vezes não. Nunca me assustei com o que senti.

O ator para existir abandona-se quase sempre à visão de alguém, em geral do realizador ou de um encenador. E vocês têm uma coisa em comum, tu, Joana, estudaste realização de documentários e o Miguel está agora a realizar o primeiro filme dele…
J.V. O Miguel faz tudo o que eu faço depois, mas tudo...

O que provocou isso? Essa vontade pode vir do desejo de não depender do outro, neste caso de um realizador ou de um encenador.
M.N. O que eu estou a fazer agora tem a ver com servir-me de uma espécie de memória que eu tenho de um acontecimento. De algo que se passou no verão passado em Lisboa, uma série de pessoas que chegaram à cidade vindas de fora, deixaram aqui laços fortes. Interessa-me saber até que ponto me posso servir dessa memória para criar uma ficção.
J.V. Eu estou no filme, claro.
M.N. A Joana também está no filme.
J.V. No meu caso o desejo de realização não é um desejo de controlo. Também não é estar farta de ser um objeto de desejo profissional ou por parte de outrem. Eu acredito e tenho tido muita sorte nas pessoas com quem trabalho. Para além de ter aprendido imenso, acho que são exigentes, talentosas e ricas enquanto espírito criativo. Isto não é presunção, realmente tenho tido a sorte de trabalhar com pessoas que admiro e que me dão a possibilidade de ter o meu cariz de criadora. Também não tinha qualquer objetivo em “subjugar” pessoas ao meu comando. Porque ainda por cima estudei documentário. Portanto é antropologia, é aceitar ao máximo e escolher o que queres mostrar da vida de uma pessoa.
Ser músico de uma orquestra é muito potente, mas ser maestro é muito bom. Ser interprete é incrível, ser intérprete-criador ainda mais. Pensar um filme, ter ideias… Filmar e montar… É ver o teu filho crescer. É um poder muito grande e é exigente de outra forma. Ver o resultado final é mesmo incrível. Fiquei muito viciada nessa sensação.

Andas à procura deste sentimento, Miguel?
M.N. Acho muito engraçado a Joana falar do poder. Eu acho que isso de ser maestro de uma orquestra ou de um filme pode ter uma dimensão humana brutal. Enquanto ator, tive a sorte de encontrar pessoas que têm uma dimensão humana muito grande. Os filmes que fazem são momentos muito especiais por causa disso. São pessoas capazes de gerir outras pessoas de uma forma formidável. Se calhar para mim o desafio de realizar é esse.

Qual é a relação que tens com o poder, Miguel?
M.N. É estranha, não te sei dizer muito bem o que é isso do “poder”. Poder fazer alguma coisa?

O poder de proibir. As leis, por exemplo.
M.N. Não sei. Talvez seja um bocado egoísta, mas acho que faço tudo o que quero.

Há alguma coisa que vos dê vontade de ir para a rua gritar?
M.N Imensa coisa. O mundo está todo baralhado, confuso. Sobretudo os países maiores, capitalistas. Que dominam a economia mundial que de alguma forma sentimos muito levemente em Portugal. Às vezes é difícil pensar sobre isso, e nem nos apercebemos, mas sofremos consequências diretas.

Voltando às coisas que nos são impostas. Quando mexem na vossa privacidade, sentem que vos estão a roubar a liberdade?
J.V. Não. Eu acho que é exatamente o contrário e acho que pode ser um grande ensinamento. Se a tua privacidade está a ser de alguma forma exposta e não foste tu que o escolheste, isso já está a acontecer, é um facto adquirido. Não controlas, não vais mudar isso. É completamente incontrolável. Acho que a grande piada no meio disso tudo é...
M.N É que não é a tua privacidade...
J.V. Tens sempre um espaço íntimo de privacidade que é só teu e ninguém tem acesso a ele. E é um ponto de vista de alguém sobre isso. A tua privacidade, do teu âmago, só o teu núcleo duro é que conhece. E depois é óbvio que manter a liberdade é revelador do teu caráter e força enquanto pessoa.

A liberdade excita os outros?
J.V. Isso não sei. Eu não acho que tenhas de te coibir, não sentir-te castrado. A tua liberdade não tem de ser posta em causa.

Um ator tem de aceitar ser objeto de todas as projeções?
J.V. Um ator não aceita nada. A partir do momento em que fazes um filme e o filme está no mundo, já não controlas. Não fazes ideia de quem te foi ver ao teatro, a projeção é de cada um e é individual. Portanto a mim não me interessa. Nem fico chateada com isso. As pessoas têm o direito de receber as coisas como querem. E eu tenho o direito de não querer saber sobre isso.

Miguel, sei que tens histórias de pessoas que foram ver o Cartas da Guerra, que estiveram mesmo em África. Queres partilhar algumas?
M.N. Sim. Aquilo teve uma beleza especial, a maior parte das pessoas que foram ter comigo estiveram nessa guerra. Partilharam o que viveram lá comigo.

Foi esmagador?
M.N. Claro. Nós tivemos pessoas a chorar a seguir ao filme e que ainda assim tinham coragem de falar do que lá passaram. Tivemos pessoas que desistiram a meio das sessões, porque tinham perdido familiares naquela guerra. E no que diz respeito à relação do filme com a obra do escritor (António Lobo Antunes) e com aquilo que as filhas dele nos confiaram, foi muito bom perceber que tinham ficado satisfeitas com o que fizemos. O filme tem essa importância de revelar factos de uma história recente de Portugal de que não se fala assim muito.

Falaste com o Lobo Antunes?
Conheci-o há duas semanas. Disse-me que ainda não conseguiu ver o filme. Já viu o trailer, mas por ser tão forte não consegue ver o filme.

Há uma partilha grande nas histórias de rodagem que contam um ao outro? Falaste alguma vez com a Joana enquanto estavas em África?
M.N. Não falei com muita gente, nós não tínhamos rede quase. Estávamos isolados com as pessoas da equipa e as pessoas da aldeia onde filmávamos.
J.V. Falámos uma vez ou duas. Mas contou-me as coisas importantes depois.
M.N. Há essa coisa muito especial quando fazes um filme, em que quase abdicas da tua própria vida e das pessoas que te rodeiam, para construíres uma outra com as pessoas novas que entram nesse trabalho. E depois quando acaba cada trabalho e foi bom, tens uma espécie de regresso.

Quem é que vocês admiram profundamente? Com quem gostariam de falar?
M.N. Gostava muito de falar com o Agostinho da Silva, que já não é vivo.
J.V. Adoraria poder ter tido a oportunidade de conversar com a Nina Simone, perceber aquela mulher, aquela força. De certeza que duas horas com ela a sentir aquela vida deveria ser incrível. Adorava ter conversado com o Artaud, gostava de o ter visto escrever.

O que é que lhe dizias?
J.V. Não sei se gostava de lhe dizer alguma coisa, gostava de o observar.

Lembram-se da primeira vez que se sentiram livres?
J.V. A primeira vez que te sentes livre pode ser qualquer coisa como a primeira vez que sais de casa e dás uma volta e não sabes quando voltas. Nem sabes para onde vais, nem quem vais encontrar. E esse sentimento de andar à deriva – perdida, vou citar a Clarice Lispector, “o perder-se também é caminho”. O tempo está também direcionado com a liberdade, hoje em dia nós não temos tempo. O nosso tempo interno é um caos, o tempo com as pessoas é limitado porque metade do tempo estás a olhar para o telefone. Se calhar sentir-me livre tem a ver com isso, permitir-me ter o meu tempo interno.
M.N. Eu estava a pensar que para mim é uma coisa que está a acontecer agora. Eu desligar-me de imensas coisas. Contratos, coisas que uma pessoa vai adquirindo ao longo da vida. Tem a ver mais com isso. Há tantas coisas que te vão anexando. Estás a viver numa cidade e tens de ter uma casa, coisas do género.

Porque queres fazer isso?
M.N. Lá está, porque precisas disso?

E porque queres não precisar?
M.N. Porque me quero sentir mais livre ainda.

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