Editorial "A Mãe" (Natureza) é que sabe, da edição Wisdom da Vogue Portugal, publicada em setembro de 2025.
No mundo encantado dos sonhos, as regras são meras sugestões que podem (ou não) ser seguidas. Quando fechamos os olhos, entramos num reino onde a lógica parece ser barrada à porta em nome de um conceito mais abstrato - mas não inteiramente conceptual. É um assunto complexo e, por vezes, quase sem nexo, de tão ténue que é a linha que separa a vivacidade dos sonhos do surrealismo que os permeia. Mas, verdade seja dita, é esse mistério que os torna tão cativantes.
Quem nunca adormeceu e deu por si dentro de um sonho incrivelmente real, cuja narrativa tem o poder de nos abalar de tão surpreendente? Exato, I rest my case. À primeira vista, as questões que se impõem são simples, mas imperativas: porque é que sonhamos? O que é que acontece ao nosso subconsciente quando o fazemos? E, acima de tudo, será que significam realmente alguma coisa? Ao longo da história, foram várias as teorias que surgiram em torno deste tópico. Uma das escolas de pensamento que se mantém mais relevante nos dias de hoje é a de Sigmund Freud, um dos mais reconhecidos neurologistas e fundador da psicanálise moderna, que defende que os sonhos são representações dos nossos desejos e pensamentos mais íntimos. Entre a ciência e uma abordagem holística de bem-estar, o volume do que se sabe atualmente sobre o que acontece no nosso cérebro quando dormimos está em constante crescimento. Já quando se trata de falar de sonhos, entramos num espaço de conhecimento mais distante, quase ambíguo — mas não totalmente inacessível.
“Quando adormecemos, há uma diminuição da atividade em partes do nosso cérebro, nomeadamente no córtex pré-frontal, responsável pelos processos de planeamento, raciocínio e autocontrolo”, diz-nos Stephanie Gailing, autora do livro The Complete Book of Dreams e astróloga de bem-estar. Quando sonhamos, o nosso subconsciente — que está ligado às emoções, à memória e à imaginação — funciona com maior liberdade. “O subconsciente passa a atuar como uma espécie de gestor noturno da nossa mente”, continua. Segundo a especialista, os sonhos têm efeitos positivos tangíveis para o nosso bem-estar. Ao sonhar, processamos emoções e experiências difíceis, consolidamos memórias e fortalecemos os nossos níveis de aprendizagem. Em termos simples, os sonhos reformulam as nossas percepções e perspetivas sobre os desafios do dia a dia, ao mesmo tempo que reduzem os níveis de stress e aumentam a consciência que temos sobre nós próprios. “Uma forma de pensar nos sonhos é vê-los como uma lupa — na medida em que evidencia pensamentos e sentimentos que a mente acordada nem sempre consegue perceber de forma clara — e também como uma bússola — uma ferramenta que nos permite usar essa nova consciência adquirida para orientar a nossa vida com uma maior clareza, confiança e conhecimento”, conclui.
A curiosidade e o conhecimento andam (e sempre andaram) a par e passo — e, no que aos sonhos diz respeito, a mesma filosofia aplica-se. Em nome de uma saúde mental que passa pela paz de espírito, analisar e interpretar os diferentes elementos que compõem cada sonho torna-se uma experiência terapêutica com resultados benéficos a nível de bem-estar. Gailing é da opinião de que manter um registo dos nossos sonhos, através do ato de journaling, é sinónimo de criar um repositório da nossa intimidade. “Se os sonhos nos oferecem perceções sobre o nosso subconsciente, ao compreendermos melhor essa parte de nós, podemos trabalhar no sentido de um bem-estar mais holístico,” diz. A forma mais fácil de identificar os elementos que nos ajudam a interpretar os nossos sonhos é, segundo a astróloga e autora, manter um diário de sonhos. Nesta prática, que considera fundamental, recomenda incluir não só um espaço para escrever o sonho completo, como também secções laterais onde se possa assinalar símbolos, o nosso estado emocional durante o sonho e ao acordar, o que aconteceu no dia anterior, imagens recorrentes e até outros fatores como a fase lunar ou, caso aplicável, o momento do ciclo menstrual. “Fazer isto permite observar vários sonhos ao longo do tempo e perceber se existem padrões que se repetem entre eles”, explica. Mas a verdade é que, quando se fala em diários de sonhos, para muitos, esta prática há muito que deixou de ser uma experiência analógica. Numa era cada vez mais regida pelo consumo rápido e gratificação instantânea que advém do avanço da tecnologia, a inteligência artificial passou a infiltrar cada faceta da vida quotidiana. Plataformas como o ChatGPT tornaram-se aliados assíduos e conselheiros íntimos de quem se posiciona mais e mais distante da conexão humana. Hoje, com um mero prompt, este tipo de software assume o papel de uma infinidade de profissionais, sem ter em conta estudos, conhecimentos e, acima de tudo, noções de ética. No que toca à análise de sonhos para um melhor bem-estar holístico, coloca-se a questão de perceber se se pode, ou não, confiar na inteligência artificial para fazer (bem) a tarefa, contornando então todo o processo de identificação de elementos através do journaling e de um processo de reflexão interior. “Pessoalmente, não penso que devêssemos recorrer à IA para analisar os nossos sonhos, porque acredito que os sonhos são algo sagrado”, diz Gailing. Segundo a astróloga, estas plataformas podem dar-nos uma lista do que certos símbolos significam. Mas isso pode não corresponder ao que o sonho de alguém realmente significa, já que os sonhos funcionam na base da individualidade e intimidade de cada um. “Claro que se pode dar muitos detalhes à IA, mas isso implica partilhar uma grande quantidade de informações pessoais, o que pode ser desconfortável ou dissonante para muitas pessoas”, explica.
Os sonhos têm efeitos positivos tangíveis para o nosso bem-estar. Ao sonhar, processamos emoções e experiências difíceis, consolidamos memórias e fortalecemos os nossos níveis de aprendizagem.
Nos sonhos, a memória é turva e o controlo dissipa-se. O tempo assume uma misticidade que resiste à lógica, os cenários são dignos de uma produção entre o fantástico e o cinemático, as narrativas carecem de estrutura. É um mundo difícil de explicar, provavelmente porque, paradoxalmente, é também um mundo incrivelmente fácil de esquecer. “A questão de porque é que a nossa memória dos sonhos é tão nebulosa não é ainda totalmente compreendida”, conta a astróloga. Do que se sabe, pode ter a ver com diversos fatores. Segundo Gailing, um deles é a fisiologia — já que alguns dos transmissores necessários para transformar a memória de curto prazo em memória de longo prazo assumem níveis baixos enquanto sonhamos, criando um bloqueio inerente à fixação dos sonhos na mente.
A desregulação do sono contribui também para a dificuldade de nos lembrarmos do que sonhamos. É durante a fase de sono REM que a investigação científica pensa que surgem os sonhos mais vívidos e, por consequinte, mais memoráveis. Esta é uma fase que ocorre com maior predominância nas primeiras horas da madrugada, por isso, as pessoas que tendem a não dormir durante períodos prolongados ou que sofrem de algum tipo de insónia são mais propícias a ter uma dificuldade acrescida em recordar os seus sonhos, devido a não estarem a completar ciclos de sono REM completos. A especialista acredita também que o facto de grande parte dos sonhos serem difíceis de reter na memória seja uma espécie de mecanismo de defesa por parte do cérebro. “Se partirmos da perspetiva de que os sonhos nos oferecem perceções sobre o nosso subconsciente e sobre emoções que descartamos por serem complexas de aceitar ou de lidar com, faz sentido que os sonhos sejam difíceis de recordar. É possível que tenhamos algum mecanismo de defesa interno que se esforça por os manter afastados da nossa mente consciente”, reflete. “Além disso, a maior parte das nossas mentes está sintonizada com o pensamento racional do hemisfério esquerdo do cérebro, no qual confiamos durante a vida desperta. Mas os sonhos desafiam o comum, são visuais, ilógicos e não seguem padrões comuns”, continua. “É daí que surge o desafio (e a dificuldade) em traduzir essas imagens e defini-las em palavras, sobretudo num curto espaço de tempo. Aqui, o tempo é essencial, pois há estatísticas que indicam que, em média, ao fim de cinco minutos, esquecemos 50% do que sonhámos e que, ao fim de dez minutos, apenas cerca de 10% permanece na memória”, conclui.
Os sonhos surgem diretamente do nosso subconsciente, e a falta de controlo que sentimos sobre mesmos é evidente e um pouco frustrante. No entanto, segundo Gailing, há algumas circunstâncias nas quais é possível manter algum controlo enquanto sonhamos, nomeadamente durante os sonhos lúcidos e graças à prática de incubação de sonhos. “Nos sonhos lúcidos, estamos conscientes de que estamos a sonhar — ou seja, percebemos que estamos num sonho e conseguimos controlar vários elementos, incluindo o ambiente, as personagens, as ações, entre outros”, explica a astróloga e autora. Por sua vez, “a incubação de sonhos é uma prática que consiste em definir intenções antes de dormir”. O processo passa pela concentração num tema específico que se deseja explorar e, de forma consciente, pedir aos nossos sonhos que nos tragam consciência ou esclarecimento. “Aqui, não temos necessariamente controlo total sobre os nossos sonhos, mas podemos, de certa forma, orientá-los para se centrarem em algo que nos interessa”, diz.
O que significam realmente os sonhos? Um guia prático
Conseguir identificar os diferentes elementos que compõem os sonhos e chegar a alguma conclusão sobre o que estes possam significar é um ato extremamente pessoal e íntimo. Tal como Stephanie Gailing defende, “os sonhos são muito pessoais e o seu significado depende de quem sonha, da sua vida e do que está a atravessar, [por isso], embora diferentes temas ou símbolos possam ter um significado arquetípico, sinto que é sempre importante refletir sobre o que o sonho significa pessoalmente para quem sonhou”. A astróloga refere também que é crucial olhar para a forma como alguém reage ou responde a um sonho, reafirmando que o contexto é realmente muito importante. Ainda assim, segundo a especialista, há uma série de temas e tipos de sonhos que parecem ser bastante comuns e identificados em inquéritos sobre sonhos como transversais a várias pessoas e culturas.
Sonhar que se está a ser perseguido
Neste tipo de sonhos, é provável que, em modo mente desperta, os diferentes elementos se traduzam numa sensação constante de falta de controlo ou num medo consciente de que alguém o quer prejudicar. Por outro lado, pode também representar que algo (ou alguém) está ativamente a tentar chamar a sua atenção.
Sonhos de quedas
Se sonhar que está a cair, ou prestes a cair, tal pode indicar que se sente fora de controlo na sua realidade consciente. É também frequente que sensações de medo ou terror se traduzam neste tipo de sonhos.
Sonhar que não se está preparado para uma tarefa (ou a tentar fazê-la repetidamente)
Estes sonhos tendem a significar falta de confiança nas suas capa- cidades, mas estão também associados a questões de ansiedade, nomeadamente no que toca ao desempenho pessoal.
Sonhos com morte ou com alguém que já morreu
Apesar do significado mais imediato de sonhar com a morte ser o medo de morrer, este tipo de sonho pode assumir diferentes abordagens e resultados. Se sonhar com alguém que já morreu, é provável que deseje encontrar uma forma de tentar reconectar-se com a memória dessa pessoa, e que se veja obrigado a confron- tar-se com o facto de que sente saudades dessa relação. Por outro lado, se o sonho estiver relacionado com a morte de alguém que ainda está vivo, pode refletir um processo de luto ou simbolizar o fim de uma fase de vida e o início de outra.
Sonhar com dentes a cair
Este é um dos sonhos mais comuns e tende a refletir um momento de renascimento e transformação. Pode também simbolizar a falta de controlo que sente sobre as mudanças que estão por vir.
Sonhar que está a voar
Ligado a um desejo de aventura e procura por liberdade, sonhar que se está a voar simboliza frequentemente uma sensação de estar pouco assente ou enraizado na sua vida atual.
Sonhar que está nu em público
Este tipo de sonho tende a ser uma manifestação do sentimento de vulnerabilidade que sucede a uma situação embaraçosa. Caso tenha passado por algo do género recentemente, sonhar que está nu em público pode ser uma forma do subconsciente processar o acontecimento de forma mais saudável.
Sonhos com gravidez
Sonhar com uma gravidez pode ter significados bastante distintos. Por um lado, este tipo de sonho pode espelhar uma diversidade de sentimentos relativos à criatividade. Por outro, há pessoas que têm sonhos premonitórios e ligados à intuição. Para algumas pessoas, este tipo de sonho pode representar um conhecimento profundo de que estão grávidas, ou simplesmente refletir um desejo íntimo, quiçá ainda não verbalizado, de engravidar.
Sonhos recorrentes
Gailing afirma que os sonhos recorrentes são bastante comuns, e que muitas pessoas parecem tê-los. A astróloga acredita que são uma espécie de sinal de alerta para algo que o nosso sub- consciente quer que prestemos atenção, como uma situação por resolver. “É importante prestar atenção aos sonhos recorrentes”, explica. “Muitas vezes, ao dar-lhes espaço e atenção, a inspiração inconsciente torna-se mais clara e, a partir daí, é possível trabalhar nessas questões a um nível consciente. Se houver resolução, o sonho pode deixar de aparecer com tanta frequência — ou até desaparecer — já que a sua missão parece ter sido cumprida”.
Pesadelos
Segundo a astróloga e autora, os pesadelos definem-se por serem sonhos perturbadores nos quais nos sentimos ameaçados ou profundamente angustiados. “Muitas vezes, provocam medo ou ansiedade e, devido à sua forte intensidade emocional, acabam por nos acordar — o que explica a razão de ser frequente lembrarmo- -nos deles de forma tão vívida”, explica. “Vivemos tempos muito desafiantes (...). Há muita coisa para o subconsciente processar ao longo do dia”, continua. Sob essa perspetiva, os pesadelos podem dar-nos pistas sobre conflitos psicológicos que ainda estão por resolver; no entanto, quando são recorrentes ou muito frequen- tes, podem estar associadas a questões de stress pós-traumático, ansiedade, depressão ou períodos de stress profundo.
“Para sonhar bem, temos de dormir bem”, diz Gailing. Dormir o suficiente e com boa qualidade não só nos dá mais energia e clareza para o dia a dia, mas, tal como nos mostra a investigação científica, é também fundamental para a saúde e o bem-estar. “Se conseguirmos processar melhor as coisas na nossa vida num estado desperto, é menos provável termos sonhos tão perturbadores”, continua. Praticar uma boa higiene de sono — que se assenta em fatores co- mo manter horário regulares de sono, transformar o quarto num espaço tranquilo e acolhedor, evitar comer muito perto da hora de deitar, reservar um tempo para desacelerar antes de dormir, medi- tar e limitar a exposição à luz azul dos dispositivos — é essencial para dormir uma noite bem dormida. É quase uma máxima que a astróloga defende: “ter a mente limpa e calma é um estado muito bonito para se estar quando nos deixamos embalar para o sono”.
Originalmente publicado no The Sleeping Issue, a edição de abril de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.
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