Fotografia: Iglesias Más
"Não sou nenhum especialista, mas o desfile (apesar de ter sido uma tortura e de mal poder esperar que acabasse) foi maravilhoso". O cineasta espanhol foi um dos convidados para a apresentação da última coleção feminina prêt-à-porter da marca liderada por Jonathan Anderson.
A visão particular de Pedro Almodóvar do desfile da Dior outono/inverno 2026
Vinte minutos de beleza insuportável. Assim poderia ser intitulado o desfile da Dior, com o seu novo diretor criativo Jonathan Anderson. Ninguém imagina que, no inverno, – e, entre quatro paredes no meio de Paris – possa fazer 20 graus de temperatura. Entre o sol direto e a estrutura criada para o desfile ao redor do lago do Jardin de Tuileries, a temperatura aumentava cada vez mais devido ao efeito estufa. Eu e Charlize Theron estávamos sentados muito próximos – não fosse o metro quadrado em Paris, independentemente das circunstâncias, sempre caro e minúsculo. Na mesma fila, o calor atormentava também Anna Wintour, Pharell Williams e muitas outras celebridades que, por serem quem são, escaparam ao lugar onde o sol batia mais forte naquele dia de inverno parisiense. Ninguém esperava que a meteorologia não percebesse de Moda — e o clima acabou por ser de verão.

Pedro Almodóvar, no momento em que redigia esta crónica
Iglesias Más
Descobrimos isso assim que chegámos. Eu tinha vestido uma espécie de casaco triplo, todo de lã, muito bonito, mas de inverno. Começámos a fugir do calor, mas era impossível. Na minha fuga, encontrei Marisa Berenson, uma beleza eterna, e conversámos sobre como nos conhecemos. Foi no Festival de Cannes, em 1988. (Eu tinha ficado famoso de repente, porque o comité de seleção tinha rejeitado Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos e o filme tornou-se um dos mais procurados). Conhecemo-nos num desses eventos paralelos que florescem em volta do festival. Era um programa dirigido por Frédéric Miterrand, sobrinho do presidente socialista, e falava de fenómenos esotéricos, não me lembro o nome. Eu estava sentado numa mesa colorida, com Marisa Berenson e Silvana Pampanini, que já se tinha tornado ela própria num fenómeno esotérico.
Mitterrand dirige-se a Marisa e pergunta-lhe sobre a sua obra-prima Barry Lindon, onde ela reconhece que Stanley Kubrick não lhe disse uma única palavra para a dirigir. As velas que a iluminavam tinham sido muito mais dirigidas do que ela própria. Eu intervim para lhe mostrar até que ponto sou um realizador exigente para com os atores. Mitterrand perguntou-lhe depois sobre outro mestre, Luchino Visconti. Este, segundo Marisa, dirigia melhor, quase tanto quanto cuidava dos adereços. Diz a lenda que, para as cenas de Senso em que a sua protagonista, a sofredora por amor Alida Valli, se sentava à frente do seu boudoir, cheio de joias e produtos de beleza. Ele tinha três guiões só para dirigir todos os elementos do boudoir. Assim era o mestre Visconti com os detalhes.
No resto dos filmes que nós fazemos, um guião é suficiente e dá para todo o filme. Falando do mestre Visconti e Morte em Veneza, uma belíssima Berenson interpretava a esposa do músico von Aschenbag, que se apaixonava perdidamente pela beleza do efebo Tadzio. O jovem Björn Andrésen, que o interpretou, teve de carregar pelo resto da vida o fardo de ser o jovem mais belo do mundo. Björn e Marisa tornaram-se grandes amigos na vida real, e ela pôde contar a Miterrand a existência sombria do seu companheiro, amaldiçoado para sempre pelo estigma de Tadzio. A vítima na vida real de Morte em Veneza é o jovem e não o seu admirador maduro, o músico Gustav von Aschenbag, como diz o romance de Thomas Mann. O cinema tem algo de presunçoso, embora, neste caso, fosse a beleza deslumbrante que se extinguiria no final. Andrésen acabou por morrer jovem, comentou Marisa Berenson, cuja lembrança a entristecia. Todos os que estavam presentes tinham lido a notícia da sua morte; todos, exceto o mágico Miterrand, que, como Orfeu com Eurídice, desceu ao submundo e trouxe-nos vivo e de boa saúde um Björn Andrésen maduro. Tão vivo que Marisa quase teve um ataque cardíaco. Tudo tinha sido um conjunto de notícias falsas, numa época em que ainda não existiam as redes sociais. O jovem Tadzio tinha sofrido muito, mas ainda estava vivo.
Pedro Almodóvar e Pharrell Williams / O realizador com Marisa Berenson
Iglesias Más
Cumprimentei Pharrell Williams, muito simpático e sentado ao lado da eterna Anna Wintour, que também cumprimentei. Com Pharrell, relembrámos um jantar com Penélope [Cruz] em 2006, quando ele estava a desenhar uns moletons extra grandes com padrões de diamantes e teve a gentileza de me enviar dois para o hotel — tudo isso enquanto procurava o meu lugar. Encontrei-o ao lado de Charlize Theron. Impecável, elegante e perfeita, toda de preto, com uma espécie de capa de gaze e saia de couro. Assim que se sentou, olhou à sua volta e, como por magia, apareceu a sua assistente com um lindo leque preto. Naquele momento, pensei que aquela assistente acabara de ganhar o prémio de melhor assistente do evento por materializar aquele leque que todos os outros invejávamos.
Eu já sabia de antemão que Charlize seria minha companheira. Por isso, pedi à Bárbara, a minha assistente, que me dissesse como se dizia sarampo em inglês: measles. Anotei na palma da minha mão esquerda para não esquecer.

Iglesias Más
Quando finalmente tive Charlize Theron à minha direita, trocámos um beijo no ar e tentámos lembrar-nos de quando nos conhecemos pela primeira vez. Eu lembrava-me perfeitamente, ela nem tanto. Mas antes de embarcar numa viagem pelo túnel do tempo — que ela não estava com vontade de fazer — disse-lhe que não ouvia pelo ouvido direito e que, se quisesse dizer-me alguma coisa, deveria tocar no meu ombro e eu viraria a cabeça que nem um louco para a ouvir. Como explicação, mostrei-lhe a palma da minha mão aberta com a palavra measles escrita no centro. Charlize não entendeu, e eu expliquei-lhe que, em criança, nos anos 50, tive sarampo. Que em La Mancha não controlavam muito bem o uso de antibióticos, que exageraram comigo e, como sequela, perdi a audição do ouvido direito. Ela fez um gesto de compaixão e eu estava prestes a explicar-lhe os males aos quais a maioria dos espanhóis esteve exposta no pós-guerra, mas a música começou a tocar e alguém pediu que todos se sentassem nos seus lugares.
O desfile começou, e nós ficámos presos aos nossos lugares. Sob um sol escaldante multiplicado pela superfície de metacrilato, sem nos podermos mexer, contemplámos 20 minutos de beleza e novidade absoluta, assinadas pelo prodigioso talento de Jonathan Anderson. Não sou nenhum especialista, mas o desfile (apesar de ter sido uma tortura e de mal poder esperar que acabasse) foi maravilhoso. Ousaria dizer que alguns modelos foram inspirados na nossa Espanha; não é à toa que Anderson foi diretor criativo da Loewe. Em vários modelos, desenvolveu conjuntos de duas peças com múltiplas pregas que desafiavam a gravidade, mantendo-se sempre flutuantes. As bailarinas de flamenco deveriam espreitar esta coleção.
Após os aplausos – a coleção tinha agradado ao público, e isso era evidente –, saí a correr em direção ao chuveiro do quarto do hotel. Foram 20 minutos de uma beleza quase insuportável sob um sol de justiça.
Traduzido do original, disponível aqui.
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