Dior SS27
De uma despedida anunciada em Saint Laurent à reinvenção dos códigos da Chanel, Dior, Tom Ford e Celine, a última paragem do mês da Moda lembrou-nos que olhar para trás pode ser a melhor forma de seguir em frente.
Há temporadas em que a Moda parece obcecada com o futuro. Outras, como primavera/verão 2027, parecem mais interessadas em perceber o que fazer com o passado. Entre despedidas, novas interpretações de códigos históricos e propostas que procuram devolver o prazer ao ato de vestir, Paris apresentou uma série de coleções que partilhavam a mesma preocupação: como manter uma identidade sem ficar refém dela? Afinal, chegados ao fim de um mês inteiro de Moda, é aqui que tudo culmina. Paris tem sempre a última palavra.
Comecemos pelo mais triste. Há qualquer coisa de particularmente apropriado na ideia de uma despedida em Saint Laurent. Durante uma década, Anthony Vaccarello construiu uma relação com a herança da maison que nunca dependeu da nostalgia. O seu trabalho foi, acima de tudo, uma questão de edição: identificar as imagens mais poderosas da história da maison e descobrir até onde poderiam ser levadas. A notícia, anunciada hoje, de que o designer deixará a direção criativa torna a coleção primavera/verão 2027 um momento comovente.
O dourado dominou a passerelle, na forma de bordados, superfícies metálicas, aplicações e acessórios. Havia algo de quase arquitetónico na forma como os materiais construíam os looks, com casacos de ombros largos, cinturas marcadas e lenços de laçada que prolongavam a silhueta. A presença de peles nas golas e nos punhos acrescentou uma dimensão de excesso, enquanto as cores mais profundas — verdes, laranjas queimados e tons terrosos — mantinham a coleção ligada ao vocabulário cromático que Vaccarello foi desenvolvendo ao longo dos anos. Gradualmente, o dourado cedeu lugar ao preto. Os volumes aumentaram, os tecidos tornaram-se mais densos e os vestidos finais adquiriram uma dimensão quase fúnebre.

Saint Laurent by Anthony Vaccarello SS27
Vaccarello nunca precisou de multiplicar as referências para demonstrar a sua compreensão do legado de Yves Saint Laurent. O seu talento sempre esteve em perceber que uma maison pode permanecer fiel à sua história sem repetir os seus gestos. Depois de dez anos a construir uma linguagem tão consistente que, por vezes, parece impossível imaginar Saint Laurent sem o designer. A despedida deixa uma pergunta inevitável: como continuará a maison quando a pessoa que melhor soube traduzir a sua memória deixa de a interpretar?
A Chanel de Matthieu Blazy tem uma qualidade que é difícil de medir só de olhar para as roupas que o designer cria. No espaço de um ano, o designer conseguiu devolver à maison uma sensação de descoberta. Esta estação partiu de Gabrielle Chanel. Não da figura monumental que a história da Moda construiu em seu redor, mas na mulher que existiu antes de se tornar um símbolo. A coleção partiu de um vestido branco translúcido interrompido por uma roseta de penas e acompanhado pela carteira 2.55 original de Gabrielle Chanel. A intimidade do vestuário feminino foi reconsiderada através da formalidade da maison. A ideia prolongou-se em saias de cintura descida e malhas coloridas. O tweed, talvez o material mais imediatamente associado à Chanel, foi submetido a uma transformação interessante: uma nova construção confere-lhe elasticidade e movimento, afastando-o da rigidez tradicional do fato de saia e casaco. Em vez de tratar os códigos da casa como fórmulas intocáveis, Blazy remove parte da sua solenidade.

Chanel SS27
Na Dior, Jonathan Anderson continua a demonstrar que a história de uma casa não tem de ser seguida à letra para permanecer reconhecível. Para a Primavera/Verão 2027, o designer explorou a forma como os materiais se comportam quando lhes é permitido acompanhar o corpo em vez de o estruturar. No Jardin des Tuileries, rodeado por árvores instaladas para a ocasião, apresentou uma coleção em que a natureza surge menos como inspiração decorativa do que como princípio de construção. As silhuetas pareceram crescer, dobrar-se e desfazer-se de forma orgânica, numa sucessão de vestidos assimétricos, saias fluidas e casacos cujas proporções desafiam a alfaiataria tradicional. As pregas criaram padrões florais em movimento, enquanto aplicações tridimensionais transformaram vestidos curtos em verdadeiras esculturas. O bar jacket, um dos símbolos mais reconhecíveis da Dior, foi reinterpretado através de uma construção alongada e textura irregular.

Dior SS27
O erotismo é uma das linguagens mais reconhecíveis da Moda, mas poucas casas o transformaram numa identidade tão explícita como Tom Ford. Sob a direção de Haider Ackermann, essa herança deixou de funcionar apenas como memória de uma época para voltar a ter uma presença concreta. A primavera/verão 2027 não procurou reproduzir a sensualidade dos anos de Ford na Gucci ou na sua própria marca. Os primeiros looks da coleção exploraram uma alfaiataria rígida, com ombros esculpidos e casacos abertos sobre torsos nus. A formalidade das roupas tornou a exposição do corpo mais provocadora. Para as mulheres, essa tensão surgiu em vestidos vermelhos com aberturas geométricas, costas descobertas e saias transparentes que deixavam a lingerie visível. Vestidos de pele em tons amanteigados, calças de cintura baixa e camisas abertas prolongavam a ideia de uma sensualidade cuidadosamente construída. Ackermann percebe que o erotismo depende tanto daquilo que se revela como daquilo que se controla.

Tom Ford SS27
Para a sua terceira coleção de womenswear na Celine, Michael Rider apresentou um guarda-roupa que oscila entre a contenção parisiense e uma excentricidade americana. O desfile abriu com um vestido preto de decote em V pronunciado e cintura suavemente definida, antes de avançar para casacos de ombros marcados, calças largas com silhuetas quase balão. Rider compreende o valor da disrupção: um vestido amarelo-manteiga com um padrão desbotado e colares compridos de contas introduziram excentricidade a silhuetas intemporais. Luvas transparentes revelavam apontamentos de cor inesperados. A roupa pode ser um exercício de memória, uma ferramenta de sedução, uma experiência material ou simplesmente uma forma de nos reconhecermos ao espelho. Depois de um mês inteiro a perseguir novas ideias, foi em Paris que tudo culminou, deixando-nos com mais perguntas do que respostas e com vontade de voltar a vestir-nos. Por agora, porém, se não se importam, precisamos de dormir.

Celine SS27
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07 Oct 2026
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