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Em Londres, velhas lendas e novos mitos

23 Sep 2026
By Pedro Vasconcelos

Simone Rocha SS27

Primavera/verão 2027 marca uma das estações mais entusiasmantes da capital britânica há anos. O retorno da velha guarda e o estabelecimento de uma nova geração revigora uma indústria em crise.

O mito de Londres há muito que se dissipou. Há duas décadas que os gods and kings do princípio do século desapareceram. Entretanto, veio o Brexit. Depois, a Covid. Pelo caminho, uma sucessão de casas britânicas que trocaram Londres por Paris, atraídas pela escala, pelo dinheiro e pela máquina industrial da capital francesa. McQueen, Stella McCartney e Victoria Beckham são apenas alguns dos nomes que, em diferentes momentos, passaram a apresentar-se do outro lado do Canal da Mancha. O desaparecimento da semana de Moda masculina londrina e a redução da semana feminina pareciam ser os últimos pregos no caixão. E, no entanto, esta temporada foi diferente. Pela primeira vez em muito tempo, voltou a existir qualquer coisa que se aproxima de entusiasmo. O principal catalisador desse movimento foi, inevitavelmente, o regresso de McQueen.

Se há um nome que simboliza a relação quase mitológica entre Londres e a Moda, é McQueen. O regresso da casa à sua cidade natal, pela primeira vez sob a direção de Seán McGirr, foi o maior evento da semana. A marca, conhecida pela infiltração de estudantes e fãs nos desfiles londrinos, pedia cartão de cidadão à porta. Na Lincoln’s Inn Chapel, McGirr confrontou o classicismo religioso de Piero della Francesca com a cultura rave londrina da sua adolescência. O resultado foi uma coleção feita de contradições: alfaiataria de Savile Row ao lado de silhuetas dos anos 90, vestidos quase litúrgicos ao lado de uma energia mais profana e sapatos de salto alto afiados.

McQueen SS27

Mas McQueen não foi o único regresso ao calendário. A estreia de Christopher Kane para a Mulberry foi um dos momentos mais antecipados da estação. Kane é uma das vítimas mais evidentes do desmoronamento da indústria independente britânica da última década. A sua própria marca faliu em 2023, depois de anos a tentar sobreviver num sistema cada vez mais difícil para designers independentes. Agora regressa através de uma das marcas que melhor representam a ideia de britishness: Mulberry. A coleção, intitulada de Town, City, Country, foi um exercício de compromisso, a invenção de uma gramática comum entre a sua própria linguagem e a da casa. O icónico modelo da marca, a carteira Bayswater, transformou-se em cut outs, decotes, bainhas, casacos, loafers e até saltos altos. 

Mulberry SS27

Mas os sinais de vida da indústria não estão confinados ao retorno. Há uma nova geração a nascer onde, há poucos anos, muitos julgavam existir apenas um deserto árido. Oscar Ouyang é um desses nomes. O designer chinês, apoiado pelo programa NEWGEN, continua a construir uma linguagem própria entre o romance, o knitwear e a ideia de aristocracia decadente. O seu nome já não pertence apenas ao futuro: começa a fazer parte do presente da cidade. Petra Fagerström é outro. Finalista do prestigiado LVMH Prize e formada na Central Saint Martins, a designer sueca apresentou o seu primeiro desfile de London Fashion Week como parte do NEWGEN. Conhecida pela sua ideia de feminilidade distorcida, esta estação Fagerström brincou com a ideia de verão escandinavo.

Oscar Ouyang; Petra Fagerström SS27

Há algo particularmente londrino nesta geração. Não existe uma vontade evidente de parecer parisiense, nem de competir diretamente com a escala de Milão. Existe antes uma vontade de construir universos próprios — pequenos, estranhos— e confiar que esses universos conseguem encontrar uma audiência. A capital sempre foi melhor a inventar personagens do que sistemas. Ninguém demonstra a ideia melhor que Chopova Lowena. Emma Chopova e Laura Lowena apresentam apenas um desfile por ano. Para primavera/verão 2027, o duo apresentou uma coleção inspirada por figuras do folclore eslavo. Musas míticas como Baba Yaga, Kikimora e Marzanna cruzaram-se com ícones feministas modernos, como Marian Ladewig, campeã americana de bowling dos anos 50. Bruxas e bowling. Folclore e roupa desportiva. Saias com carabiners, renda e tartan. É difícil pensar em algo mais londrino.

Chopova Lowena SS27

Simone Rocha, entretanto, continua a fazer aquilo que faz melhor: transformar referências históricas em algo completamente seu. No Old Bailey, pelo terceiro ano consecutivo, Rocha apresentou uma coleção inspirada na The Taking of Christ, de Caravaggio, uma pintura que, durante décadas, esteve pendurada, incorretamente atribuída, numa residência em Dublin. A ideia de encontrar algo extraordinário num lugar banal tornou-se uma metáfora. Na coleção, esta tensão aparece em vestidos de volumes quase escultóricos, com mangas amplas, saias arredondadas e uma profusão de rendas, laços e aplicações florais. 

Simone Rocha SS26

Como de costume, a Burberry fechou a semana. Daniel Lee, diretor criativo da marca, levou a casa para Chelsea College of Arts e encontrou na artista têxtil Celia Birtwell uma maneira de olhar para a herança britânica sem a transformar numa peça de museu. O padrão e xadrez tradicional tornou-se em gingham e riscas. Os trench coats, inevitavelmente presentes, foram reinterpretados através de proporções amplas e construções menos rígidas. Vestidos fluidos e looks de inspiração utilitária inspiraram-se no legado da marca sem se focar no seu passado. Uma metáfora apropriada para uma semana que reconciliou dois aspetos que, até agora, pareciam incompatíveis: a memória da cidade e o seu futuro. 

Burberry SS27

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