Editorial | Words, junho 2026

07 Jun 2026
By Sofia Lucas

© Abadulla Elmaz

"Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!" - Florbela Espanca

Há quem diga que as palavras perderam valor. Que hoje tudo se escreve depressa, se promete depressa… e se esquece ainda mais depressa. Talvez seja verdade. Mas talvez o problema não esteja nas palavras, mas sim no uso que fazemos delas. A palavra continua a ser uma das maiores forças inventadas pelo ser humano. Com ela, começam-se guerras e fazem-se pazes. Erguem-se países, destroem-se reputações, salvam-se vidas, terminam-se amores. Uma palavra certa, dita no momento certo, pode mudar uma existência inteira. E uma errada pode persegui-la para sempre.

Amanda Murphy
Mario Kroes

Durante séculos, a palavra teve peso físico quase moral. “Dou-te a minha palavra” era mais do que uma frase: era um vínculo. A palavra de honra valia como assinatura invisível. Não havia gravações, capturas de ecrã nem contratos intermináveis. Havia carácter. A credibilidade de alguém media-se pela firmeza daquilo que dizia. Hoje, no ruído constante do mundo digital, as palavras multiplicaram-se e desvalorizaram-se ao mesmo tempo. Nunca se escreveu tanto. Nunca se falou tanto. E talvez nunca se tenha escutado tão pouco. As palavras vivem comprimidas em notificações, siglas, comentários rápidos, slogans, legendas apressadas. Gastam-se antes de amadurecer.

Sónia Balacó
Élio Nogueira

Mas o paradoxo é este: quanto mais banalizada parece a palavra, maior continua a ser o seu poder. Porque nenhuma tecnologia substitui o valor de uma palavra sincera, sentida… Continuamos a precisar de ouvir conforto, verdade, perdão, amor ou despedida. Continuamos a procurar sentido em livros, discursos, poemas e canções. A literatura é a arte da palavra, na precisão da prosa ou no risco da poesia. Um escritor trabalha palavras como um escultor trabalha pedra: tira excessos, procura forma, tenta encontrar verdade. Há romances que sobreviveram séculos porque certas frases continuam a dizer-nos mais sobre o ser humano do que muitos tratados modernos.

Melinda Kiss
David Ajkai

Talvez a diferença esteja aí. Antes, a palavra era rara e por isso valiosa. Hoje é abundante e por isso leve. Mas uma palavra verdadeira continua a ter densidade. Continua a exigir coragem. Continua a deixar marca.

No fundo, o valor da palavra nunca desapareceu. O que desapareceu foi a nossa paciência para a honrar. Quando tudo é dito a toda a hora, o verdadeiro peso passa a estar em quem ainda sabe escolher as palavras, e, sobretudo, cumpri-las. Aí vive a poesia… a magia da palavra.

Publicado originalmente na edição Words, da Vogue Portugal, de junho de 2026. For the english version, click here.

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