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Editorial 15. 7. 2021

Editorial | The Nonsense Issue: julho/agosto 2021

by Sofia Lucas, Diretora da Vogue Portugal

 

"Stupidity is infinitely more fascinating than intelligence. Intelligence has its limits while stupidity has none." - Claude Chabrol

The Nonsense Issue é dedicado ao absurdo, à falta de bom senso (também conhecida por falta de noção), ao despropósito, e também à estupidez... Tudo embrulhado num imenso arco-íris nonsense que achámos fazer sentido durante a silly season, mais silly do que season, neste verão absurdo que vivemos.

A estupidez não é apenas estúpida, é extraordinariamente útil e até necessária (além de extremamente destrutiva). Alimenta penitenciárias e todo um sistema criminal e jurídico, indústria médica, media, publicidade, cosmética e até a Moda, ou as modas. Sustenta grandes setores da nossa população com empregos remunerados. É protagonista nos cenários políticos e económicos. Já Napoleão Bonaparte defendia: "Na política a estupidez não é um handicap." Vivemos rodeados de tantas idiotices óbvias... conduzir sob efeito de álcool, fumar (pessoalmente, tenho imensa dificuldade em parar), andar de bicicleta sem luz à noite, fazer canoagem sem colete salva-vidas, enviar mensagens de texto enquanto se conduz, iniciar-se no mundo do crime (que pode compensar, mas é uma ocupação com altas taxas de insucesso), falhas na reciclagem, tanto pessoais quanto políticas... a lista pode ser interminável, sinta-se à vontade para adicionar as suas próprias experiências e favoritos. Porque há idiotices que não fazem mal a ninguém, pelo contrário, servem para tornar mais leve o nosso lado mais terra-a-terra. Existem as faltas de sentido inofensivas, interligadas a uma liberdade e a um prazer que não sabemos explicar. "I like nonsense, it wakes up brain cells", afirmou Dr. Seuss. Porque todos nós somos idiotas de vez em quando. Talvez a idiotice menos óbvia e mais comum seja a capacidade de julgarmos a estupidez alheia, e de muito raramente nos incluirmos na lista.

Por que razão adoramos o nonsense? Porque adoramos o humor dos Monty Python e a sua inquisição espanhola que ninguém esperava? Ou porque nos rimos até às lágrimas, sem saber porquê, só por ouvirmos as gargalhadas contagiantes de alguém? Porque emitimos os sons mais estranhos ao saborear o que mais nos delicia ou gritamos e experienciamos o pânico numa montanha russa onde entramos voluntariamente? Existe um absurdo glorioso e essencial que está no coração do mundo, mesmo que não leve necessariamente a lugar nenhum. Parece que apenas em momentos de insight e iluminação incomuns é que entendemos isso e descobrimos que o verdadeiro sentido da vida pode não fazer sentido, que o seu propósito não é propósito. Ainda assim, queremos usar a palavra "significativo." Isto é um absurdo significativo? É uma espécie de absurdo que não é apenas caos, que não é apenas uma baboseira tagarela, mas que contém em si um ritmo, uma complexidade fascinante e uma espécie de talento artístico para viver. É nesse tipo de falta de sentido que chegamos à simplicidade mais pura e ao significado mais profundo. Talvez o nonsense seja tão preciso porque o senso comum sem ele é tão limitado.

Publicado originalmente no "The Nonsense Issue" da Vogue Portugal.
Todos os créditos na edição em papel.
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