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Editorial outubro 2020 | "Into the blue"

Editorial 5. 11. 2020

Editorial novembro 2020 | The Beauty of Imperfection

by Sofia Lucas

 

The beauty of error. The art of imperfection.

Fotografia: Marcus Cooper

Na ancestral cerimónia do chá budista, o chá é servido apenas em tigelas irregulares, rachadas, amolgadas ou com outras imperfeições. As tigelas são respeitadas pelas suas falhas, pela sua história, lembrando, a quem bebe, que tudo está em constante mudança para a decadência. Wabi-sabi, a antiga filosofia artística oriental, enraizada no Budismo, assenta fundamentalmente no princípio de que a beleza é um espelho da natureza. E que nada é perfeito, nunca. Nem completo. Nem permanente. Apesar das odes greco-romanas à simetria e à perfeição, a noção de beleza que reside nos erros também fez parte da filosofia, da literatura e da estética ocidentais.

Poetas escreveram sobre as (des)ordens inevitáveis da vida, que nos quebram, e sobre as forças renascidas que se calcificam nas fraturas (Ernest Hemingway). Como a beleza da luz que entra através de uma fenda (Leonard Cohen). Como a imperfeição que inspira a centelha da criação e da imaginação (Jhumpa Lahiri). Mesmo os objetos físicos imperfeitos que nos rodeiam podem tornar-se símbolos na nossa busca incessante de um significado para a vida. Pensadores como Kant, por exemplo, enalteceram as qualidades dos objetos, ou mesmo edifícios, centradas na virtude – e de como a sua beleza pode ser um reflexo das virtudes humanas daqueles que os criaram ou que os possuem.

Talvez seja por isso que a colcha gasta, tricotada pela avó, os bilhetes de amor rabiscados pelos nossos filhos, os cantos dobrados de um livro ou uma simples pedra polida pelo tempo se possam transformar nos nossos tesouros mais especiais. Porque apesar das suas imperfeições, esses objetos iluminam de alguma forma a nossa capacidade de sentir, de conectar, de amar.

Fotografia: Marcus Cooper

"Aceitar a imperfeição é um poderoso calmante, mais eficaz do que as toneladas de ansiolíticos consumidos pela maioria da população mundial." Sofia Lucas

Todos nós cometemos erros, mas o perfeccionista que habita em nós tem dificuldade em perdoar. Julga com severidade, a si próprio e aos outros, graças às malfadadas expectativas que nos foram impostas pela sociedade, e que são, quase sempre, demasiado altas. O truque principal para cometer bons erros é não os esconder - especialmente de nós mesmos, defendia Dostoiévski. Em vez de mergulharmos na negação dos erros cometidos, devemos aprofundá-los, observá-los como se fossem obras de arte, porque de certa forma o são. E, se nos servirmos deles para aprender, podem ser o passaporte para uma tentativa seguinte bem-sucedida.

Aceitar a imperfeição é um poderoso calmante, mais eficaz do que as toneladas de ansiolíticos consumidos pela maioria da população mundial. Os erros não são apenas oportunidades de aprendizagem; eles são a única oportunidade de fazer algo realmente novo. Errar é preciso. A evolução biológica prossegue num grande e inexorável processo de tentativa e erro – e sem os erros as tentativas não alcançariam nada. A evolução é o processo central, não só da vida, mas também do conhecimento, da aprendizagem e da compreensão. Não adianta tentarmos dar sentido ao mundo das ideias, nem conferir significado ao livre arbítrio e à moralidade, à arte e à ciência, e até mesmo à própria filosofia, sem uma noção do que é a evolução. Para a evolução, que nada sabe, os passos para a novidade são dados às cegas por mutações, que são “erros perfeitos” de cópia aleatória no DNA.

O crescimento e a deterioração são a ordem natural das coisas. Seria perfeito para todos nós aprendermos a amar mais plenamente as fendas e as amolgadelas da vida. Podemos sentir-nos atraídos pelo que é belo... mas o real, o verdadeiro, é o que de verdade é belo. E o real é, e sempre será, perfeitamente imperfeito. Apreciar a passagem do tempo e reconhecer a impermanência do mundo ao nosso redor vem com tons de melancolia, porque mesmo a felicidade, examinada de perto, tem as suas rugas e arestas. Mas também há um alívio. Uma libertação, quando deixarmos de ser reféns da perfeição. Uma resiliência, um compromisso em continuar a encontrar beleza nos lugares mais inesperados.

Aceitar a imperfeição abre espaço para o amor. Pelos outros, por nós mesmos. Amor pelas nossas virtudes e cicatrizes, forças e vulnerabilidades. As redes sociais convenceram-nos a buscar a perfeição. Sentimos que os nossos corpos, as nossas casas, os nossos empregos e as nossas famílias devem estar prontos para as câmaras, perfeitos a cada momento, levando a um estado contínuo de frustração e insatisfação – já que, como todos sabemos, a perfeição perfeita é uma mentira. A beleza reside na autenticidade do objeto ou do momento. O milagroso geralmente é o mundano...são as linhas de expressão vividas, a ferrugem na estrutura de um carrocel abandonado, as estrias de um corpo que carregou vida, um casaco favorito com um buraco na manga, um tomate deformado, mas saboroso. É preciso diminuir a velocidade para despertar para a beleza, a magia, mesmo as que se perdem no caos à nossa volta. Essa bela desordem, perfeitamente imperfeita, é a vida. Não a perca. A vida, tal como nós, não precisa de ser perfeita para ser maravilhosa.

Fotografia de Léa Wormsbach.

Publicado originalmente na edição The Beauty of Imperfection da Vogue Portugal, de novembro 2020.
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