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Editorial 19. 1. 2021

Editorial | "The Mirror issue"

by Sofia Lucas

 

Every man carries with him through life a mirror, as unique and impossible to get rid of as his shadow. - W.H. Auden

Um espelho não é um reflexo de quem somos, é o reflexo de comonos vemos. Os espelhos são hoje parte da vida quotidiana mas, antes de existirem, as pessoas passavam pela vida sem nunca verem uma representação verdadeiramente precisa dos seus rostos, apenas olhares fragmentados e distorcidos no reflexo da água ou em metais polidos. Os espelhos pareciam tão mágicos que, quando apareceram, foram rapidamente integrados em rituais sagrados. Por volta do início do século XV, os fabricantes de vidro da ilha de Murano, em Itália, descobriram como combinar o vidro com um novo avanço tecnológico na metalurgia, o que lhes permitiu revestir a parte de trás de um pedaço de vidro com uma mistura de estanho e mercúrio, produzindo um efeito altamente reflexivo à superfície. O resultado foi o espelho, que mudou para sempre a forma como nos vemos. O espelho ajudou a inventar o eu moderno, de uma forma real, mas não quantificável. Porque nem um espelho nos reflete realmente quando não nos queremos ver.

Um espelho não mente, apenas não mostra a verdade toda. Tal como a nossa consciência é uma espécie de espelho, da mesma forma a consciência que temos de nós próprios surge-nos simetricamente alterada, como uma imagem refletida. Talvez tudo o que passa pela consciência deva ser corrigido e invertido para que a verdadeira imagem se revele. Talvez essa seja parte da ilusão do mundo, que só pode ser corrigida por um artifício suplementar, com uma reviravolta mental, com a simulação de uma imagem invertida – que nos mostre como realmente podemos ser perante nós próprios. No Paquistão, depois do casamento, os noivos dirigem-se para uma sala onde ficam sozinhos, a olhar um para o outro, através de um espelho. Crê-se que, desse modo, cada um se poderá imaginar no paraíso – ou seja, como realmente são, as suas imagens transformadas no essencial que a eternidade lhes proporciona, e não como se veem habitualmente. Mitos e crenças à parte, talvez neste jogo infinito de espelhos e reflexos a pergunta final que devamos fazer, quando nos olhamos ao espelho é: “Para quem é que o espelho está a olhar?”

P.S. Nesta edição dedicada ao nosso próprio reflexo e à forma como nos espelhamos uns nos outros, vai encontrar um espelho Vogue, que serve como acessório de leitura, para o auxiliar ao longo da edição, em algumas imagens e títulos invertidos. Brincar com os reflexos, mesmo os mais distorcidos, faz parte da nossa génese lúdica. Espero que se veja refletido nesta edição como toda a equipa se reflete em quem nos lê.

*Originalmente publicado na edição "The Mirror Issue" da Vogue Portugal, de janeiro/fevereiro 2021.
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The Key One, da série Acceptance and Isolation. Fotografia de Ziqian Liu.