“O beijo é a expressão mais intensa daquilo que não se pode dizer com palavras.” - Gustav Klimt
O beijo atravessou impérios. Foi bênção e foi traição. Selou pactos de paz e condenou destinos. Houve um que entregou um homem à morte, outro que despertou uma princesa adormecida, e incontáveis que incendiaram quartos anónimos sem jamais entrar para a História. O beijo é democrático: pertence a todos e a cada um de nós.
Na Arte, tornou-se eternidade. Pintores tentaram capturá-lo como quem tenta capturar um suspiro, dois corpos inclinados um para o outro, o instante antes do mundo desaparecer. Em O Beijo (1907-1908), de Gustav Klimt, o amor não é apenas pintado, é consagrado. Duas figuras envoltas num manto de ouro que apaga o mundo. Linhas firmes no corpo dele, curvas e flores no dela. Força e rendição. O beijo acontece precisamente nesse encontro de opostos, onde ambos se transformam. Ali, o beijo não é impulso, é promessa. Um instante tão intenso que o mundo desaparece e só fica luz.

Agnieszka Wesołowska Szubert e Przemek Szubert
Aleksandra Modrzejewska-Mitan
No Cinema, ganhou banda sonora: chuva a cair, cidade ao fundo, uma entrega que nunca precisa de ser dita. Quantas histórias começam ou terminam num beijo? E quantas vidas mudaram precisamente naquele segundo em que duas bocas se tocaram e tudo o resto perdeu importância?
Na Moda, o beijo sempre foi promessa. O vermelho que desafia convenções. O brilho que sugere excesso. A marca deixada num colarinho branco. Talvez o acessório mais sincero que alguém pode usar. Porque o beijo deixa rasto. Na pele, na memória, na narrativa pessoal que contamos sobre quem fomos.
E depois há os beijos que não demos. Os que ficaram suspensos no ar por orgulho, medo ou timing errado. Os que a distância roubou. Os que a guerra impediu. Os que a maturidade nos ensinou a evitar. Há beijos de mãe que curam quedas, beijos de despedida em estações de comboio, beijos dados atrás de portas fechadas como se o amor ainda fosse crime. Há o primeiro beijo, esse terramoto doce, e há o último, aquele que não sabemos que é o último... até ter sido.

Emily Bennett
Ekin Can Bayrakdar
Vivemos numa era que beija depressa. Beija com filtro. Beija para postar. Mas o verdadeiro beijo continua a exigir presença, essa raridade. Ele pede silêncio. Pede entrega. Pede a coragem de estar inteiro no instante. Talvez seja por isso que nos comove tanto.
E no fim, quando as luzes se apagam, quando os aplausos cessam, quando o vestido é guardado e a maquilhagem removida, o que permanece não é o glamour nem a pose. É a memória daquele instante em que alguém segurou o nosso rosto com as duas mãos como se fosse algo precioso e, sem precisar de discurso, nos fez acreditar que éramos.
Porque há beijos que passam. E há beijos que nos trespassam... e nos mudam para sempre.

The Bridal Affair
Élio Nogueira
Publicado originalmente na edição em papel do The Kiss Issue, de março de 2026. For the english version, click here.
Most popular
E viveram felizes (para sempre...?): o que é que acontece quando uma feminista se apaixona?
03 Mar 2026
Relacionados
