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Tendências 23. 9. 2019

Ecossexualidade: o amor à natureza

by Joana Moreira

 

Uma fusão entre ambientalismo e sexualidade deu origem a uma nova identidade sexual. A ecossexualidade inclui o uso de vibradores sustentáveis e preservativos biodegradáveis, mas pode chegar até ao sexo com árvores. Tudo com um profundo amor pelo planeta.

© Getty Images

Assim começa o Ecosex Manifesto: “We are Ecosexuals: the Earth is our lover.” A palavra ecossexualidade existe, pelo menos, desde o início dos anos 2000, primeiramente como um termo para descrever pessoas interessadas em vegetarianismo e ambientalismo. Pelo meio, o termo evoluiu para um verdadeiro movimento, com mais matizes do que a preocupação com o mundo que habitamos.

Uma pesquisa pelas Google Trends revela que o interesse pela palavra “ecossexual” está em franca ascensão, com um forte pico em 2016. Analisando o interesse por região, o Chipre lidera, seguindo-se o Paraguai e os Estados Unidos. Em Portugal, o conceito não passou completamente despercebido, uma vez que ocupa o nono lugar no ranking de países em que o termo despertou interesse. A provar a curiosidade pela temática, está a programação deste ano do QueerLisboa, o festival de cinema queer que acontece durante o mês de setembro, na capital. A secção Queer Focus é encabeçada por dois documentários sobre o tema: Ecosex, a User’s Manual (2018), de Isabelle Carlier, e Water Makes Us Wet (2018), de Beth Stephens e Annie Sprinkle. 

É precisamente a estas duas últimas, Beth Stephens e Annie Sprinkle, que se deve muito do reconhecimento que a ecossexualidade foi conquistando ao longo dos tempos. Além de, em 2011, terem publicado o Ecosex Manifesto, citado acima, mantêm o site SexEcology, uma fonte de extensa informação sobre a temática da ecossexualidade. Paralelamente, produzem filmes documentais sobre o tema. E vão mais longe. Casam-se. Muitas vezes. Entre 2008 e 2014, casaram-se com diversas entidades da Natureza – desde um lago na Finlândia à própria Terra, ao céu, oceanos e montanhas. 

As duas artistas de São Francisco são as grandes impulsionadoras da ecossexualidade, que definem como “uma nova identidade sexual, uma estratégia de ativismo ambiental e um conceito expandido do que o sexo é (e pode ser) na nossa cultura”. Para ambas, “os ecossexuais imaginam a Terra como uma amante, um parceiro romântico, e experienciam a natureza como sensual, erótica ou sexy. Ecossexualidade é uma forma de estar no mundo, em que dar e receber amor com a Terra aumenta o prazer. Sexo com humanos também faz parte da ecossexualidade, uma vez que os humanos fazem parte, e não estão separados, da natureza”.  

Sem estatísticas precisas, a dupla garante que a ecossexualidade tem vindo a somar cada vez mais simpatizantes. Em 2016, contavam à revista Outside como já existiam, pelo menos, 100 mil pessoas no mundo que se identificavam como ecossexuais. Para isso acontecer, o primeiro passo é apagar do léxico a expressão “mãe Natureza”. Ou melhor, transformá-la.  “Os ecossexuais propõem uma mudança metafórica de ‘Terra como mãe’ para ‘Terra como amante’. O arquétipo de amante é potencialmente mais sustentável, mais igualitário”, explicam, num capítulo sobre ecossexualidade que ambas assinam no livro Gender: Macmillan Interdisciplinary Handbooks. No mesmo texto, esclarecem as diferenças entre indivíduos ecossexuais. “Há diferentes interesses, estilos, motivações e práticas. O que a maioria dos ecossexuais têm em comum é amor, paixão e interesse pelo bem-estar da Terra, e acham a ‘natureza’ sensualmente prazerosa; o que isso significa para diferentes ecossexuais varia”. E varia muito. Num extremo, temos pessoas que procuram usar lubrificantes sustentáveis, que gostam de skinny-dipping(nadar nus) ou que abraçam árvores. No outro temos pessoas que fazem efetivamente sexo com árvores. E que têm orgasmos ao rebolar em terra.

“O que há de errado na nossa vida sexual?” 

A pergunta é de Stefanie Iris Weiss e é feita logo nas primeiras páginas de Eco-Sex: Go Green Between the Sheets and Make Your Love Life Sustainable. O livro que publicou em 2010 oferece uma série de ideias, dicas e informações sobre aquilo que pode ser (discutivelmente) descrito como a versão mais lightda ecossexualidade. Em resposta à questão anterior – o que há de errado com a forma como fazemos sexo – a autora responde logo de seguida, enumerando uma série de pontos: “Comecemos com os preservativos. Geralmente são deitados na sanita depois de serem usados, e acabam nos esgotos, depois no sistema de águas ou no oceano”. Mas há mais: “Os brinquedos sexuais normais contêm plástico tóxico e cancerígeno. As pilhas não recarregáveis usadas para os vibradores acabam em aterros sanitários. A maioria dos lubrificantes têm como base petróleo, e quem quer estar a suportar as petrolíferas quando está a tentar chegar ao orgasmo?”. Assim de repente, sendo ecossexual ou não, possivelmente ninguém.

Com isto em mente – e uma lista de novas aquisições já na cabeça – Weiss defende que “o primeiro objetivo de um ecossexual deve ser comprar artigos que tenham o mínimo impacto no mundo”. Sem comprometer tudo o resto. “Sexo ecossexual pode ser um ótimo sexo, sem nenhuma perda de prazer. Este livro explora básicos importantes no quarto, como métodos contracetivos ecológicos, lençóis de cama em algodão orgânico, e sex toys vegan”, escreve.

Nove anos depois da publicação deste guia prático, e com um mercado sempre atento às tendências, muita coisa mudou, e muita coisa surgiu: óleos de massagem orgânicos, sex shops ecológicas (a primeira apareceu em Berlim), preservativos feitos a partir de látex 100% natural, vibradores a energia solar e até chicotes em couro vegan, para os fãs de BDSM

Ainda assim, quando se pensa em ecossexualidade, há quem pense de imediato nas manifestações mais alegóricas do extremo oposto. A dupla Beth Stephens e Annie Sprinkle desmonta esta ideia no texto conjunto publicado no livro Gender: Macmillan Interdisciplinary Handbooks. “Algumas pessoas podem assumir que o sexo tem de ser genital ou que os ecossexuais se envolvem primariamente em atos sexuais com não-humanos, mas estes não são necessariamente parte da identidade e prática da ecossexualidade”. Assim, há uma série de atividades várias que podem ser realizadas num contexto ecossexual. “Algumas experiências podem ser subtis, sensuais e suaves, como esfregar uma aveludada folha de sálvia e cheirar o seu aroma, abraçar uma árvore ou desfrutar do toque e paladar de um doce e sumarento morango. Outras práticas são mais intensas, extremas e até kinky, como correr nu por um campo de urtigas, ser apanhado por uma grande onda no oceano ou estar pendurado num penhasco”, sugerem. No entanto, “uma grande parte da prática ecossexual é o cultivo de uma relação mais mindful, presente e consciente com não humanos, enquanto navegamos no nosso mundo humano. Por exemplo, quando cheiramos uma rosa, podemos cheirá-la inconscientemente e simplesmente desfrutar do aroma ou podemos embarcar na experiência total, pensando como a rosa é, na verdade, o órgão sexual da roseira. Podemos fantasiar sobre a dor dos espinhos, notar a suavidade das pétalas, que mimicam os lábios humanos, e olhar para a sua cor magnífica, até ao ponto de ficarmos excitados”. E, pese embora tudo isto, sim, a ecossexualidade também engloba sexo entre humanos. “Porque somos parte da Natureza. Além disso, quando alguém faz sexo com outra pessoa, está a fazer sexo sobretudo com água (uma vez que o nosso corpo tem aproximadamente 65% de água), bem como outros minerais e até poeira estelar”, justificam. 

Ecossexualidade e ativismo 

O mais recente documentário de Beth e Annie, Water Makes Us Wet, é a prova de que, sendo a ecossexualidade um termo que engloba vários conceitos, o ativismo não só pode, como muito facilmente assume um papel de extrema importância na vida de quem se apelida de ecossexual. Porque falar do amor pela água implica a dado nível também falar na necessidade de a proteger, de a poupar, de a preservar, na obra documental observamos Beth e Annie nos esgotos de São Francisco a discutir as questões de saneamento da cidade. E questionamos: com o aquecimento global a um ritmo galopante, será a ecossexualidade também uma forma de despertar ainda mais consciências? A filmografia existente sobre a ecossexualidade acaba por invariavelmente abraçar a questão do ativismo. À Vogue, Isabelle Carlier, a realizadora de Ecosex, a User’s Manualexplica como também o seu filme, que não é “um manual no sentido tutorial, mas dá noções práticas para um estilo de vida ecossexual”, “enfatiza como a criação artística e a imaginação são verdadeiras ferramentas na luta pelas causas ambientais e contra a destruição massiva do planeta”. De repente, as palavras que constam no ponto IV do Ecosex Manifesto parecem fazer cada vez mais sentido: “We are Ecosex Activists. Salvaremos as montanhas, as águas e os céus com todos os meios necessários, sobretudo através do amor, da felicidade e dos poderes de sedução. Vamos parar com a violação, abuso e envenenamento da Terra”. 

Artigo originalmente publicado na edição de setembro de 2019 da Vogue Portugal.

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