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Palavra da Vogue 19. 3. 2020

E depois do adeus

by Ana Murcho

 

“Dearly beloved, we have gathered here today /
To get through this thing called life”
Prince, Let’s Go Crazy

 Fotografia de Francesco Brigida, com styling de Stephanie Kherlakian para a Vogue Portugal de dezembro de 2019.

Escrevo poucas horas depois do anúncio que já se esperava. O estado de emergência, essa mudança repentina no nosso dia a dia repleto de liberdades a que só agora damos valor, era mais-ou-menos inevitável. A mesa que me apoia a incredulidade é a mesma que me preparou para os longínquos exames nacionais de 1999. Estava praticamente garantida a entrada “naquela” universidade onde as médias rondavam o impossível, mas a teimosia e o perfeccionismo fizeram com que lesse, relesse, e voltasse a ler os livros de História, porque não podia ser uma ilusão atingir o valor máximo na escala, tal como me tinha dito, anos antes, uma professora (agora sei que aquele comentário foi uma espécie de bullying encapotado; ainda bem que o fez, só me deu força). Tirei 19,2 em 20, até hoje pergunto-me se a senhora, ou o senhor, que me corrigiu a prova ficou com os 0,8 restantes só para garantir que ninguém duvidava dos seus critérios de avaliação. Adiante. Daí a meses ia estar entre os futuros jornalistas deste país, ia ser treinada para aquilo que sempre quis fazer - escrever. Confirmou-se a faculdade, o resto, já se sabe, não foi nada do que tinha imaginado, porque a nossa imaginação, quando faz futurologia, tende a esquecer-se das condicionantes da vida. Mas tudo bem. Não fossem esses pequenos nadas e não estávamos aqui, agora, a assistir a este pequeno apocalipse, 21 anos depois, com a certeza de que sairemos disto mais fortes. E mais humanos.

A cadeira ainda é a mesma que me acolheu nesse verão quente, e isso é relevante porque foram poucas as vezes, deste então, que parei por aqui. Não porque as memórias fossem más. Não. Estudar era um desafio. A cadeira era uma espécie de consola mágica onde isso acontecia. As razões são de ordem sociológica - o meu amigo Bernardo irá corrigir-me neste ponto, estou certa. Quando saímos do ninho tendemos a bater as asas alto demais e raramente temos o tempo, ou a lucidez, para pensar a sorte, e o privilégio, que é ter essa cadeira à nossa espera. Andamos demasiado ocupados para tocar naquela parte da nossa vida que, achamos, já não nos pertence. Há um imenso mundo lá fora, a chamar por nós. Temos tanto que fazer. Para quê voltar a essa cadeira, se podemos ser esta pessoa nova, independente, segura - adulta? Há filmes para ver, concertos para assistir, praias para descobrir, aviões para apanhar, livros para ler, amigos para abraçar, esplanadas para conhecer. Há namoros para começar e acabar. Há amores-para-a-vida-toda para nos tirarem o fôlego e o sono. Há vícios para ganhar e para perder. Há sabores para desfrutar de olhos fechados. Há imperiais para beber, ultra-geladas, no pico do verão. Há fins de tarde para aproveitar. Há crianças para pegar ao colo. Há artigos para escrever. Há posts para partilhar. Há fotografias para tirar, retocar e postar. Há roupa (nova!) para comprar. Há estradas sem trânsito para desbravar. Há coisas a planear. Para quê quê voltar a essa cadeira, se podemos ser esta pessoa nova, independente, segura - adulta?

"Pela primeira vez nos últimos dias tive vontade de chorar. Não por mim, mas pela situação em que nos encontramos. É triste ver as ruas despidas de gente, vazias da nossa alma de povo barulhento e alegre."

 

Escrevo poucas horas depois do anúncio que já se esperava. O estado de emergência, essa mudança repentina no nosso dia a dia repleto de liberdades a que só agora damos valor, era mais-ou-menos inevitável. Sorte a minha escrever de uma cadeira que já conheço bem. Pela primeira vez nos últimos dias tive vontade de chorar. Não por mim, mas pela situação em que nos encontramos. É triste ver as ruas despidas de gente, vazias da nossa alma de povo barulhento e alegre. Somos francamente desajeitados, muitas vezes somos trapalhões, mas temos uma resiliência que nunca é demais louvar. Gostamos de estar juntos, em bando, de falar alto, de tomar as refeições fora de casa (e tarde, de preferência), de fazer a festa. Seja porque razão for. Chamem-nos loucos, talvez sejamos, mas fazemos festas em qualquer lado - e fazemo-las bem. Prezamos a ronha tanto quanto amamos a celebração. Ansiamos pelo sossego tanto quanto desejamos a happy hour da tasca da esquina. E, não tenho dúvidas, adoramo-nos uns aos outros. Por norma a zanga, entre nós, desvanece com um telefonema, um sorriso ou um café. Ainda bem que assim é. De outra forma não estaríamos, dia sim, dia também, colados, como estamos - no trabalho, aos fins de semana, nas férias, nas folgas, nas idas ao cinema, nas noitadas de quinta-feira, nas matinés de domingo, nas vídeo chamadas, nos grupos de WhatsApp. É um apego genuíno que nos vem de dentro, destas entranhas latinas que têm séculos de sangue ardente e imortal. Somos loucos, amamos muito, não sabemos ser de outra maneira.

Por isso, quando tudo isto acabar, voltaremos à nossa vida normal. Haverão mais filmes para ver, concertos para assistir, praias para descobrir, aviões para apanhar, livros para ler, amigos para abraçar, esplanadas para conhecer. Haverão mais namoros para começar e acabar. Haverão mais amores-para-a-vida-toda para nos tirarem o fôlego e o sono. Haverão mais vícios para ganhar e para perder. Haverão mais sabores para desfrutar de olhos fechados. Haverão mais imperiais para beber, ultra-geladas, no pico do verão. Haverão mais fins de tarde para aproveitar. Haverão mais crianças para pegar ao colo. Haverão mais artigos para escrever. Haverão mais posts para partilhar. Haverão mais fotografias para tirar, retocar e postar. Haverá mais roupa (nova!) para comprar. Haverão mais estradas sem trânsito para desbravar. Haverão mais coisas a planear. Mas, quando isso acontecer, espera-se, iremos saber parar para pensar e agradecer pelo simples facto de podermos fazer tudo isso - se ainda não disse que a liberdade é uma coisa espantosa, este é o momento certo. E, principalmente, iremos saber (e querer) agradecer pelo facto de o podermos fazer com quem realmente importa para nós. Porque a cadeira é apenas uma metáfora para a casa que deixei aos 17 anos, e onde agora volto para, ao lado dos meus pais, dizer a este vírus que não estou disposta a perder mais tempo, nem mais vidas, com ele. 

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