Inspiring Women  

Diana Vreeland: "Só há uma boa vida. A que queres e a que fazes para ti mesma"

21 Jun 2018
By Irina Chitas

Todos conhecemos a história de Diana Vreeland. Mas todos esquecemos demasiado rápido o que esta história tem para nos ensinar todos os dias.

Todos conhecemos a história de Diana Vreeland. Mas todos esquecemos demasiado rápido o que esta história tem para nos ensinar todos os dias.

Eis o que sabemos de cor. Diana Vreeland nasceu em Paris, em 1903. Nasceu para a Belle Époque e para ser o patinho feio da sua mãe, que sempre a tratou de forma inferior por não preencher os padrões de beleza. Passou a infância no meio de coisas bonitas, no meio do entusiasmo, no meio do drama. Dizia não ter aprendido nada na escola e ter aprendido tudo no mundo - chegou ao ponto de, quando a família se mudou para Nova Iorque em 1913, dizer que já não queria estudar, queria viver, queria ir para a rua. Durante os anos 20, decidiu que se ia tornar a rapariga mais popular da cidade. Apaixonou-se à primeira vista por Thomas Vreeland. Mudaram-se para Londres ("a melhor coisa de Londres é Paris"), abriu uma loja de lingerie e gracejava que tinha deitado abaixo a Coroa britânica por ter vendido a Wallis Simpson três camisas de noite "para um fim de semana muito especial". Voltou a Nova Iorque. Foi convidada para escrever uma coluna para a Harper's Bazaar, Why don't you?, e pouco tempo depois era editora de Moda. "Mas eu nunca trabalhei antes. Nem sequer me vesti antes do almoço!". 26 anos depois, tornava-se Diretora da Vogue.

Ilustração de Rene Bouet-Willaumez, 1933 © Condé Nast Archive
Ilustração de Rene Bouet-Willaumez, 1933 © Condé Nast Archive

Estávamos em 1962 e a Vogue estava adormecida. Diana sabia que tinha de a tornar "a" revista de Moda e instintivamente - tudo em Vreeland era instinto - injetou-a com o youthquake dos anos 60 e das ruas de Londres, trouxe a liberdade, a energia. Trouxe mundo. Era feliz nas revoluções, na estaca zero, na tela onde se podia pintar. Era feliz quando se atirava fora tudo o que era velho e se comunicava o mundo no papel. 

Vreeland trouxe modelos de todos os continentes, trouxe novos fotógrafos, trouxe visão. Descobriu Edie Sedgwick (como já tinha descoberto Lauren Bacall), foi a primeira a publicar uma fotografia de Mick Jagger, fez com que Manolo Blahnik começasse a desenhar sapatos, deu o empurrão a Oscar de la Renta e Diane von Fürstenberg. "Consegues ver uma revolução a aproximar-se na roupa. Consegues ver e sentir tudo na roupa."

Diana Vreeland em 1979, fotografada por Horst P. Horst © Condé Nast Archive
Diana Vreeland em 1979, fotografada por Horst P. Horst © Condé Nast Archive

Diana Vreeland tornou-se no oráculo do que estava para chegar e traduzia-o para os leitores. Deu personalidade às modelos e tornou as personalidades e celebridades em modelos também. Celebrou as falhas: se alguém tivesse uma peculiaridade, seria a peculiaridade mais bonita de todas. Espaços entre os dentes, alturas descabidas, narizes megalómanos (foi Vreeland que quis fotografar Barbra Streisand de perfil e fazer do seu nariz um monumento). Publicou o corpo nu de Marisa Berenson. Apaixonou-se por Twiggy. 

Fez a Vogue ser sobre a vida. Fez a Vogue mergulhar na curiosidade, na experimentação, na fome do futuro. Fez a Vogue ser maior que si mesma, fê-la ser mais do que Moda, fê-la ser arte e espetáculo e performance e música e cinema e cultura. Fê-la, também, ter personalidade.

Diana deixava-se fascinar por cirurgias plásticas, por pornografia, por tudo o que parecesse vulgar e mundano. Deixava-se fascinar por pessoas e pelas fantasias a partir das quais construía a sua realidade - afinal, o natural era tão aborrecido.

Mas também tinha uma feminista como Marguerite Duras a escrever para a sua revista. Também contava histórias - como aquela famosa e insana em que enviou Veruschka para ser fotografada com pelos no Japão, em que a inspiração foi The Tale of Genji, de Murasaki Shikibu, o primeiro romance a ser escrito por uma mulher.

Diana Vreeland não falava de dinheiro, falava de arte, e quando chegaram os anos 70 isso deixou de ter espaço no meio editorial.

Diana Vreeland na sua sala, que chamava de Jardim do Inferno, em 1979, fotografada por Horst P. Horst © Condé Nast Archive
Diana Vreeland na sua sala, que chamava de Jardim do Inferno, em 1979, fotografada por Horst P. Horst © Condé Nast Archive

Eis o que nos esquecemos vezes demais. Ou é tudo, ou é nada: tudo o que existe no meio é aborrecido demais. O extraordinário e o extremo e o extra são os únicos patamares que podemos querer atingir. No fim do dia, a visão é tudo o que temos, tudo o que é exclusivamente nosso. Mas mesmo isto que é exclusivamente nosso pode, deve, tem de ser um meio para tornar as mulheres - e homens - que estão à nossa volta em pessoas maiores, com mais garra, com mais confiança, com mais poder. A ideia é maior que os factos e a fantasia é a pulsação da vida. Isto foi o que Diana Vreeland nos atirou para o colo quando trouxe vida à Moda, esta foi a responsabilidade que sempre exigiu de todos os que se lhe atravessaram no caminho. Direta ou indiretamente, todos caminhamos um pouco na estrada que pavimentou. O mínimo que podemos fazer por ela é não deixar de sonhar.

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