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Editorial 26. 11. 2017

Dezembro 2017

by Sofia Lucas

 

 

O coração de qualquer tradição espiritual, independentemente da sua origem geográfica ou temporal, vive de um conjunto de princípios comuns que sustentam valores como partilha, bondade e respeito pela dignidade humana. Nesta Vogue de dezembro, vivemos o Natal consigo de uma forma celebrativa, naquilo que nem sempre é só luz, mas também sombra, na fragilidade humana de que somos todos feitos.

Durante o fecho desta edição, recebemos a notícia da morte de Azzedine Alaïa, um designer tão autêntico na sua forma de trabalhar que se tornou num artista verdadeiramente único. As roupas criadas pelo designer com alma de escultor eram incrivelmente fotogénicas, mas tornavam-se ainda mais excecionais junto das mulheres que as vestiam, numa homenagem ímpar à sensualidade e ao corpo feminino.

Alaïa não fazia parte do sistema — criou um sistema próprio ao escolher algo que funcionava para ele e que lhe permitiu trabalhar com paixão e compaixão ao longo de tantos anos. Com o passar do tempo, ganhou o respeito e a admiração de vários designers. Recusava-se a estar integrado num calendário de Moda instituído, não se revia no ritmo alucinado das coleções, nem na abordagem puramente industrial que considerava o mundo da Moda cada vez mais focado e distante da verdadeira essência da criação. Alaïa defendia que a ditadura comercial da indústria era desumana para os designers e que a pressão em materializar ideias novas a cada dois meses tornava tudo impossível, explicando, assim, o excesso de vintage de que acusava a maioria das casas de Moda.

O amor e a dedicação que punha em cada uma das suas criações envolviam-no em todas as fases do processo. “Não faço oito coleções, mas estou envolvido em tudo, desde o início até ao fim. Caso contrário, não seria um couturier, seria um designer. Porque há uma diferença entre um couturier e um designer. É um trabalho diferente, só isso.” A coragem de manter-se no seu próprio caminho valeu-lhe um lugar bem mais sombrio, longe dos holofotes da imensa máquina do marketing de Moda, o que nem sempre lhe trouxe a visibilidade merecida. Sentiu-se revoltado quando a imprensa deu cobertura mediática a coleções de designers inspiradas em técnicas e peças icónicas suas e chegou a avançar com vários processos legais, entre eles contra Roberto Cavalli, em 2015, sob a acusação de plágio do vestido criado por si em 1985 para Tina Turner.

Sobre a Moda, acreditava que duraria para sempre e defendia que existiria sempre à sua maneira, em cada época. Tal como Azzedine Alaïa, que se imortalizará no imenso legado que nos deixa. Alguém que viveu sempre fiel ao seu caminho e com a coragem dos artistas geniais, a sentir cada momento com a intensidade do presente. Sem confiar no futuro, a que chamava obscuro pela noção maior que só alguém muito grande tem da fragilidade humana, e de como tudo na vida pode mudar a qualquer instante.

É esta a consciência com que devemos viver, e celebrar, cada momento.

Feliz Natal.

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