Moda  

Deve ser para rir: o regresso do humor à Moda

14 Oct 2026
By Pedro Vasconcelos

Editorial Moving Colors da edição The Sport da Vogue Portugal, publicada em julho de 2024.

Entre Paris, Londres e uma quantidade suspeita de esquilos, o humor está de volta à Moda.

Na aldeia global, tentar distinguir as capitais da Moda pelo seu sentido de estilo é um exercício ingrato. Já lá vão os dias em que Milão e Nova Iorque podiam ser identificadas apenas pelo street style. A Internet e o seu efeito globalizante destruíram muitas das distinções indumentárias locais. As mesmas lojas existem em capitais espalhadas pelo mundo e a cobiça online possibilita que qualquer peça de roupa seja entregue com overnight shipping. No entanto, ainda que este argumento seja teoricamente são, o que é facto é que a minha experiência empírica difere ligeiramente. Quando vinha a Paris simplesmente para reportar as diferentes e frequentes semanas de Moda, o meu estilo londrino destacava-se. O meu roupeiro composto quase integralmente de designers britânicos não se assimilava com o padrão parisiense. Extrovertida, por vezes até peculiar, a Moda londrina encontra a sua fonte numa rebelião antiestabelecimento que se opõe diametralmente ao padrão francês. Sabia, portanto, quando me mudei para a cidade das luzes no princípio deste ano, que teria de ajustar a minha sensibilidade. As minhas botas de borracha de Olly Shinder teriam de ser substituídas por sapatos de cabedal da Saint Laurent. Qual é a minha surpresa quando, após a mudança, começo a notar que, entre as rachas deste estoicismo glamoroso, se revelam vislumbres de humor. Tudo começou em janeiro, imediatamente após a minha mudança.

A minha travessia do Canal da Mancha coincidiu com a estreia de Matthieu Blazy nas lojas da Chanel. A visão do designer interceta interpretações sóbrias da maison famosa pelas suas carteiras acolchoadas e injeta uma dose de camp. Não que elementos de humor sejam novidade na marca. Karl Lagerfeld, diretor criativo da Chanel durante 36 anos, normalizou — alguns discutiriam que, aliás, inventou — o convívio entre glamour extremo e uma leveza cómica. Mas, desde o seu auge, a indústria mudou bastante. Os últimos sete anos no mundo da Moda têm sido governados por um minimalismo conservador. Hesito em nomear a opressiva tendência, tal é o meu trauma de ter de escrever sobre quiet luxury. Felizmente, numa indústria governada por tendências, tudo passa. Ainda que ainda não esteja no auge da sua antítese, a preppiness minimalista é quebrada por uma nova forma de contenção. As prioridades continuam a ser silhuetas relativamente simples, mas entre as malhas e as calças neutras, um sentido de humor começa a revelar-se. Uma textura incomum, uma cor peculiar, um acessório invulgar. A tensão de um uniforme padrão é aliviada com sentido de humor. Blazy é mestre na arte. Para a sua estreia, a coleção primavera/verão 2026, a sua fonte de inspiração saltou os seus dois predecessores mais recentes e foi diretamente para a fundadora da maison. A acompanhar as silhuetas clássicas de Gabrielle “Coco” Chanel — cinturas descaídas e silhuetas relaxadas — o designer encontrou dinamismo em bainhas emplumadas e acessórios bem-humorados. Um par de brincos em concreto sumariza este sentido de humor. Um baloiço feito a partir de cristal é habitado por um pintainho sorridente.

À medida que atingimos o aniversário da sua estreia, o seu ponto de vista inicial apenas se revigorou. O desfile que se seguiu, Métiers D’Art 2026, inflou o seu sentido de humor. A coleção que foi apresentada (e inspirada) por Nova Iorque, incluiu os clássicos fatos da Chanel com padrões de queijo derretido, carteiras com cabeças e caudas de esquilos felpudos e sweatshirts com lantejoulas a soletrarem o clássico I “heart” NY. Estes pequenos escapes de humor não são totalizantes. A maioria da coleção não deixa de ser silhuetas e texturas ditas normais, mas os pequenos momentos de whimsy revelam algo. Um pouco por toda a indústria, até os designers mais sérios tentam introduzir um bocadinho de whimsy. Para o outono/inverno 2026 na Christian Dior, Jonathan Anderson complementa a sua feminilidade romântica com sapatos de salto alto na forma de nenúfares ou uma carteira Lady Dior feita de margaridas de cabedal. Volumes estranhos crescem em saias tradicionais.

Não estamos prontos para anunciar o retorno do maximalismo, mas é inegável que, se duas das maisons mais importantes da indústria concordam em algo, é um sinal. Estamos perante uma fase de um minimalismo bem-humorado. Face a um mundo assustador, quem pode culpar os amantes de Moda por quererem algo que lhes anima o dia, que demonstre a sua personalidade? Num mar de bege e caxemira, um apontamento de felicidade é um salva-vidas. Marcas como a Moschino foram fundadas no princípio de que não há nada mais interessante e intelectual que o humor. Hoje em dia, este legado é perpetuado por marcas mais jovens que adaptam a noção às sensibilidades da geração Z. August Barron e Vaquera exploram o que o humor significa na era da Internet. Interessante que os últimos dois exemplos se encontrem sediados em Paris. Diria aliás que, apesar de o meu estilo pessoal se ter tornado mais clássico, desde que me mudei para a capital francesa, o sentido de humor do meu guarda-roupa melhorou. Quer seja um bag charm ou um punho de uma camisa que me sai pela sweater fora, a irreverência está sempre lá para quem sabe onde procurar.

Originalmente publicado no The Humor Issue, na edição de outubro de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.

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