Design, disse ela

"Inspiring Women" In Partnership With

Rolex Logo
Artigo Anterior

Daniela Ruah: "Quero dar a imagem de força às mulheres"

Próximo Artigo

Sylvia Earle: "Acho que devia estar na moda importarmo-nos"

Inspiring Women 7. 6. 2018

Design, disse ela

by Irina Chitas

 

Tantas vezes ocultadas das linhas de agradecimentos, tantas vezes esquecidas, tantas vezes ignoradas. É necessário recalibrar a história e apontar os holofotes às mulheres que realmente desenharam a vida como a conhecemos. 

Charlotte Perriand

“Em qualquer decisão importante há uma opção que representa a vida, e é essa que tens de escolher… A vida é algo em movimento.” 

Chailse longue LC4, por Le Corbusier, Pierre Jeanneret e Charlotte Perriand  © Cassina

Conta a lenda que, aos 24 anos, Perriand entrou no estúdio de Le Corbusier, em Paris, e lhe pediu emprego. Ele respondeu que, ali, não se bordavam almofadas. Se Charlotte tivesse assentido, não estaríamos a escrever estas palavras, mas a designer, que se havia especializado em tecnologias metalúrgicas e aço tubular, voltou para casa e transformou o seu pequeno apartamento numa instalação. Chamava-se Bar no Sótão. Convidou Le Corbusier, que a contratou na hora e a deixou encarregue do designde mobiliário. É por isso que muitos dos objetos icónicos que associamos ao génio da arquitetura têm, na legenda, o nome de Charlotte Perriand. Feminista acérrima, é a ela que podemos agradecer o modelo de cozinha desenvolvido para a Unité d’Habitation, composto por um balcão que separava a zona de jantar da zona de cozinhar e que, dispensando paredes, permitia às mulheres participar nas conversas enquanto terminavam o jantar. Viajou pelo Japão e pelo Vietname, estudou a fundo a cultura asiática e deixou que o seu calor se infiltrasse nos designs— é assim que nasce a sua icónica chaise-longuede finas tiras de bambu. E é também assim que nasce um ícone.

Eileen Gray

“Para criar, temos de questionar tudo primeiro.” 

Cadeira Transat, desenhada por Eileen Gray, que pertencia ao Marajá de Indore, leiloada pela Phillips por mais de 1 milhão de euros.

Desenhou uma das cadeiras mais icónicas da história (a Transat, em 1927), é autora da poltrona mais cara alguma vez vendida (um exemplar da sua Dragons, desenhada em 1917, e que pertenceu a Yves Saint Laurent e Pierre Bergé, foi vendido em leilão em 2009 por cerca de 23 milhões de euros) e irritou solenemente Le Corbusier, amigo do amante romeno de Gray, costumava pernoitar várias vezes em casa do casal e, com inveja da inovação modernista de Eileen, teimava em pintar vários murais no lar que a designerqueria manter minimalista, muitas vezes, fazia-o nu. Eileen Gray não foi, portanto, um espírito leve que flutuou pelas páginas do design. Nascida em 1878, queria ser pintora. Quando uma amiga pediu para Eileen lhe fazer a decoração da casa, deu por si a apaixonar-se pelo designde produto e foi nesse primeiro projeto que cunhou uma das suas peças mais adoradas: a cadeira Bibendum. A irlandesa, assumidamente bissexual, fez de Paris a sua casa e aventurou-se na arquitetura modernista, nunca deixando de tornar-se num ícone do mobiliário. Quem não conhece a sua mesa redonda em vidro e aço tubular E-1027 (inspirada nas experiências de Marcel Breuer, na Bauhaus) viveu numa gruta desde o início do século XX. Se bem que, se a gruta for mobilada por Gray, não nos importamos de ir lá jantar.

Lilly Reich

“Tive alguns trabalhos pequenos, mas agora não há nada. Não é uma situação bonita, mas somos tão impotentes para mudá-la.” (Desabo de Lilly Reich numa carta a um amigo, em 1935.)

A icónica cadeira 'Barcelona'  © Knoll 

Nasceu em Berlim, em 1885, estudou bordado, mas rapidamente começou a desenhar mobiliário e roupa. Lilly Reich era apaixonada pelas novas formas de produções, técnicas e materiais industriais, e, tal como Charlotte Perriand, foi das pioneiras no uso de aço tubular. Talvez tenha sido por esta mestria que conquistou um lugar na admiração de Mies van der Rohe — e quem diz na admiração, diz um emprego no seu estúdio de design. Até hoje, não há certeza sobre quem terá desenhado a poltrona Barcelona, embora a história tenha sido obviamente mais simpática para Mies. Vá lá saber-se porquê. Ironicamente, foi Reich a proteger a história dos dois: durante a Segunda Grande Guerra, Lilly arquivou cerca de 3 mil desenhos de Mies e novecentos seus, e entregou-os a Eduard Ludwig para que os escondesse na casa dos seus pais, na zona este alemã, enquanto Berlim era bombardeada pelas forças aliadas. Antes de morrer, Mies conseguiu recuperar todos os desenhos, tanto os seus, como os de Reich, e cedeu-os ao MoMA, de Nova Iorque (que, recentemente, dedicou toda uma exposição ao génio modernista de Lilly Reich). A mesma persistência que levou Lilly a tornar-se num ícone, fê-la acabar a carreira demasiado cedo: recusou-se a seguir os seus colegas num êxodo da Alemanha nazi e, permanecendo em Berlim, deixou de encontrar emprego (a Bauhaus, onde foi instrutora chefe, fechou no verão de 1933) e acabou por morrer dois anos depois do fim da guerra. 

Marianne Brandt

“De início, eu não era aceite com prazer, não havia lugar para uma mulher numa oficina de metal. Eles sentiam e expressavam o seu desprazer, dando-me todo o tipo de trabalhos aborrecidos e tristes. Quantos pequenos hemisférios de frágil prata eu martelei pacientemente, pensando que esta era a maneira que tinha de ser e que todos os princípios eram difíceis. Mais tarde, as coisas acalmaram e todos nos demos bem.”  

 Cinzeiro em metal © Neue Galerie

Se houvesse um equivalente musical para a obra de Brandt, provavelmente chamar-se-ia light metal. A alemã formou-se em Pintura, mas, aos 31 anos, descobriu que era no metal que as suas mãos se moviam fluidamente. Estudou com o modernista húngaro László Moholy-Nagy e sucedeu-o no cargo de diretor de metalurgia na Bauhaus em 1928, usando a posição para negociar parcerias com a indústria. Quando deixou a Bauhaus, trabalhou com Walter Gropius, mas depressa se tornou na especialista de designem metal da Ruppel. Tal como Lilly Reich, a depressão económica alemã e a guerra subsequente bombardearam a sua progressão e Brandt voltou a Chemnitz, a sua terra natal, para reconstruir a casa de família. Continuou, com os meios que podia, a fazer a sua arte, a aventurar-se em trabalhos de fotomontagem que se focavam no papel da mulher em períodos de guerra, uma era em que se sentiam livres para experimentar novas formas de trabalho, Moda e sexualidade. Marianne avançou para a fotografia e a sua série de autorretratos que a representavam como a Nova Mulher da Bauhaus são a prova última em como nem uma guerra mundial consegue estilhaçar a criatividade em escombros fumegantes. 

Ray Eames

“Escolhe o teu canto, trabalha nele cuidadosamente, intensamente e no melhor das tuas capacidades e, dessa forma, podes mudar o mundo.” 

Exposição 'The World Of Charles And Ray Eames' © Getty Images 

Era fisicamente impossível este artigo existir sem Ray Eames. Chamam-lhe a designermais influente do designmodernista e até o seu marido, Charles, a quem tantas vezes a história resolveu atribuir o crédito singular, chegou a dizer: “Tudo o que eu consigo fazer, a Ray consegue fazer melhor.” Ray Eames foi a responsável por encontrar uma forma de criar uma curvatura no contraplacado. Nunca ninguém o tinha feito antes. O clímax da sua aplicação foi a Lounge Chair Wood(LCW), com mais atenção de Ray do que de Charles, porque este estava concentrado no designem massa para os tempos de guerra. A LCW, menos famosa mas infinitamente mais complexa do que a Eames Lounge Chair, é o êxtase de qualquer amante do designe talvez só equiparável em assombro à sua Case Study House, nas Pacific Palisades, uma obra de arte arquitetónica facilmente considerada uma das mais importantes residências do pós-guerra. Contudo, Charles e Ray, como qualquer generoso, inquieto, intenso criativo, não se contentaram com as sérias conquistas e avançaram para a experimentação em vídeo, que se colocaria na vanguarda da exploração. É mesmo difícil encontrar algum aspeto de Ray que não seja um fascinante mundo por si só. 

Artigos Relacionados

Notícias 5. 6. 2018

Uma questão de equilíbrio

Uma balança onde o peso da estética equivale ao peso da sustentabilidade e da responsabilidade ética, ambiental e social. Um compromisso que une pessoas, instintos, ideias, ambições e valores. Um propósito comum que faz nascer Gucci Equilibrium, o novo projeto da Casa italiana.

Ler mais

Inspiring Women 31. 5. 2018

Daniela Ruah: "Quero dar a imagem de força às mulheres"

Sejamos sinceros: se há motivos para sentirmos orgulho nacional, Daniela Ruah é um deles.

Ler mais

Inspiring Women 10. 5. 2018

We’ve got the power

O poder de uma mulher não se condiciona pelo que veste, mas o que se veste dá tantas vezes poder a uma mulher.

Ler mais

Este website utiliza cookies. Saiba mais sobre a nossa política de cookies.   OK