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Desejo e reinvenção: o novo capítulo da Semana de Moda de Milão

09 Mar 2026
By Vogue Portugal

Prada FW26

Entre primeiras e segundas coleções, a capital da Moda italiana celebra uma estação marcada pela novidade.

A estação passada foi uma de mudança em Paris. Novos nomes nas casas mais basilares da cidade. Para o outono/inverno 2026, o mesmo é verdade em Milão. As marcas italianas mais importantes são alvo de metamorfose. O jogo das cadeiras da indústria é difícil. Não só é desafiante chegar a estas posições, como, quando já lá se está, um equilíbrio sensível tem de ser alcançado. Mesmo que em capitais diferentes, a pergunta mantém-se: como renovar a identidade de uma marca sem que esta abandone a sua herança?

E, com esta pergunta em mente, Demna propõe uma resposta na Gucci. Ainda que tenha sido o primeiro desfile oficial para a marca, a coleção outono/inverno 2026 representa já o terceiro momento de Demna Gvasalia na casa florentina. Depois de um primeiro exercício quase enciclopédico (em que revisitou os arquétipos construídos por antecessores como Tom Ford e Alessandro Michele), o designer parece agora interessado em algo mais subtil: a Gucci tal como existe no imaginário coletivo. O resultado é deliberadamente exagerado, quase caricatural. As carteiras com monograma surgem atravessadas sobre fatos de treino, vestidos de lantejoulas são curtos, polos colam-se a torsos musculados como uma segunda pele. Ainda que claramente Gucci, o vocabulário técnico de Demna esconde-se por detrás de monogramas. Fatos de treino transformam-se em vestidos, leggings adquirem estrutura de calça, sapatos híbridos oscilam entre ténis e sapato clássico. Casacos de pele justos envolvem o corpo de forma quase restritiva, braços presos, silhuetas comprimidas. É sexo com S grande.

Gucci FW26

Se Gucci é a amante, Prada é a esposa. Para outono/inverno 2026, Miuccia Prada e Raf Simons voltam a explorar uma das suas obsessões recorrentes: a complexidade da vida contemporânea. A coleção foi construída em torno da ideia de transformação. Ao longo do desfile, as mesmas modelos regressavam à passerelle com menos camadas, revelando novos looks escondidos por baixo. Mas, ao contrário de Demna, aqui o objetivo não era a sensualidade, mas uma forma de sugerir como a roupa se adapta às diferentes versões de quem a veste ao longo do dia. A lógica de sobreposição refletiu-se também nas peças: vestidos delicados usados sobre malhas, saias combinadas com calções desportivos, tecidos preciosos com elementos utilitários. O gosto pela imperfeição que o duo tem demonstrado nas últimas estações está de novo presente na passerelle. Bordas ligeiramente desgastadas, tecidos aparentemente envelhecidos.

Prada FW26

Na sua segunda estação à frente da Bottega Veneta, Louise Trotter apresenta uma coleção que se desenvolve quase organicamente ao longo do desfile. As propostas da designer britânica começaram com alfaiataria. Mas não uma alfaiataria rígida ou excessivamente formal: ombros arredondados, linhas curvas, tecidos que se acumulam e ondulam em vez de definirem contornos rígidos. Mesmo nos looks mais formais há sempre uma sensação de movimento. A ideia de crescimento torna-se literal quando a experimentação material que iniciou na estação passada entra em jogo. A saia de franjas em fibra de vidro que marcou a sua primeira coleção reaparece aqui expandida, envolvendo o corpo. Noutras peças, o pelo curto é trabalhado de forma a criar superfícies ondulantes, texturas que parecem vivas.

Bottega Veneta FW26

Se outras casas exploraram a experimentação, a Max Mara optou por um caminho diferente: reforçar a ideia de poder que sempre definiu a marca. Inspirando-se em referências históricas da época medieval, a coleção imaginou um guarda-roupa contemporâneo com ecos de armadura. Não só no sentido literal, mas também através da estrutura das peças. Casacos longos de lã pesada dominaram a passerelle. Capas, mangas amplas e silhuetas envolventes sugeriram proteção tanto quanto elegância. A paleta mantinha-se fiel ao universo da casa — camel, castanhos profundos, carvão, tons de vinho. Mais do que um exercício histórico, o designer Ian Griffiths (que lidera a marca desde 1987) constrói uma metáfora: roupas concebidas para mulheres que atravessam o mundo com determinação. 

Max Mara FW26

Poucas nomeações recentes geraram tanto entusiasmo quanto a chegada de Meryll Rogge à direção criativa da Marni. A designer belga, que passou pela Marc Jacobs e Dries Van Noten antes de lançar a sua própria marca, sempre demonstrou uma afinidade natural com o universo peculiar da marca italiana. Feminilidade pensada através de um humor estranho, quase irónico. Mas afinidade estética não basta. O que realmente distingue a sua estreia é a relação afetiva que Rogge mantém com a marca. Em entrevistas recentes, recordou um vestido Marni como a sua primeira compra de designer e um par de sapatos adquiridos para celebrar o primeiro salário. Esse tipo de ligação raramente passa despercebido. Mesmo com todo o amor que expressou pela marca, Rogge evita qualquer nostalgia excessiva. As referências ao arquivo são tratadas com liberdade. Botões surgem em escala exagerada, padrões multiplicam-se. Uma saia floral translúcida combinada com uma t-shirt e um cinto de cintura baixa demonstra essa facilidade em equilibrar elementos improváveis. Uma estreia brilhante numa estação em que a novidade foi tendência.  

Marni FW26

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