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Curiosidades 25. 3. 2021

Child's Play: Crianças e Criatividade

by Sara Andrade

 

“Todas as crianças são artistas. O problema é manterem-se artistas quando crescem.” A frase é de Pablo Picasso, mas muitos, quase todos, assinariam por baixo. Concordando que há exceções que confirmam a regra, porque é que a entrada na adolescência, juventude, vida adulta, nos rouba a capacidade de olhar para o mundo com olhos de criança? Porque que é que a criatividade é para os miúdos uma brincadeira de crianças e, para os graúdos, pensar fora da caixa é um quebra-cabeças?

Fotografia de Jim Warren

"Gosto delas [das crianças] porque são o grupo de pessoas menos irritante. Acham-nas as mais irritantes. Podem ser muito irritantes, fazer barulho. Mas são as menos irritantes porque têm menos probabilidade de dizer algo que já ouvimos um milhão de vezes. Ainda não estão cheias de clichés, sabes? São mais originais do que os adultos. Isso é-lhes retirado muito depressa. Não sabem o que as coisas são, por isso, inventam ou fazem perguntas. Não costumam tentar convencer-nos de que sabem algo que não sabem, sabes? E acho-as muito interessantes.” Se ainda não viu Pretend it’s a City, de Martin Scorsese, na Netflix, com a cáustica Fran Lebowitz como figura central, esta é uma das muitas citações a reter da autora. Vale a pena estampar todas numa t-shirt ou caneca, mas, para este texto em particular, esta é a única que queremos como premissa. Afinal, acreditando que há pouca resistência à veracidade desta hipótese, interessa confirmá-la, sim, mas, acima de tudo, saber o seu porquê. A hormona do crescimento é inversamente proporcional à criatividade? À medida que o corpo se desenvolve, a criatividade não o acompanha? É o mundo que nos tolda e restringe a capacidade criativa? Será que todo o humano é criativo, e é a sociedade que o corrompe?

"As crianças são naturalmente criativas e têm de o ser, mesmo sem terem consciência disso."

“As crianças não têm que ser mais criativas do que os adultos. O processo e a capacidade criativa existirá, à partida, ao longo da vida. Assume-se que as crianças são mais criativas porque brincam e vemo-las a brincar a maior parte do tempo”, começa por esclarecer Joana Janeiro, psicóloga clínica com um extenso trabalho na psicologia infantil. “Para Winnicott, autor de referência na psicologia infantil, ‘o brincar é uma experiência criativa (…) um forma básica de viver’. A criatividade nasce nos primeiros anos de vida e assume uma importância vital no desenvolvimento psíquico e emocional das crianças. As crianças são naturalmente criativas e têm de o ser, mesmo sem terem consciência disso. Enquanto crescem, são e podem experimentar ser, numa busca de si mesmas.” Então, no caso da criança, a criatividade e a capacidade de questionar e descobrir o mundo à sua volta sem restrições é também uma forma de se formar e saber quem é? Janeiro continua: “Diz Inês Manaças, psicóloga clínica, numa introdução a um estudo da criatividade: ‘Mil personagens fui, pelo meu desejo de as ser.’ Enquanto brincam, principalmente ao faz-de-conta, [as crianças] encontram-se num território fértil e particularmente flexível no mundo infantil, entre a fantasia e a realidade. E é nesta transição que é possível criar e ser criativo. A capacidade de representação e de criar símbolos são condições favoráveis à brincadeira e aos processos criativos. Ou seja, se uma criança percebe que um objeto é uma caneta, mas também pode ser outra coisa, pode fazer-de-conta que a caneta é uma espada e propõe uma luta. Está em condições de criar. Esta capacidade é mais importante do que se pode pensar, constituindo-se a base das aprendizagens escolares, como a aquisição dos mecanismos da leitura e da escrita, processos criativos por excelência.”

De certa forma, ao crescer, diminuímos o nosso tempo de brincadeira e, consequentemente, o enquadramento para a criatividade se manifestar. Por outro lado, vamo-nos descobrindo, vamo-nos formando, e assim encurtando a margem de manobra para nos surpreendermos. “A criatividade é particularmente evidente nas crianças, porque o espaço e o tempo de brincadeira dão a oportunidade de se viverem e se (re)criarem novos universos”, acrescenta a psicóloga. “É um lugar privilegiado quando a realidade é um excesso, se atrasa, se adianta ou se constitui como um impedimento para o crescimento ou a satisfação de desejos e necessidades. O brincar é também a ferramenta principal de trabalho psicoterapêutico, por ser um lugar onde é possível encenar, repetir angústias ou outras formas de expressão de sofrimento, e encontrar novas soluções. As crianças terão, à partida, um contacto mais espontâneo com as emoções e os afetos, através da brincadeira. Este contacto pode facilitar a emergência dos processos criativos. A maior parte das vezes, pela expressão e recriação do sofrimento, como a tristeza e a frustração. Podemos entender que há uma expressão criativa mais evidente nas crianças, bem como características psíquicas do desenvolvimento infantil que poderão facilitar a emergência do processo criativo, mas a criatividade exprime-se de outras formas, mais artísticas e até científicas. A criatividade é pensar em novas e inesperadas formas, como é característico do pensamento divergente”, remata. O que nos acontece, então, para perdermos esta capacidade de nos maravilharmos, de insistirmos no pensamento divergente, de olharmos para as coisas de outra forma, de olhar para uma caneta e ver uma espada?

Em pequenos, estamos menos condicionados por padrões de pensamento, padrões esses que vamos adquirindo à medida que vamos vivendo e aprendendo: para lidar com os obstáculos e situações do dia a dia, adotamos respostas imediatas, técnicas de pensamento que resultam e que servem o nosso propósito e que, por isso, se tornam instantâneos. Isto é também um modo de adaptação à sociedade – adequamos a mente às normas sociais e mentalidades da comunidade por forma a sermos mais eficazes no relacionamento com os outros. O facto de sermos bem sucedidos a fazê-lo, significa que tendemos a repetir as fórmulas que funcionam e, por isso, ficamos menos inclinados a pensar fora da caixa ou a olhar para as coisas com outra perspetiva, como uma criança faz (alargando o seu espectro imaginativo). Somos reféns do nosso sucesso, porque quando algo funciona, temos tendência a não sair dos seus parâmetros para experimentar algo diferente, para criar algo novo. De certa forma, esta obrigatoriedade de ter êxito significa que somos também condicionados pelo medo: de falhar, de não pertencer, de não ser aceites. As crianças ainda não ganharam o sentido de autopreservação (física, mas também social) como os adultos, por isso, têm menos receio de ousar, pensar fora da caixa ou expor ideias, por mais ridículas que possam parecer – assim como, até lhes ser ensinado, não veem perigo numa tomada elétrica ou em alturas. A noção de ridículo não existe, porque não existe constrangimento de normas: não é ridículo acreditar no Pai Natal ou no Super-Homem, sendo que é perfeitamente natural este herói usar cuecas por cima de collants. Não há balizas do que é socialmente aceitável ou não, por isso, vale tudo o que a mente imaginar. E aí mora a criatividade, pelo menos dentro da possibilidade de concretização prática do que se pode imaginar. O crescimento, muitas vezes, restringe essa concretização: seja pelo que a sociedade aceita, seja pela limitação das nossas próprias emoções, que se vão acumulando numa bagagem emocional ao longo da vida.

“Para que exista flexibilidade criativa, é preciso haver uma articulação possível e flexível entre processos mentais”, explica Joana Janeiro. “Na ligação e diálogo entre a realidade e a fantasia. Entre o desejo e a racionalidade. O mundo interno e o externo, como a sociedade, com o seu contexto e normas. Algumas organizações psíquicas e sociais podem funcionar com maior rigidez e encontram dificuldades no processo criativo. Uma tendência para repetir em vez de criar novo e diferente. As dificuldades em entrar em contacto com a tristeza ou outras formas de expressão do sofrimento, podem dificultar o processo criativo, e também condicionar a própria necessidade de criar. Uma perda de espontaneidade associada a uma maior rigidez defensiva, provocada pelas exigências da realidade da vida adulta, poderão também condicionar a importância da valorização e legitimidade da criatividade. Bastando-se a si mesma, a criatividade necessita de contributos exteriores para se enriquecer, pelas vias da expressão cultural, artística, do sentido de humor, ou seja, pelo prazer e entusiasmo pela vida”, adverte a psicóloga. Então, é mesmo a sociedade que corrompe a criatividade? Ou melhor, a “vida adulta” com todo o seu acumular de emoções e desgostos e obrigatoriedade de uma vivência em comunidade? Calma, não sejamos extremistas – viver em sociedade e ser criativo não são ideias mutuamente exclusivas. “Somos todos, em condições favoráveis e de saúde mental, mais ou menos criativos”, garante a especialista, assegurando que a criatividade não se perde ao longo da vida; fica, talvez, adormecida, acrescentamos nós. Mas essa dormência pode ser contrariada. “Sabemos que os métodos de ensino assentes em metodologias tradicionais, da repetição e da cópia, bem como a ambição económica nas produções em massa, podem retirar espaço para a criatividade. Mas caminhamos, também, para uma sociedade onde impera um maior dinamismo, imprevisibilidade e um apelo à criatividade. Trabalhos que exigem criatividade têm ambientes facilitadores que a estimulam e alimentam, com espaços livres e próprios para a brincadeira e o devaneio.”

Isto quer dizer que a criatividade inata, tanto pode ser castrada como estimulada pelo ambiente. “A capacidade criativa deve manter-se”, sublinha Janeiro, quando questionamos se a vida adulta nos rouba obrigatoriamente a criatividade. “A sua manifestação pode, no entanto, exprimir-se de forma diferente ao longo do tempo. Mas não tem que se perder. Pode-se alimentar, com o quotidiano. [Hayao] Miyazaki [animador e cineasta japonês], num documentário que acompanha o seu processo criativo, filmou a rua enquanto se deslocava de carro. E justificava: ‘É nos cenários do quotidiano que eu descubro o extraordinário […] as ideias vêm do inesperado’. O aborrecimento, que surge em alturas sem atividades ou deveres assentes na operacionalidade. Os fatores da vida e da nossa realidade externa e interna. Os desafios e épocas de crise. O sofrimento. A liberdade. A cultura, a arte e o sentido de humor.” São todos fontes de inspiração para a criatividade, nota, corroborando esta ideia de que o mundo à nossa volta pode contribuir para que sejamos mais criativos – ou pelo menos, para que consigamos aguçar essa veia, sempre que a sintamos menos manifesta. No caso das crianças, o tempo que têm disponível (porque o seu intuito é absorver o que as rodeia), torna-as extremamente observadoras e atentas (mais que os adultos, distraídos com os afazeres do quotidiano), o que faz com que se deixem influenciar pelo mundo exterior de uma forma relativamente incólume: além de não estarem condicionadas (ainda) pelas regras sociais, também não o estão pela bagagem emocional que pode imobilizar vontades de criar. Ao mesmo tempo, o mundo exterior obriga-as a criarem mecanismos de resposta que serão inevitavelmente fruto da sua criatividade – se não conhecem nada, terão de desenterrar a resposta da sua mente para lidar com as situações que lhes são apresentadas. “Winnicott fala num desenvolvimento gradual da criatividade: inicia-se em estádios muito precoces do desenvolvimento, a que chama de ‘fenómenos transicionais', fase em que as crianças elegem um objeto (peluche, por exemplo) para se tranquilizarem durante o sono ou em situações de separação dos pais”, começa por explicar a psicóloga. “Este fenómeno pode ser já um esboço criativo, pela alternativa tranquilizadora criada perante a inevitabilidade da separação e ausência dos pais. Ao longo do crescimento, a criança passa pela fase de brincar mais só, depois pela capacidade da brincadeira partilhada e daí às experiências culturais, como expressão criativa. A criatividade terá também funções diferentes de acordo com a idade. O adulto (artista) recria simbolicamente a expressão do seu mundo interno, pela obra de arte. A criança é impelida a criar para crescer. Para sair de relações de maior dependência, ou para criar a fim de se criar a si mesma. A criatividade está na base do crescimento e do desenvolvimento psíquico e continuará enquanto existir vida psíquica. É, no entanto, importante manter e alimentar a criatividade. Há fatores que a podem condicionar.”

Mas será só o mundo exterior, além da idade, que condiciona o nosso grau de criatividade? O nosso ADN pode ter uma propensão mais ou menos criativa? É possível uma pessoa ser naturalmente mais criativa que outra, nascer com alguma queda para a criatividade? Ou seja, a criatividade é, ou pode ser, em determinado grau, biológica? “Acredita-se que as crianças vêm preparadas com todas as ferramentas necessárias para serem criativas. Existem, naturalmente, heranças genéticas e culturais associadas a outros fatores, como uma boa motricidade fina, que poderá ajudar especialmente no desenho e na pintura, por exemplo”, responde Joana, salientando uma vez mais esta necessidade de haver condições para alimentar o gene criativo. “No sentido em que as crianças terão, num percurso de desenvolvimento saudável, a criatividade como ferramenta de base, quase em full-time. São, portanto, artistas, seja nas pinturas, nas construções, nos desenhos, nas histórias e nas brincadeiras do ‘faz-de-conta.’ Estão em constante criação.” E quando crescemos, a realidade sobrepõe-se ao faz-de-conta? Esta aprendizagem que fazemos das respostas aos estímulos exteriores com um pensamento lógico corta-nos a criatividade? “Hayao Miyazaki diz que os filmes fáceis de entender são chatos e que os enredos lógicos sacrificam a criatividade. Gosta de quebrar as convenções porque as crianças não pensam com a lógica. O esforço criativo, que tanto pode ser artístico ou científico, é encarado como um processo, que supõe um balanceamento contínuo entre o pensamento divergente e a racionalidade. A criatividade é, portanto, lógica, e ao mesmo tempo não é”, clarifica Joana. O que não quer dizer que abandonar o pensamento lógico e sacrificarmos a nossa vida em sociedade seja a única forma de sermos criativos; a criatividade e a sociedade não são mutuamente exclusivas – nem a criatividade e a vida adulta. É possível compatibilizar os dois: quando um adulto é deveras criativo, “à partida, terá maior flexibilidade e capacidade de balanceamento. Entre o seu mundo e as normas, a realidade e a fantasia. Entre o seu desejo e a realidade. Se for verdadeiramente criativo, encontrará soluções para se relacionar com as normas.” Até porque a criatividade existe na vida adulta – seja em hobbies, seja profissionalmente: os adultos em áreas de trabalho ou com interesses em que a procura de criatividade seja exponencial desenvolvem formas de se manterem criativos, como hábitos que os possam levar a territórios imprevisíveis, ou seja, escolhem conscientemente situações fora da (sua) zona de conforto, exploram o desconhecido e procuram vozes diferentes das suas. A sistematização da criatividade pode não ser tão orgânica como a da imaginação infantil, mas consegue retirar da experiência de vida ferramentas que a possam incrementar e até torná-la mais impactante (quiçá até de forma lucrativa para a sociedade atual).

Em 1944, Edwin Land, físico e inventor americano, estava de férias com a família e tinha acabado de tirar uma fotografia à sua filha Jennifer, de três anos. A menina quis ver a foto, mas a tecnologia da altura não permitia. Ela perguntou porque é que não a conseguia ver de imediato. E questionou as vezes suficientes para Edwin Land inventar a Polaroid. Uma boa deixa para voltarmos a Picasso. O pintor, além da frase que serviu de premissa a este texto, também afirmou: “Outros viram o que é e perguntaram porquê. Eu vi o que poderia ser e perguntei porque não?” Se já ficou na mesa que a criatividade em adulto não é inexistente, pelo contrário, talvez só nos falte mesmo insistir, tal como fez Jennifer Land. E pensar como Pablo Picasso. Porque não? 

*Originalmente publicado no The Creativity issue da Vogue Portugal, de março 2021.
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