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Tendências 30. 6. 2022

Convidadas mais-que-perfeitas

by Carolina Queirós

 

“Nem bom vento, nem bom casamento.” Há que dar a mão à palmatória.... Muito depressa se instituem ditados como o supracitado, tão críticos de nuestros hermanos que quase nos fazem esquecer que é dos lados desse (bom) vento que nos chega a pérola mais bem guardada no mercado da Moda: os ensinamentos que constituem o look da convidada perfeita.

© Getty Images

O assunto deste texto não se prende, de todo, com condições atmosféricas, mas pode dizer-se que tem algo que ver com festas de casamentos. Haverá fantasia maior do que um bom casamento? Deixo o tom potencialmente irónico desta questão à ponderação de cada um. O ambiente cénico, as flores, a intimidade característica de uma grande celebração, tudo se faz acompanhar de diferentes níveis de exigência do guarda-roupa dos convidados. Sim, porque enquanto convidados, as condicionantes, restrições, tradições e tendências próprias, implícitas para a presença em qualquer evento de caráter mais ou menos específico, são de tal ordem que o próprio mercado não teve outra alternativa senão criar espaço de resposta para essa procura. Para as “personagens principais” destes momentos reserva-se a predestinada sorte de os viver ao máximo, sem outras preocupações com pequenos pormenores — esses cabem aos invitados, que têm o dever de os decifrar para construir a fantasia. O calendário social evoluiu ao ponto de já não estarmos sequer a falar apenas nos dois ou três casamentos por ano que tínhamos de contabilizar, em pleno calor de julho, numa quinta perdida nos cruzamentos desertos do interior, porque os pais da noiva são de lá e o quarteto de cordas local taxa ao quilómetro por deslocações adicionais. São os bailes de finalistas, as festas de sweet-qualquer-coisa (a partir do 16º aniversário vale quase tudo), os batizados e primeiras-comunhões, as cerimónias de formatura, as despedidas de solteiro, e tudo o que pelo meio se encaixa. Esta trajetória exponencial dos pretextos que encontramos para celebrar o que quer que seja acompanha um tema que desenvolvíamos há um par de edições acerca do poder dos códigos de vestuário, e como também estes têm o dever de suportar o storytelling. A premissa do que escolhemos vestir enquanto convidados implica um jogo de cintura subliminar em que se balançam várias preocupações, nomeadamente de modo a evitar os infames faux-pas: usar branco ou preto num casamento, usar chapéu para cerimónias que comecem depois das quatro da tarde, vestidos curtos para um baile formal, ombros descobertos para celebrações religiosas, linho para uma festa de inverno... a lista de possibilidades é assustadoramente abrangente. Naturalmente, de modo a evitar mais situações “pré-enfarte” de desconforto social, a Moda respondeu com a explosão de marcas, blogs, e propostas que hoje encontramos para colmatar a indecisão sobre o que vestir para o próximo bloqueio na agenda.

Quem nunca se sentiu tentado, face ao convite para uma celebração do género, em folhear as páginas de uma daquelas revistas? O leitor sabe do que estou a falar... Aquelas que temos de descrever como um guilty pleasure sempre que somos apanhados com elas debaixo do braço num domingo à tarde. Aquelas que secretamente preferimos ao clássico que não conseguimos acabar, aquelas que a nossa mãe adora. Desconfio que essa atração fatal se prende com o nervosismo nada miudinho que sentimos quando algumas das nossas opções seguras estão fora de alcance — por mais que tentemos, o little black dress não nos consegue safar sempre — mas cabe-nos escolher olhar para a situação como uma oportunidade e não uma fatalidade. Foi precisamente isso que Sandra Majada, mais conhecida nas redes sociais como Invitada Perfecta (@invitada_perfecta) decidiu fazer. O seu handle diz tudo e a sua missão é simples: servir de tela em branco para as marcas que saciam a sede de inspiração dos seus milhares de seguidores, incluindo plataformas como o Instagram, onde soma mais de meio milhão. Torna-se assim óbvio como, até certo ponto, sofremos todos da mesma patologia crónica, de ter um armário cheio de roupa e nada para vestir, especialmente para ocasiões especiais. Para Sandra Majada, formada em Publicidade e Relações Públicas, a trajetória que traçou ao longo dos anos graças à sua presença online, especialmente ao blog que assina com o mesmo pseudónimo, é fruto do amor declarado que nutre por bodas, festas e casamentos — e, claro, pela liberdade que a Moda lhe confere quando é hora de os celebrar. Entre os diversos tipos de invitadas que encontramos nas redes, como Margarita de Guzmán Luque (@invitadaideal), ou a página de Susana Tornero (@ynosfuimosdeboda) podíamos pensar que o conteúdo apresentado se resumisse a fotografias típicas de modelo ou influencer, em que se mostram panóplias de vestidos, e já está. E estaríamos redondamente enganados: as propostas são detalhadas, muitas vezes em sintonia com tradições locais (como a Feira de Sevilha), e alongam-se entre batizados em manhãs de verão, casamentos ao fim da tarde, ou bailes de finalistas à noite — em número proporcional ao de marcas prontas para colaborar com este género de espaços online que se tornou o Google de todas as convidadas ainda perdidas quanto ao dress code. Só no mercado espanhol, as opções de cura para este mal são quase infinitas, e para todos os gostos: Apparentia, Lola Li, See Iou, Miphai, Lady Pipa... Um requisito indispensável? A etiqueta “Made in Spain” e muita, muita cor.

Alto e para o baile! É necessário considerar outro ponto altamente relevante para a questão em mãos: the royals. Pode parecer disparatado, mas não é de todo por acaso que é de Espanha que nos chega a maior oferta para este nicho de mercado em plena expansão. A lealdade à etiqueta que é ditada há décadas (séculos?) pelas tradições na nobreza mantém-se preservada pelas escassas famílias e entidades que ainda persistem, em pouco mais de uma mão cheia de países europeus, e que vivem sob um código de conduta — e de vestuário —que dita o certo e o errado no que às situações de interação social diz respeito. Assim sendo, estamos na presença de meios que começam por providenciar, antes de qualquer outra coisa, uma fonte inesgotável de inspiração: não há calendário no mundo com mais separadores abertos do que o de uma família real, em que toda a escolha de vestuário é analisada ao milímetro, ao mais ínfimo pormenor, não só por olhares leigos interessados, mas pela imprensa, pelas marcas, e por toda uma indústria pronta a saltar na próxima tendência mais-que-tudo. Essa “realeza” sofreu mutações, e destes contextos emergiram substratos de influência que despertam uma curiosidade quase mórbida das massas. Certas personalidades e celebridades (mas não só) com a capacidade de atrair todas as atenções, mesmo enquanto plus ones. Os Beckham, em Inglaterra, são um bom exemplo disso mesmo. Sendo que representam o mais próximo de realeza que a sociedade moderna estipulou, há muito que deixaram de poder passar despercebidos como meros convidados aquando das suas comparências nos círculos sociais em que se movem. Pode argumentar-se que o vestido que Victoria Beckham levou ao casamento do filho mais velho, Brooklyn, causou mais sensação do que o da própria noiva, e que David Beckham roubou todas as atenções com o fato slim fitted que escolheu usar no casamento real de Meghan Markle e do Príncipe Harry, em 2018. Dos Estados Unidos chega-nos o alcance de apelidos como Clooney e Fürstenberg, e em Espanha, desde Sara Carbonero, passando pela Infanta Sofía e Princesa Leonor, quase não há tinta suficiente nas canetas para discorrer tal análise.

 

O que diferencia este lado tão específico (mas tão abrangente) do mercado é um pormenor proveniente da pergunta que sem dúvida paira na cabeça de qualquer leitor nesta altura do texto: porque é que um vestido de uma marca “normal” qualquer, leia-se, não tão especializada, não serve? Pode servir, claro. É, aliás, uma excelente opção na maioria das vezes. Propositadamente, o termo empregue foi “na maioria” e não “na totalidade” das vezes, porque no topo da pirâmide de potencial horror que são as várias fases desta experiência enquanto convidada-a-tentar-ser-perfeita, está uma coisa, e uma coisa apenas: aparecer com um vestido, ou fato, ou o que seja, igual ao de outra convidada. Podíamos sentirmo-nos tentados a pensar que tal nunca aconteceria, afinal de contas a teoria das probabilidades diz-nos que, dado o tamanho desmedido do mercado, as chances são ínfimas. Mas não zero — especialmente considerando que o mundo inteiro se serve da oferta de uma ou outra loja, também elas espanholas, mas cuja etiqueta raramente lê “Made in Spain”... Deixa de entrada para os maravilhosos nichos de mercado, os pequenos players que apostam na sua arte e criatividade para criar identidades próprias, com propostas que permitem explorar as tendências de cada temporada, sempre com o foco em vestir a fantasia de momentos que nos ficam marcados na memória. É importante salientar ainda uma outra faceta do bom-senso neste tópico em particular. A não ser que falemos de um vestido de noiva (e mesmo assim, reservamos-lhe a possibilidade de igual forma), não seria propriamente sustentável nem para o planeta, nem para o espaço físico de qualquer guarda-roupa, amalgamar infinitos vestidos, fatos e combinações de cada vez que somos afortunadamente convidados para alguma coisa. Não é porque um vestido é desenhado para uma ocasião específica que esse tem de ser o seu único destino e utilidade — estas peças do nosso guarda-roupa denotado como mais “especiais” não perdem a magia por vias da reutilização ou reciclagem. Palavra de Vogue.

Por outro lado, a ligação emocional que nutrimos com uma peça de roupa desenhada com um propósito, para um momento em particular, tem o poder de superar o tempo e o espaço. Há uns meses, aquando de uma expedição de reconhecimento por entre os confins do meu guarda-roupa, deparei-me com dois porta-fatos dos quais não me lembrava — um dos sintomas de falta de organização crónica, mas que permite uma ou outra surpresa, de vez em quando. Abri o primeiro e senti imediatamente as lágrimas acumularem-se no canto dos olhos, qual teste aos limites da minha compostura: era o vestido que tinha levado ao casamento de alguém da família, há muitos anos. O segundo abriu-o a minha mãe, algo perplexa pela descoberta, de onde, de rompante, tirou o vestido que ela própria tinha usado para a mesma ocasião. Era cor-de-rosa escuro, decote em barco e bainha acima do joelho, com um casaco curto do mesmo tecido, com um aplique em forma de camélia. Podia perfeitamente ter sido desenhado hoje por uma das marcas que mencionava acima, encaixado entre as curvas e contracurvas da Moda, qual relógio parado condenado a estar certo duas vezes por dia — talvez mais vezes ainda quando falamos da tendência inspirada pela eterna elegância de Jackie O. Pegou no ensemble à sua frente, parou uns segundos, e vestiu-o. Perguntei-lhe onde ia, toda aperaltada. Respondeu-me num tom sereno: “Eu? Vou trabalhar.” Não sei se fomos as convidadas perfeitas, nem qual será o elemento verdadeiramente decisivo para merecer tal denominação, mas a fantasia, essa, parece permanecer para sempre, pelo menos enquanto as roupas encerrarem a memória de momentos felizes – mesmo os dos outros, que tornamos nossos.

Texto originalmente publicado no The Fairytale Issue, disponível aqui.

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